quinta-feira, 21 de junho de 2007

Palavras bonitas

OS ERROS

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida - o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

O nome das coisas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

terça-feira, 19 de junho de 2007

Perguntas idiotas

Se a língua universal é o inglês, porque forçam as criancinhas a aprender a língua portuguesa e ainda as obrigam a fazer exame?
Não será anti-pedagógico?
Não corremos o risco de ficarem afectadas psicologicamente?
Ou será para obrigar os escritores portugueses a deixarem de escrever nesta língua que, em oitocentos anos, "apenas" deu um Nobel?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Anedotas

Em dia de Santo António e numa altura em que parece haver alguma dificuldade em digerir piadas, surgiu-me na memória uma anedota que se contava no "tempo da outra senhora", com algum cuidado para que não chegasse ao ouvido atento de algum "bufo".
O contador da "estória" perguntava:
- Sabes qual é o português que mais tem convivido com santos?
- Não
- Henrique Galvão
- ???
- Apoderou-se de um navio chamado Santa Maria, que "baptizou" de Santa Liberdade e morreu em São Paulo, tudo por causa de um Santo António, que mora em São Bento e nasceu em Santa Comba.

Retrocesso ?!

Vindo de um homem conhecido pelo seu optimismo, causa preocupação ler isto.

(...) Neste momento há um relatório, nos Estados Unidos, onde se diz que o grande inimigo já não é o terrorismo, mas o perigo que podem representar as populações do Sul, famintas, vítimas do subdesenvolvimento e das catástrofes naturais, procurando desesperadamente entrar nos países ricos do Norte. E a única resposta possível - diz o relatório - será a sua exterminação em massa.

Vejam! Trata-se de preconizar o regresso à barbárie ... Depois do humanismo iluminista e, apesar de tudo, de dois séculos de progresso...

... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma. (...)

Mário Soares
Entrevista à Revista Única
Jornal Expresso - 09.06.2007

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Palavras bonitas


MOINHO SEM VELAS 

Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Livros (lidos ou em vias disso)

" ... Na cabeça de Laura. Na sua cabeça viaja, doce, segue fluída a tranquilidade de não pertencer. Nenhuma expectativa, nenhuma angústia. Assim dita, uma paz.
Porque vive numa calma ausência de si. ..."

Um livro de imagens ou um filme de palavras?

Talvez um quadro da vida, actual, pintado de forma abstracta, com cores tão reais que os factos entram pelos olhos dentro. Um rigor descritivo impetuoso, que nos transporta para o interior da história e nos faz sentir parte nela.
Parece tão fácil!


Mulher em branco
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2006)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Vida ?!

O filho morreu num acidente de automóvel, na madrugada do final de mais um turno na área de serviço onde trabalhava. Deixou-lhe uma neta, com três anitos, que mal conhece a mãe e nunca mais verá o pai. O marido não anda nem fala há dezasseis anos, vítima de duas tromboses.
... em dois dias seguidos, veja lá ... o meu filho ajudava a dar-lhe banho. Agora, falei a um homem para me lá ir ajudar, ao Domingo ... nos outros dias, tenho de o lavar na cama.
A reforma do marido são pouco mais de 300,00 Euros.
... poucochinho, mas tem de chegar ... trabalho de manhã em casa de uns senhores, que são muito meus amigos ... à tarde, passo-lhes a roupa ... vão pô-la lá a casa, que eu não a conseguia levar ... são muito meus amigos.
Já pagou metade do funeral, com algum que tinha e uns "trocos" do filho.
... talvez consiga pagar o resto até Agosto.
A vida é madrasta, balbuciei.
A comoção já era visível no vidrado dos olhos de ambos.
... assim que vier o resultado da autópsia, venho cá entregar-lhe.
Pois ... sem isso, o seguro não resolve nada.
... muit'obrigada, bom dia .. até à próxima.
Bom dia ??????????
Não é ficção! Aconteceu-me, hoje!

terça-feira, 22 de maio de 2007

Reflexão

Dicionário Porto Editora
CHARRUA - arado grande com um jogo de rodas adiante e uma só aiveca; antigo navio de três mastros, de grande porão, destinado ao transporte de tropas, víveres, munições, etc.; agricultura; navio ou automóvel ronceiro.
Dos jornais
CHARRUA - professor castigado pela Directora Regional de Educação do Norte por ter brincado, gozado, gracejado, zombado do Primeiro Ministro José Sócrates.
Não se acredita! É inverosímil!
Só pode ser piada de mau gosto, imaginação fértil de quem divulgou a notícia ou confusão com algo parecido acontecido num "Burkina Fasso" qualquer.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Aprender e saber









Há muitos, muitos anos, tive um professor que dizia, com alguma frequência que "quanto mais sabemos, mais ignorantes somos".

Perante a perplexidade do aparente paradoxo, ilustrava, no quadro ou no primeiro papel disponível, o seu ensinamento, desenhando, primeiro, uma pequena circunferência, na qual colocava dois raios que formavam um quarto de círculo. De seguida, desenhava uma nova circunferência, bem maior do que a primeira, e nela inscrevia, também, um quarto de círculo.

As circunferências ilustravam a dimensão dos campos de conhecimento, os quartos de círculo, a nossa sapiência (!?) e a conclusão era óbvia: à medida que o campo de conhecimento aumentava, o saber era maior, mas a área do desconhecido aumentava muito mais, verificando-se, de ciência certa, que o saber completo é inatingível e que, todos os dias, em todas as áreas, encontramos alguém que sabe alguma (muita) coisa que ignoramos.

Síntese: Aquele que pensa que sabe tudo, não é sapiente, é "sabão": meia dúzia de "lavadelas" e o "sabão" derrete-se.

Coisas bonitas

Palavras, imagens, música, voz, uma infinidade de coisas bonitas