sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Responsabilidade

Talvez princípios dos anos oitenta do século passado ou até finais da década de setenta. O funcionamento da Banca estava longe, muito longe, daquilo em que se viria a tornar, quer na forma quer no conteúdo. Os computadores estavam a dar os primeiros passos e tudo passava pelos olhos e pela esferográfica que preenchia e assinava.

O senhor H. era um cliente conhecido de todos pela sua arrogância, considerando-se com direitos especiais face à sua categoria e capacidade, e sempre disponível para abrir a porta do gabinete do gerente, queixando-se do atendimento de algum ou de ter sido preterido em favor de alguém menos "importante", ainda que chegado primeiro.

Naquele dia, trazia os cupões da Obrigações FIP, para receber os juros pagos semestralmente pelo Estado. As obrigações FIP - Fundo de Investimento Público eram tituladas por folhas enormes, impressas na Casa da Moeda, que exibiam na parte inferior os cupões que eram cortados em cada semestre e apresentados a pagamento. Também semestralmente, o Estado sorteava os números das obrigações que pretendia (ou podia) liquidar antecipadamente e reembolsava o capital de algumas delas. A vida máxima podia ir até aos dez anos e muitas permaneciam "vivas" até final. Ditavam o reembolso a evolução das taxas de juro e a disponibilidade do erário público.

 - Quero receber estes juros, disse o senhor H., sem nenhum cumprimento, o que ninguém estranhava.

Entregou o montinho e dirigiu-se ao gabinete para cumprimentar o "poder".

- Dá licença, senhor N.?

- Diga, diga ... 

- O senhor H. traz uma obrigação que foi sorteada há seis meses. Já não podemos pagar estes juros.

 Ninguém me disse nada. São uns incompetentes! 

A voz já estava alterada e as faces ruborizadas.

- Quero receber o capital e os juros dos seis meses.

O gerente garantiu de imediato a satisfação da exigência.

- Fique descansado, senhor H.. A sua conta será creditada hoje pelo valor total.

E foi. Os arquivos foram visitados e identificados os dois distraídos que tinham aposto a sua assinatura no documento de pagamento, sem cuidarem, primeiro, de verificar a lista das obrigações sorteadas. A espada caiu sobre as duas cabeças ...

- Vocês sabem muito bem ... o cliente tem sempre razão e a responsabilidade é toda vossa.

Nesse dia, cerca de um quarto do ordenado mensal de cada um dos "malandros" distraídos foi parar à conta do senhor H. que, naturalmente, nunca agradeceu nem isso fazia parte do seu vocabulário.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(..) Ao terceiro dia os símbolos foram depostos em Elvas.

Durante a tarde de sábado as forças militares deitaram por terra o que ainda restava do regime recentemente derrubado. Muitas foram as pessoas que se juntaram na Praça D. Sancho II para assistir à  retirada da placa da fachada da sede da PIDE/DGS. Houve ovações aos militares e vivas a um Portugal livre. Antes disso, no interior do edifício, inventariou-se o espólio existente.

No Largo de São Martinho, a tarefa repetiu-se. Também o edifício da Legião Portuguesa viu ser retirada da fachada a placa que a mencionava, como se nunca tivesse existido ou quisesse esquecer-se a sua existência.

Na noite anterior a Praça D. Sancho II tinha sido pequena para receber todos os que quiseram dar largas à sua satisfação, à esperança adiada de ver cair o regime, de poder sonhar um Portugal diferente. Os jovens eram os mais entusiastas, mas havia homens e mulheres de todas as idades e credos, militares e civis, sob a égide da antiga Sé, vigia perene. Traziam cartazes e faixas onde se podia ler agradecimentos às Forças Armadas e palavras de insulto ao fascismo.

- Em vez de ódio e dor, queremos paz e amor.

- Viva M.F.A. 

- Viva Portugal.

Abril
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2024)

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A brincar ...

 ... se dizem coisas sérias, quando se tem capacidade!

Se mais não houvera, o Expresso valeria sempre pela arte de António.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Sou eu.

Saio de casa, atravesso o jardim e caminho na rua no meio dos desconhecidos que nela passam, também eles portadores de uma vida, nenhuma das quais é menos importante do que outra: todas são humanas, genuínas, e cada um a vive como pode. Não estamos sós, somos iguais ou equivalentes, respiramos o mesmo ar, debaixo do mesmo céu, e, conscientemente ou não, fazemos parte da História.

Ainda é cedo e a manhã está fresca, mas não fria. Olhando em volta vejo que a luz se foi tornando mais clara e a Primavera desponta nos jardins. O céu tem poucas nuvens, vai ser talvez um dia de sol, e a brisa traz consigo uma espécie de alegria.

E quando tiver caminhado o tempo que quiser, até me saciar de ar livre e movimento, vou voltar para casa, sentar-me na poltrona do quarto, perto da janela, e ditar mentalmente a última entrada na Crónica Secreta.

