quarta-feira, 17 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>

 (...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.

<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero!  Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

Bancários
Luís Bento
Fundação Manuel Francisco dos Santos (2026)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cinismo

O que qualquer pessoa de bom senso desejaria e esperaria era que OMAR ARTAN fosse o árbitro da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, que ontem se iniciou no México, Estados Unidos e Canadá.

Vindo de um país situado nos degraus mais baixos da escada (em tempo apelidado de lixo por essa inteligência rara que manda nos USA), foi considerado o melhor árbitro de África em 2025. A sua participação seria um espelho onde toda a gente que por lá nasceu decerto se reveria com muito orgulho e com a certeza de que o local de nascimento não é um ferrete indelével.

Não aconteceu! O homem da melena impediu-o de entrar por vir da miséria e não pertencer ao escol do "cacau". Imagine-se o risco que ele correria se o homem desse uma lição de arbitragem e mostrasse que, afinal, o berço impede muita coisa mas não trava tudo.

Esperar-se-ia uma reacção forte das entidades responsáveis e dos colegas de profissão. Nada! Toda a gente se calou, a bem do "desporto" e do "cacau"!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cansaço

Apetecia-me tanto escrever sobre guerra, drones, carros de combate, ordem unida, pista de obstáculos, pórtico, detentor do cão, rancho, formatura, divisas e galões, aviões, balas normais e tracejantes, mísseis, pára-quedas, corvetas, cornetas, porta-aviões, defesa anti-aérea, granadas, metralhadoras, continências e manejo de armas, tiro, valas, trincheiras, minas, mas estou cansado ... e convencido que sou um nabo azucrinado pelo homem da melena e pela corte de apaniguados que religiosamente o segue.

Reduz-te à tua insignificância e aguarda, serenamente, que te peçam umas "lecas" para comprar os imprescindíveis F-35!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...

"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.

Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.

Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:

O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.

O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.

O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.

Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.

Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.

Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.

O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.

Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"

A cozinheira do ditador
Afonso Cruz

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Chapéus de praia

De acordo com o Público de hoje, a Herdade da Comenda intentou uma acção contra o Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente, reclamando-se detentora de 5 (cinco!) praias da zona da Arrábida que "estão no domínio particular (privado) e não no domínio público marítimo", o que as torna, sem qualquer dúvida, sua propriedade.

Talvez por deficiência de capacidade intelectual, não consigo entender a necessidade de recorrer à Justiça, sempre inundada com trabalho, com um direito que todos deviam aceitar ter sido adquirido há séculos e não merecer qualquer contestação. O seu a seu dono ... e o Estado devia cuidar disso.

Difícil é compreender que o maralhal queira e se ache no direito de frequentar o mar, exibindo os seus dotes natatórios e os seus corpos curvilíneos, sem respeito pelo passado, pelas tradições e por quem manda.

Ironias à parte, não será isto o desencadear de um processo a estender por toda a costa, tornando cada vez mais o mergulho na água salgada um "objecto" de luxo, acessível apenas a quem detém o pedigree necessário? Esperemos que não! Já haverá por aí muita gentinha de sorriso aberto, aguardando tempos novos que lhe acabem com o castigo de ser incomodada no seu merecido lazer.

- Cala-te, palerma! Chapéus há muitos!

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Rotina semanal

O tempero está garantido! E a comida, estará? E a paz, chegará?

A arte, o humor e a clareza de António fazem parte da rotina obrigatória no Expresso semanal. Em papel, claro!

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa em casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

A palma de uma das mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até à hora da descida. (...)"

Olhos d'água
Conceição Evaristo

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Aproximação

Já não bebia água há uma hora e, de acordo com os sábios conselhos expressos pelas entidades que detêm os conhecimentos sobre a matéria, era importante fazê-lo.

