"(...) Estava a ser um verão duro. Não se podia sair da sombra, sair de casa, sair da cama, dos sonhos. O melhor era viver nos sonhos e nas noites, que também eram para sonhar. E a Pessivista perguntava: é verdade que o incrível Agilulfo não sonhava. Refazia a pergunta: conta-se que tinha noites como ausências, como se a alma e o corpo não coincidissem. Ele terá confessado que perdia a alma no sono, não sabia onde se guardaria, talvez prestasse serviço noutra dimensão absolutamente fechada ao conhecimento do corpo que esperava inerte, abandonado, na cama. Talvez as almas de uns prestem serviço a outros no lado oposto do mundo. Quando aqui é noite, é dia no planeta ao contrário. Talvez a alma de Agilulfo lhe fosse do corpo ao deitar para prestar serviço a alguém que justamente acordaria naquele instante. As mulheres riam discretas, para não fazer daquilo uma estupidez. Deixavam que fosse coisa poética. Uma ideia bonita muito bem ambientada entre os tons da salinha que ocupavam. E a Pasteleira, sempre agarrada à nova fé, dizia que não queria nada aceitar perder a alma à noite e que passaria a trancar a sete chaves as portas e as janelas, haveria de calafetar cada ínfimo buraco para não arriscar que a alma lhe fugisse nem que fosse mais magra do que um alfinete. Aprenderia a pôr-lhe cabresto, uma coleira, uma corrente de aço com uma bola de pedra na ponta, alguma coisa tão aprisionante, que não daria mais de uns milímetros de distância do coração. A alma que se levantasse mais de um milímetro do coração já deixaria saudade. Não queria. Era cobiçosa da alma e só lhe dava vontade de a aumentar, de a ter mais e mais. Brincavam. Estavam a brincar. Queriam comentar sobre os assassinos, mas ainda não ganhavam coragem. E a Marquesa, sem costumes humorísticos, apontando para as laranjas frescas que a Criada acabava de deixar num tabuleiro irrepreensível, dizia que o esposo não era de garantia. Tudo o que pode ter dito também podia significar o contrário. Era enigma de quem existiu diferente, como os génios. Agilulfo, com a graça de Deus, era como os génios. Não se comparava com a normalidade. Ao dizê-lo, outra vez se escutou a sineta e a Criada correu a buscar a Coveira, que era confiante de encontrar ali um figurino para um casamento da prima a acontecer no fim de Agosto. Deram-se boas tardes como já uma pequena multidão, e a Coveira perguntou: alguma coisa azul-celeste. Quero ir de azul-celeste, para me valorizar os olhos.(...)"
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