quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Palavras bonitas

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido ...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave ...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

Obra Poética 1948-1988
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Natal

Estamos quase lá, num ano em que muita coisa aconteceu, incluindo a avaria, costumada cá na casa, de um electrodoméstico. Calhou em sorte a máquina de lavar louça, cuja substituição deverá acontecer daqui a 2 dias, com a entrega da nova, entretanto adquirida.

Neste ano, para além de não poderem comprar electrodomésticos novos, haverá muitos que não terão bacalhau, cabrito, filhós, prendinhas e tantas outras coisas. Para esses a voz, grande, de Zeca Afonso, porque o difícil é fazer simples.

Feliz Natal para todos !!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato

Cheguei há pouco.
Cumprido o ritual da ida à caixa do correio, do telefonema para saber novas do meu antigo, da libertação do casaco, da gravata e dos sapatos, a pausa, merecida e necessária, folheando a Visão.
Hoje é dia de António Lobo Antunes e mergulho na crónica, sem hesitações ou cautelas.
Tem a ver comigo?! Disparate, só possível pelo cansaço do final do dia. Pensando melhor, talvez por sermos quase da mesma idade, a escrita contenha temas que eu poderia (?!) escrever ... "mas não era a mesma coisa".
Como é possível escrever tão simples ... e tão bem:
" (...) Diziam-me isto, em criança, e eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo. Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora.
Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa. Brincadeira de mau gosto, a idade. (...)

domingo, 15 de novembro de 2009

Adágios

Quando o mar bate na rocha ... quem se lixa é o mexilhão!

Foz do Arelho - 15.11.2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Palavras bonitas

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
 
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
 
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

domingo, 25 de outubro de 2009

Mobilidade

O "fotógrafo" passou por lá e registou... na Rua Ilídio Amado, junto ao Centro de Artes, local aprazível, que convida ao passeio, à meditação e que, nesta altura, tem medronhos muito saborosos, uma paragem do TOMA, que ocupa o passeio e mal deixa espaço para a passagem de uma pessoa.

Carrinhos de bébé e cadeiras de rodas terão de utilizar a estrada, com os perigos e os inconvenientes que daí decorrem.

Para corrigir, teria sido suficiente recuar dois metros e eliminar um dos lugares do estacionamento, que raramente estão ocupados.

A (in)sensibilidade a marcar pontos!

domingo, 18 de outubro de 2009

Domingo de Outono


Não há vento, o sol pinta o mar de verde esmeralda (ou será azul marinho?), as ondas da maré vazia espraiam na areia, quase pedindo desculpa por a molestarem. É a Foz no seu melhor ... mas estamos em meados de Outubro!

Linda manhã!

E que bem que soube o mergulho e as braçadas no Atlântico com temperatura de Julho.

Refrescaram-se as ideias, esqueceram-se os problemas, leram-se uma páginas, passeou-se na areia e ouviu-se a "sinfonia marítima", no sossego de uma sala quase sem espectadores.

sábado, 17 de outubro de 2009

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Deponho no processo do meu crime.
(Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz).
Juro
Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
Merda ! - lembro-me bem.
- Crianças ... - disse alguém
Que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente,
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha ...

Câmara Ardente
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Não serve de desculpa para a ausência do Blog, mas (também eu) estou a ler o 2666, ainda que há muito pouco tempo.

Das 1030 páginas, li pouco mais de 100! A empreitada pressupõe tempo e paciência ... espero que compense!

"Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? " está na fila, mas, para este, é preciso, para além do tempo, que os níveis de concentração voltem ao normal e que a "pinha" esteja desocupada.

Voltando ao 2666: peguei-lhe há pouco, aproveitando um pequeno espaço, e deparei com a descrição que abaixo reproduzo a qual, pasme-se, versa um assunto que tinha sido tema na conversa de hoje em casa do meu neto.

"(...) Durante muito tempo esqueceram-se das suas viagens semanais a Londres. Esqueceram-se de Pritchard e da Górgona. Esqueceram-se de Archimboldi, cujo prestígio crescia à margem deles. Esqueceram-se dos seus trabalhos, que escreviam de forma rotineira e desabrida e que mais do que trabalhos seus eram dos seus discípulos ou de professores auxiliares dos seus respectivos departamentos recrutados para a causa archimboldiana à base de vagas promessas de contratos como efectivos ou aumentos de salário.(...)

2666
Roberto Bolaño
Quetzal (2009)