sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Palavras bonitas

AI SILVINA, AI SILVININHA

 

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.

A doce voz de Silvina
é como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.
- Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?
 
- Não me apetece cantar
e muito menos para ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem para mim.
- Não me tentes, Silvininha,
que eu já não te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

- A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
O ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.
- Canta, canta, Silvininha,
uma canção só para mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas,
uma enxerga de alecrim.

- Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.
- Canta, canta, Silvininha,
como se fosse para mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
com um aguilhão de marfim.

- Não quero o teu escorpião,
nem de ouro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.
- Pois não cantes, Silvininha,
se é essa a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.

Hás-de tu ser morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.
Mas sempre há-de haver quem cante
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Regresso

Habitualmente, a rádio acompanha-me no regresso a casa, com umas incursões, pontuais, ao leitor de CD's.
Hoje apetecia-me ter companhia mais íntima e fui à procura de Elis Regina, no monte que anda no porta luvas.
Vim com Elis & Tom, numa remasterização feita em 2004 de um disco gravado na cidade de Los Angeles trinta anos antes. Fica uma amostra do que ouvi ...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palavras bonitas

FICAM AS SOMBRAS ...
Não. Não podeis levar tudo.
Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
à dura tirania que a venceu. 

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação ...

Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)
 
Nota: Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no dia 12 de Agosto de 1907, há 103 anos.

domingo, 8 de agosto de 2010

Férias

Acabou-se!

Amanhã volta a rotina, o trânsito, a gravata, o casaco, as meias e os sapatos.

Para trás ficam uns bons banhos, as brincadeiras com o neto, os livros lidos, as sestas viciantes.

Na despedida e após os últimos mergulhos, a bandeira mudou para a cor do costume e apareceram os pingos, visita habitual do mês de Agosto na Foz, que provocaram a debandada geral e uma despedida apressada.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar António Feio


Agora, que já se passaram alguns dias sobre a partida e que o bolor do esquecimento se vai instalando, fica a recordação de um grande espectáculo realizado na "minha" Associação, com a sala a abarrotar e uma "fézada" de que tudo iria correr bem, como aconteceu.
A segurança era quase nula e o público participava activamente e de tal forma entusiasmado que o espectáculo durou mais de três horas.
No final, os dois actores, naturalmente muito satisfeitos, "picavam-se" mutuamente com as "buchas" que cada um foi metendo, pervertendo sistematicamente um guião já de si bastante elástico.
Nunca mais voltarei a ver António Feio e José Pedro Gomes, juntos e ao vivo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Palavras bonitas

DIA DE ANOS
 
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse ...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado ...
 
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os anos,
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
 
Mas os anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira.

João de Deus

segunda-feira, 26 de julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Férias

Já lá vai uma semana, penso, usando o lado pessimista do cérebro.
Logo a seguir, o lado oposto exprime o seu optimismo e salienta, contentíssimo, que ainda faltam mais duas.
Quando e se me apetecer, volto aqui ...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Palavras bonitas

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Sózinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo o mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

Poesias de Álvaro de Campos
Fernando Pessoa
Edições Ática (1980)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

José Saramago e o Céu

Para além de um grande escritor, o único (até agora) Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa foi um polemista terrível, sarcástico, cáustico, que nunca virou a cara uma boa refrega, intelectual, entenda-se.
Pelos vistos, nem mesmo a morte lhe cerceou a verve, como se prova pela descrição da sua subida ao céu e da argumentação tida com o Criador. Ler aqui.