sábado, 16 de dezembro de 2006

Palavras bonitas

DIA DE NATAL
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que
padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar
a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não
merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera
e tão séria
.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que
o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio
de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos,
esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se
fossem suas
e fazem adeuses aos bons amigos que
passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro
e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos
e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se
no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha
pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

AH !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estratégicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

  
Máquina de Fogo
António Gedeão
Poesias Completas
Portugália (1975)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Nível


Correspondendo ao apelo do filho, fui hoje ajudar a colocar numa parede um conjunto de elementos decorativos, postos com rigor de distâncias entre si e na distribuição no espaço onde passaram a estar.
Para a tarefa, foi necessário recorrer a um nível, ferramenta imprescindível para que a horizontalidade e, fundamentalmente, a verticalidade das peças colocadas ficasse garantida.
De regresso a casa, com o frio a anquilosar os neurónios, veio-me à memória não uma frase batida, mas uma ideia "brilhante", daquelas que quer Einstein quer o Professor Pardal não desdenhariam, a saber: se existe legislação e normas de conduta que nos obrigam a cumprir uma infinidade de regras e nos penalizam se as infringimos, por que não aprovar uma Lei que nos compelisse a usar um nível, ainda que de tamanho reduzido, ao qual seria acoplado um apito, de cor à escolha de cada um, para garantir a democraticidade da medida.
Com as possibilidades que a informática hoje oferece e para que se tirasse o maior proveito da nova regra, o equipamento estaria dotado de um chip, que albergaria os elementos da nossa identidade, a carta de condução, o passaporte, os cartões de contribuinte, de saúde e do clube, o passe social, os documentos do carro e da casa. Poderia, numa pasta de acesso restrito, ter ainda as preferências de cada um, em matéria gastronómica, de lazer ou outras, rentabilizando de forma apreciável os meios e evitando os gastos que irão acontecer com o Cartão Único, que tanta polémica tem dado.
O funcionamento, simples, seria o seguinte: sempre que o cidadão baixasse a níveis da cave, da sarjeta ou do esgoto, perdesse a verticalidade ou desencadeasse processos tortuosos, o chip encarregar-se-ia de accionar o apito e este, qual trombeta anunciadora, apitaria sem fim.
Pergunta inocente: haveria poucas apitadelas ou o barulho tornar-se-ia ensurdecedor?

domingo, 10 de dezembro de 2006

Óbito

Morreu Augusto Pinochet.
Que a terra lhe seja leve. A consciência, essa, não há balança que lha pese!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Livros (lidos ou em vias disso)

Do último romance de Urbano Tavares Rodrigues ...
  
"(...) É impressionante como numa cidade com uma oferta cultural tão rica como Lisboa (música da melhor, algum cinema bom e o ballet renovado, as grandes exposições) há tão pouca procura e se mantém no galarim esta gente bacoca, espertalhona e pobre de espírito que ostenta uns três automóveis de luxo e tem duas casas de veraneio e quantas vezes mistura negócios sujos com o seu peso político. (...)"

Ao contrário das ondas
Urbano Tavares Rodrigues
D. Quixote (2006)

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Hoje

Dia 5
Cinco meses
Cinco momentos
fixados para o futuro.
Cinco quilos
e mais quatro
quase, quase ...
Lá chegará
dentro em pouco!
Estou a vê-lo
a correr, a saltar
(primeiro irá gatinhar).
É a flor do meu jardim
A estrela do meu céu!
E ouço, num marulhar sussurrante,
a onda do mar que diz
Tão lindo ...
E como cresceu!!!

Efeméride

Passam hoje 215 anos sobre a morte, em Viena, de Wolfgang Amadeos Mozart. Ainda não completara 36 anos, mas já tinha composto muita e boa música, que chegou aos nossos dias e, pasme-se, a este blog. Se a morte o não tivesse levado tão cedo, até onde chegaria o seu génio?

sábado, 2 de dezembro de 2006

A águia





A águia voou ontem por sobre o trânsito da 2ª. Circular e aterrou ali entre o Campo Grande e o Lumiar, num relvado que soltava areia sempre que era pisado, por mais leve que fosse a pisadela.
Foi um voo esplendoroso!
A demonstração plena de que a garra, quando utilizada, supera sempre a unha, por mais real que esta seja.
O leão nem chegou a ser príncipe, quando mais rei!!!

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Palavras bonitas

HOSSANA !
Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!
Desejado por todos os poetas
E profetas
Da vida,
Deixou a sua ermida
E meteu-se a caminho.
Ninguém o viu ainda, mas é belo.
É o futuro ...
Ponham pois rosmaninho
Em cada rua,
Em cada porta,
Em cada muro,
E tenham confiança nos milagres
Desse Messias que renova o tempo.
O passado passou.
O presente agoniza.
Cubram de flores a única verdade
Que se eterniza!

Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Fim do dia

O ritual do costume, na chegada a casa: abrir o portão, à terceira ou à quarta tentativa, que o automatismo só funciona quando quer; pôr o carro debaixo do alpendre, que a arrumação na garagem fica para mais tarde; ir ver o correio; tirar o casaco, a gravata e os sapatos.
Hoje, entre muito lixo de publicidade e duas ou três cartas sem qualquer interesse, vem o JL.
Já sem o plástico que o protege, acompanha-me ao sítio onde, sentado, "todo o cobarde faz força e todo o valente se c171".
Na última página, como sempre, uma autobiografia, desta vez de Teresa Lago, cientista que fez uma "perninha" importante no Porto Capital da Cultura. No seu texto, encontra-se esta pérola, a propósito dos tempos que passou em Brighton, fazendo o mestrado e o doutoramento, o que deve ter acontecido há cerca de 30/35 anos:
... um tempo excitante, entre a aprendizagem da investigação e a família entretanto alargada a três. Mas também um tempo de outras descobertas. E a oportunidade para viver em ambiente onde se descobre, com surpresa, que a natureza é soberana. Talvez mais ainda do que a rainha que os representa. Onde as árvores se não cortam mas se tratam, se doentes. E aos pássaros, se permitia a partilha calma das migalhas sobre as mesas. Onde as casas antigas, preservadas em vez de derrubadas, transmitiam a serenidade da continuidade e a partilha de muitas vidas. Num país onde se cultivava andar a pé, chovesse ou fizesse sol. Talvez porque a milha é bem maior que o quilómetro. Onde o verde dominava, apenas quebrado pelo amarelo dos jacintos que irrompiam aos milhares passado o gelo, ou pelos dourados vermelhos das folhas de numerosas árvores que se descobriam, distraídas da proximidade do frio. Um país onde a curiosidade infantil era virtude a estimular, não sinal de irrequietude. ...
Será um dia possível escrever algo parecido sobre o nosso cantinho à beira mar plantado?

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Nostalgia ?!

Acabei de ler "As pequenas memórias", último livro de José Saramago.
Uma pequena viagem ao Portugal dos anos trinta, que não conheci, com alguns pormenores interessantes e elucidativos, de situações e vivências que se mantiveram, infelizmente, por muitos anos.
O país do Botas, pobrete mas alegrete, na casa portuguesa, com certeza: "quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas, um jardim. Um S. José de azulejo ... "
Bolas !!!
Não me falem do passado, que me dá a brotoeja!
O futuro está aí, para ser vivido.