domingo, 25 de outubro de 2009

Mobilidade

O "fotógrafo" passou por lá e registou... na Rua Ilídio Amado, junto ao Centro de Artes, local aprazível, que convida ao passeio, à meditação e que, nesta altura, tem medronhos muito saborosos, uma paragem do TOMA, que ocupa o passeio e mal deixa espaço para a passagem de uma pessoa.

Carrinhos de bébé e cadeiras de rodas terão de utilizar a estrada, com os perigos e os inconvenientes que daí decorrem.

Para corrigir, teria sido suficiente recuar dois metros e eliminar um dos lugares do estacionamento, que raramente estão ocupados.

A (in)sensibilidade a marcar pontos!

domingo, 18 de outubro de 2009

Domingo de Outono


Não há vento, o sol pinta o mar de verde esmeralda (ou será azul marinho?), as ondas da maré vazia espraiam na areia, quase pedindo desculpa por a molestarem. É a Foz no seu melhor ... mas estamos em meados de Outubro!

Linda manhã!

E que bem que soube o mergulho e as braçadas no Atlântico com temperatura de Julho.

Refrescaram-se as ideias, esqueceram-se os problemas, leram-se uma páginas, passeou-se na areia e ouviu-se a "sinfonia marítima", no sossego de uma sala quase sem espectadores.

sábado, 17 de outubro de 2009

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Deponho no processo do meu crime.
(Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz).
Juro
Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
Merda ! - lembro-me bem.
- Crianças ... - disse alguém
Que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente,
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha ...

Câmara Ardente
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Não serve de desculpa para a ausência do Blog, mas (também eu) estou a ler o 2666, ainda que há muito pouco tempo.

Das 1030 páginas, li pouco mais de 100! A empreitada pressupõe tempo e paciência ... espero que compense!

"Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? " está na fila, mas, para este, é preciso, para além do tempo, que os níveis de concentração voltem ao normal e que a "pinha" esteja desocupada.

Voltando ao 2666: peguei-lhe há pouco, aproveitando um pequeno espaço, e deparei com a descrição que abaixo reproduzo a qual, pasme-se, versa um assunto que tinha sido tema na conversa de hoje em casa do meu neto.

"(...) Durante muito tempo esqueceram-se das suas viagens semanais a Londres. Esqueceram-se de Pritchard e da Górgona. Esqueceram-se de Archimboldi, cujo prestígio crescia à margem deles. Esqueceram-se dos seus trabalhos, que escreviam de forma rotineira e desabrida e que mais do que trabalhos seus eram dos seus discípulos ou de professores auxiliares dos seus respectivos departamentos recrutados para a causa archimboldiana à base de vagas promessas de contratos como efectivos ou aumentos de salário.(...)

2666
Roberto Bolaño
Quetzal (2009)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando a vontade de ler se desvanece, quando a concentração se dispersa, quando o ouvido é massacrado de "barbaridades" sem nexo, "marketizando" o que devia ser sério, com meias verdades a ilustrarem as realidades, o folclore demagógico servido na bandeja da propaganda, coloco no aparelho o CD "Longe daqui", de Pedro Barroso, pego em Torga e "desapareço".

"(...) Tropeçar? Não aguentar a carga? Se fosse apenas isso! Embora pessimamente dormido e com a barriga vazia, nem as pernas lhe quebravam às primeiras, nem três sacos de centeio lhe faziam mossa. Os aborrecimentos que temia eram doutra natureza ... Qualquer encontro desagradável, por exemplo ...

Nem de propósito! Ele a pensar no mal, e a ponta de um uivo tenebroso a furar-lhe os ouvidos.

Um arrepio fundo percorreu-lhe o corpo. E, a seguir, todo ele ficou hirto, frio, pregado ao chão, num pânico mortal. Obra de um segundo, apenas. O justo tempo de a arreata ficar esticada entre a mão que a segurava e o argolão do cabresto. É que reagiu logo. Que diabo! Ia ali quem o defendesse ... Não havia razão para um terror assim!

Mas o dono, enigmaticamente, recuava. Aos poucos, encurtava os passos e chegava-se ao seu bafo. Mau! ...
Novo uivo, quase sobre eles, fendeu a noite. E ambos, agora como se fossem um só, de tão cingidos, se puseram a pisar o chão ao de leve, encolhidos no bioco da noite, com a respiração suspensa.(...)"

Bichos
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Palavras bonitas

Para o meu filho, que hoje fez 28 anos, a poesia e o mar ... da Foz!

 
E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

Obra Poética 1948-1988
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Com o pensamento, estou do outro lado do mundo, ultrapassei o vento e o mar, deixei para trás os cabos e as ilhas onde vivem os homens, onde nos prenderam. Como um pássaro, deslizei rente à água, seguindo o vento, na luz e na poalha do sal; aboli o tempo e a distância e cheguei ao outro lado, onde a terra e os homens são livres, onde tudo é realmente novo. Nunca tinha pensado nisso antes. É um espécie de embriaguez, porque naquele momento não penso em Simon Ruben, nem em Jacques Berger, nem mesmo na minha mãe, nem sequer no meu pai, desaparecido no meio das ervas altas acima de Berthemont; não penso no barco nem nos fuzileiros que andam à minha procura. Mas procurar-me-ão mesmo?

Não terei desaparecido para sempre por sobre o mar, suspensa no meu esconderijo de rochas, no meu ninho de pássaro, com o olhar fixo nas águas? O meu coração bate serenamente. Já não sinto medo, já não sinto fome, nem sede, nem o peso do amanhã. Sou livre, tenho dentro de mim a liberdade do vento e da luz. É a primeira vez.(...)"

Estrela errante
J.M.G. Le Clézio
D. Quixote (2008)

domingo, 9 de agosto de 2009

Nostalgia

O saibro ainda se mantém, alaranjado, contrastando com o verde do buxo ratinho que circunda os canteiros. O caramanchão das Strelitzia está enorme e adivinha-se a beleza que apresentará quando os bicos de pássaro mostrarem os seus amarelos, laranjas e azuis, a encimarem o verde dos seus caules. A cameleira lá permanece, de guarda ao portão do jardim, a marcar o início da beleza que vai surgir.
O vento, agreste, produz o mesmo som nas copas, bem altas, das árvores centenárias. Nos loureiros, os melros devem estar bem aconchegados, à espera que a perturbação passe e o dia clareie. Sente-se que os pardais estão lá bem no alto das palmeiras, atentos a tudo o que se passa.
A relva está fofa, o cenário montado, as cadeiras no lugar e as gentes importantes com o lugar nas cadeiras.
As luzes focam a casa onde se guardavam as alfaias. Quase de certeza que, agora, outro mimoso nela se resguardará da chuva.
Já não há caracóis ao fim da tarde, nem tão pouco coelho, grelhado, apanhado desprevenido no seu regresso à lura.
Sobem-se as escadarias, agora em passo lento, e recordam-se aqueles mesmos degraus, subidos dois a dois, sem qualquer dificuldade.
Não se vêem coelhos, nem perdizes, nem o jardim das rosas, o espaço das framboesas, o cantinho dos espargos.
Era de noite ...