Que nada fique escondido e o secretismo da tua obra e do teu espólio acabe. Que tudo o que foste e escreveste venha à luz do dia, não só do teu ponto de vista, mas também na visão dos que privaram contigo.

No que me diz respeito, que as cartas que trocámos sejam publicadas, sem censura nem cortes, traduzidas noutras línguas e dadas a ler a quem quiser. As duas vozes têm igual direito a ser ouvidas, porque uma carta só está completa se soubermos que resposta recebeu.

Não me preocupei com as tuas teorias, que, como sabes, nunca me convenceram. Mas tudo o que te escrevi é rigoroso e verdadeiro, e não duvido de que terá utilidade - quem sabe, talvez até possa vir a fazer alguma diferença no mundo.

E é com um leve sorriso que ponho um ponto final nesta longa revisitação das nossas vidas. O que quis descobrir foi descoberto, o que de essencial quis dizer foi dito, e não tenho mais nada a acrescentar."

Autobiografia não escrita de Martha Freud
Teolinda Gersão
Porto Editora (2024)

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Palavras bonitas

ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Guerras

A guerra na Ucrânia está quase "milionária", não no sentido do enchimento dos bolsos de muitos nem do número de mortos e feridos que já causou, mas nos dias da sua duração, sem se vislumbrarem quaisquer soluções. E vamos vendo, ouvindo e lendo, sem podermos ignorar, como nos ensinou a grande Sophia, mas também sem nada fazer para contrariar.

Gostava muito de ter uma opinião clara e fundamentada sobre o que se está a passar no mundo e o que leva e justifica a selvajaria que por aí vai grassando. O que vai acontecendo aqui mesmo ao lado - as distâncias são, agora, um pulinho -, quer na Ucrânia quer na Palestina, angustia-me. Acho deplorável, inconcebível, execrável, horrível, sendo insuficientes todos os adjectivos para qualificar a miséria, que não consigo qualificar.

Hoje, como faço (quase) todos os dias, li o post do Embaixador Seixas da Costa, no seu blogue "Duas ou três coisas" e as suas palavras encheram-me de inveja. Vale sempre a pena ler (ou ouvir) quem sabe!

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Higiene

As recentes eleições nos Estados Unidos têm feito correr muita tinta e o seu resultado vai trazer consequências, gravosas, para todo o mundo, diz o meu "eu" comentador e observador atento.

Ainda não perdi as esperanças de, um dia, ir conhecer esse gigante que manda e tenta controlar todo o mundo e onde, por estranho que possa parecer, o "poupinha" vai voltar à presidência. 

Sendo um país tão grande e tão diverso tem, contudo, a bandeira mais higiénica do mundo, de acordo com o saber do Carlinhos, essa "enciclopédia" infinita dos ditos acertados e certeiros.

- Sabes qual é a bandeira mais higiénica do mundo?

- Nem imagino ... deve ser a que foi lavada há menos tempo!

- Nada disso. É a dos Estados Unidos da América.

- E porquê?

- Porque tem cinquenta estrelas e nove de cada dez estrelas usam "Lux"; e nas riscas vermelhas contém "hexaclorofene" que torna o hálito puro e fresco. 

A publicidade cria coisas que nem o tempo faz esquecer. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Festas

A noite de ontem fica na história pela despedida, brilhante, de Ruben Amorim, com a vitória do "seu" Sporting sobre o futuro rival Manchester City, com um resultado que ninguém esperava: 4-1. Amorim ganhou, e bem, despedindo-se de Alvalade pelo portão enorme e abrindo as portas de Manchester com direito a trombetas e desfiles de gala. Não é muito comum nos treinadores de futebol, mas aconteceu.

Do lado de lá do Atlântico, contrariando as previsões de muitos comentadores televisivos, a democrata Kamala Harris não foi capaz de fazer frente ao "poupinha loira", que os eleitores americanos entenderam ser o "deus" indicado para os guiar nos próximos quatro anos.

Tenho para mim que vai ser um período de luxo, com tiradas diárias indignas da tasca mais rasca e decisões que tornarão o mundo ainda mais complicado do que ele já está hoje. A ver vamos ... como diz o cego!

sábado, 2 de novembro de 2024

Olhares

Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria.
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

António Aleixo

Por aqui, no sossego do Bairro, brilha o sol,  a temperatura está agradável, a relva pede corte, as flores riem-se e o pensamento vai para a tragédia que se abateu sobre as terras de Valência. E se?

Vamos à Foz, onde o mar está chão e os muitos surfistas buscam uma ondita e nem a vislumbram. As ilhotas de areia cada vez ocupam mais espaço da Lagoa e os telhados dos bares da avenida, muitos ainda de amianto, obrigam a que os olhos se mantenham fixos lá bem longe, no horizonte, e tentem descortinar a Berlenga.

Um imenso mau gosto, temperado com lixo e outras porcarias à volta de quase todos os estabelecimentos que aguardam os fregueses para o almoço. No entretanto, vão agredindo quem lhes olha para as traseiras e vê o nojo que por ali vai.

Olhemos o mar!!!