Estava distraído a ouvir música e tratando de colocar uma parte dos selos na devida e legível ordem, de forma a facilitar a tarefa de quem os irá cuidar, vender ou mandar para o lixo quando me lembrei dos importantes avisos. Resolvi suspender as tarefas (ouvir música é uma tarefa tão ou mais importante do que tratar dos selos), ir comer qualquer coisa e beber água, muita, que o calor aperta lá fora. Aqui 'tá-se bem!

Liguei a televisão para aproveitar e actualizar as notícias. No estado em que isto está, nunca se sabe o que está a acontecer, o que já aconteceu e aquilo que irá acontecer, para gáudio dos inúmeros e doutos analistas que enxameiam os diversos canais.

Surpresa. Não havia análises, mas antes o debate quinzenal na Assembleia da República. 

Enquanto comia e bebia fui ouvindo Luís Montenegro e José Luís Carneiro discorrerem sobre números da saúde, dos combustíveis, dos impostos e dos descontos, com um a identificar a incógnita "x" e outro a contrapor a "Y", com os mesmos números na base.

Amaldiçoei, entre comas, os excelentes professores que tive a Matemática, porque concluí, brilhantemente, que dois e dois afinal não são quatro e que a Matemática está longe de ser uma ciência exacta.

- "Pi"

É apenas uma aproximação! 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mentirinhas

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade!

António Aleixo

  • Afinal, a União Europeia rejeitou quaisquer responsabilidades no caos que se instalou nas entradas dos aeroportos portugueses, por mau funcionamento do sistema de controlo biométrico;
  • Afinal, Portugal autorizou "de cruz" a utilização da Base das Lages, conforme afirmou o Secretário de Estado americano Rubio ... sem corar;
  • Afinal, por muito que custe a Paulo Rangel, a terra é redonda e a mentira, tal como ele, tem perna curta!

terça-feira, 19 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estamos em 2066 e tenho sessenta e seis anos. (...)

Para compreendermos mais depressa o que nos propõe Ava Carina, porque se lembrou disto agora, deveríamos todos ter aprendido com a moda.

Se observássemos como cada vestuário com rasgo de futuro trazia agarrado uma nostalgia, teríamos visto mais cedo como tudo se repete.

A alta-costura foi das primeiras evidências. Imaginação ao serviço de um eterno retorno. Evocações de passados tornaram-se indústrias. Ouçam como cada anúncio de progresso nos diz que isto ou aquilo está de volta. Saudades da pinta das calças e casacos de antigamente, dos cozinhados das avós, dos Natais, das férias da infância com o mesmo grupo de amigos. Os relógios que inventámos andam às voltas. Estamos destinados a tocar como um disco de vinil, que vai por ali fora até termos de o virar. E quando começa o lado de lá, é o mesmo disco que recomeça.

Por isso, quando Ava Carina explicou

- Chamei-as porque sou toda a favor da resiliência, e não aceito que os livros morram

percebi que fomos convocadas por ela como velhos mecânicos aposentados o seriam por um jovem que levanta o capô do carro e não faz ideia do que se passa ali.

Os regressos, as nostalgias. Porque lhes escapariam os regimes políticos? Ava Carina é apenas uma das testas-de-ferro de um novo tempo, e um novo tempo começa sempre por destruições selectivas no edifício que está em vigor.

No entanto (e é nisto que a humanidade é teimosa como a criança que volta ao fogo depois de se queimar) um novo tempo vai sempre beber ao passado, desde que seja longínquo. É um tão clássico quanto esquecido mecanismo de falta de memória, ou melhor, de apagamento progressivo da memória, que costumava durar muitas décadas, mas tende a ficar mais curto.

Nos anos dois mil e picos, era eu uma criança, mais ou menos setenta anos após a exposição ao mundo dos horrores dos campos nazis, começaram a surgir os primeiros arranhões nas juras de que nunca se poderia repetir.

Vocês lembram-se. Surgiram e multiplicaram-se vozes a questionar se teria sido mesmo assim, esse Holocausto de que tanto falam. Se não haveria um folclore exagerado. Chegou a ouvir-se que o sofrimento dos judeus foi pura e simplesmente inventado por uma geração para condicionar as seguintes. (...)"

O meu primeiro apocalipse
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2026)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Informação

Dou por mim muito, mas mesmo muito, preocupado!

Como não utilizo nem frequento regularmente as redes ditas sociais e nem sequer sou subscritor da que o "homem da melena" faz uso diário, corro o risco de me tornar mentecapto, com a redução da capacidade intelectual que a ausência dessas fontes de "informação" altamente fidedignas vai certamente provocar.

"A culpa deve ser do Sol"! Tenho de ir atrás da banda ou vê-la passar, ouvindo Chico Buarque!

sábado, 16 de maio de 2026

Arte e humor

Não pretendo, longe disso, transformar o blog num obituário ou criar nele uma página da necrologia como, em tempos idos, existia nos jornais. No entanto, perdas há que não resisto a registar, por razões, as mais diversas, que me dizem muito e me dispenso de enumerar.

João Abel Manta ficou a "dois passos" do centenário, mas a sua obra permanecerá por muito tempo, com actualidade e como documento histórico.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aniversário

Foi há precisamente 20 anos que isto começou!

Numa altura em que tudo foi, e continua a ser, efémero, toda a gente apostaria, singelo contra dobrado, que o projecto (!!!) desapareceria a breve trecho, sem ninguém ter conseguido entender a sua utilidade. Todos os que assim pensaram tinham razão e, volvidas duas dezenas de anos, continuam a ter. 

As cinco interrogações que constavam no primeiro post mantêm-se, mostrando que a resiliência (palavrão da moda, importante e chique) não passa de teimosia exacerbada, sem nexo, causa ou justificação.

E por aqui me fico, no dia em que, antigamente, era da festa do "pau caiado" e hoje, muito bem, é o Dia da Cidade.

Quando anoitecer, sentar-nos-emos na Praça 25 de Abril, a ouvir a Banda Comércio e Indústria e Paulo de Carvalho, tal como na noite de ontem presenciámos a banda Némanus e o habitual fogo de artifício, excelente, diga-se.

Haja cadeiras suficientes, que os joelhos (e não só) já têm muita dificuldade ...

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Barbárie

Imagens "roubadas" no blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Seixas da Costa, sem qualquer autorização. A justificação para a falta de respeito e para o acto em si reside "apenas" no facto de elas serem tão elucidativas do que a guerra faz, ou melhor, do que fazem os homens. E nós cá vamos ... cantando e rindo, como no tempo da "outra senhora"!


terça-feira, 12 de maio de 2026

Palavras bonitas

POEMA DO HOMEM NOVO

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze no total, 
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobrehumano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

Novos poemas póstumos
António Gedeão
Edições João Sá da Costa (1998)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Mãe

 Hoje, sim, é o Dia da Mãe. Da minha!

Nascida há 103 anos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, viveu as grandes dificuldades da Segunda, da qual recordava, muitas vezes, as senhas de racionamento e as necessidades de coser roupa até ao limite. Sofreu, entre muitas outras, as agruras antecipadas de ver um filho na guerra (colonial), o que o 25 de Abril, felizmente, lhe evitou.

Partiu, satisfeita com o que tinha conseguido fazer pelos dois filhos que, por enquanto, ainda a vão recordando e mantendo viva. Teve uma vida difícil, sem um queixume e sempre com agulhas, alfinetes e linhas por perto!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Português

Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.

Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.

"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.

- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.

Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.

- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...

Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.

- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ... 

Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:

 - O menino, se não veio até agora, já não vem!

A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:

- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!

Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.

- Não vem! E nós havemos de ver!

Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:

- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...

Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.

- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.

- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...

Tentava iludir-se e iludir o destino.

- Deus te ouvisse ...

Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.

- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"

Vindima
Miguel Torga
Coimbra (1997)

domingo, 3 de maio de 2026

Tecnologias e dependências

Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.

Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off  avisava:

- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.

A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.

Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.

O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado

Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ... 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do Trabalhador

Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.

A arte de António, no Expresso de hoje!