terça-feira, 7 de abril de 2020

Quotidiano

Uma mudança no visual do blogue, que fica agora carregado de verde, simbolizando a esperança de que isto acabará em breve e que a nossa vida, "escada sem corrimão", volta à normalidade.

Abril é, há 46 anos, o mês da Liberdade. Se, em 2020, não nos trouxer novidades a 25, ao menos que traga a 30. Mais cinco menos cinco pouco importa!

ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos, 
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira
Obra Poética
Editorial Presença (1988)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quotidiano

Furei a quarentena e ninguém deu por isso!
Não comprei bilhete, não pus combustível no carro, não paguei portagens nem tive dificuldade em arranjar lugar para o carro.
Na A8 não havia trânsito algum. Ponte de Frielas e a Calçada de Carriche estavam escancaradas. O Eixo Norte-Sul estava limpo e arejado e a chegada à Praça de Espanha deu-se num instante.
Como em tantas outras vezes (a última foi em Fevereiro, para ver Luísa Cruz na Criada Zerlina), o Teatro Aberto estava à minha espera. 
Desci a escadaria, como sempre. Desta vez não sabia se a peça era na Sala Azul ou na Sala Vermelha, mas as indicações eram claras.
Liguei o botão, aguardei um pouco, abri a página, coloquei os auscultadores, ajeitei-me na cadeira e vi o teatro, aqui.
Não teve o mesmo sabor, mas vale sempre a pena ir ao Teatro.
P.S. - A peça chama-se Vermelho, foi escrita por John Logan e, aqui, teve encenação de João Lourenço e interpretação de António Fonseca e João Vicente.

domingo, 5 de abril de 2020

Quotidiano

Hoje era dia de ir à Foz, mas o homem ainda não está a alugar barracas, estava a chover e não me apeteceu. Tudo razões válidas para ficar em casa, sossegadinho, bem comportado e cumpridor!
A quarentena assim o determina, mas que gostava de lá ter ido, lá isso gostava. Só para tirar uma dúvida: a gaivota ainda por lá estará?


sábado, 4 de abril de 2020

Quotidiano

O sábado caminha para o fim, num início de fim de semana cinzento, como o dia a dia que vamos vivendo. Nuvens, alguns pingos de chuva e os números da nossa angústia, que chegaram pela hora do almoço, repetidos até à exaustão.
Amanhã teremos nova estatística oficial, agravada pela certa, e com mais um passo para o esgotamento de quem trabalha "de sol a sol" e de "noite a noite" para que os doentes sobrevivam e se curem.
Entretanto, ouviremos debates, divagações, certezas, dissertações, sobre a necessidade de conhecer o dia do fim com exactidão, talvez para ser possível programar o directo com antecedência, registando as opiniões sabedoras de "eu não vi, mas disseram-me".
Valha-nos a poesia, que lava o espírito e até serve de alimentação, como dizia a grande Natália Correia.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Humildade

"Eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos... E se alguma coisa há é a obrigação de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado. Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos".
General Ramalho Eanes
Entrevista à RTP 1 - 01.04.2020


E não foi mentira, apesar de ser o dia delas. Eu vi e os olhos quase que me "deram banho".
Bastava esta frase para valer a pena ouvir, mas ainda disse muitas mais coisas que arrepiaram, de entre elas uma  que me recordou tempos idos: "O militar está sempre de serviço. Se for preciso, dorme no seu posto."

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quotidiano

(...)
Ai socorro
Ai que eu morro
Livra que nos fomos logo a pique
E subitamente ao fundo
Com um negro pela mão
Tão pasmado e caladinho
Mas lá por dentro a cantar o cantochão.

Por mais que se ouça e se veja, por mais que opinem e divirjam os "sabões", a esperança de que tudo vai passar mantém-se viva, tal como a confiança naqueles que, sem alardes, trabalham todos os dias para que nos mantenhamos à tona e o amanhã seja melhor que o ontem.

E havemos de cantar/contar "de um miserável naufrágio que passámos".

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Melros

Passa todos os dias pelo jardim.
Primeiro, pousa no telhado fronteiro, averigua os perigos e, de repente, ei-lo que pousa na relva, ciranda, debica, saltita, sempre de olhar atento não vá surgir algo ou alguém que o possa colocar em perigo, real ou imaginado.
Ao mínimo som ou aparição, ei-lo que parte, com o silvo habitual e o voar inconfundível, bem distinto de todas as outras aves.
É o melro que é um "melro". Esperto, frio, atento, desconfiado. Arrisca sem medo, com cuidados metódicos e quase sempre sozinho.
Ao contrário do que acontecia dantes, os melros tornaram-se habitantes da cidade e, tal como os pardais, já fazem parte da "mobília" citadina. Não se agrupam e os convívios sociais são reduzidos ao mínimo. Vivem quase em permanente quarentena, mas não consta que possam ser contagiados pelo coronavírus nem obrigados ao confinamento. Gozam de liberdade plena e sem receio que a autoridade os possa interpelar para saber se vão para o trabalho, para a mercearia ou para a farmácia.
Com toda esta liberdade de movimentos, espera-se que da sua habituação e integração na cidade, não resulte a transmissão dos seus defeitos e que os humanos não se tornem uns "melros" mais desconfiados, mais frios, mais individualistas, mais calculistas, e que sejam solidários, agora e no futuro, se e quando as coisas se complicarem ainda mais.
E que, tal como o melro, os "melros" deixem de cuspir para o chão ...

terça-feira, 31 de março de 2020

Quotidiano

Amanheceu a chover, esteve frio, o sol surgiu agora, envergonhado ou medroso, trazendo o aviso de que se não vai demorar muito por aqui.
As alterações do clima parecem competir com a disposição que vamos sentindo ao longo do dia.
Tanta coisa para fazer! Ainda não fiz nada! 
O planeamento a fazer lembrar o "tableau de bord" dos tempos dos objectivos, dos números, dos relatórios, das justificações. Que digo eu? Estou a perder o tino ou a sonhar acordado?
Nada disso! Os dias, afinal, são muito grandes e as horas demoram uma eternidade a passar, apesar de amanhã já ser Abril.
Sentimentos e opiniões contraditórias: tão depressa acho que o tempo passa a correr como decido, logo a seguir, que demora muito a passar.
Quem me entende?

segunda-feira, 30 de março de 2020

Quotidiano

A hora mudou, o mês está quase a mudar, a Primavera chegou, o Verão há-de chegar, porque o tempo não parou nem vai parar ...
Só faltou, no conjunto de lugares comuns mal rimados, dizer que isto vai piorar ...
E pode acontecer, que sei eu!
Vou procurando ouvir quem estuda e analisa, e procurando desligar sempre que surgem nos écrans uns "papagaios", cuja única coisa que sabem é falar "pelos cotovelos". 
Esta parte do corpo era, até há bem pouco tempo, destinada a adjectivar quem falasse muito, a denominar uma dor muito difícil de suportar e a, claro, auxiliar os braços a movimentarem-se.
Tudo se altera e os cotovelos são, agora, a peça fundamental no cumprimento, substituindo o tradicional "bacalhau".
Até quando? 
Não se sabe e é isso que me inquieta.

domingo, 29 de março de 2020

Palavras bonitas

A voz do vizinho através da parede

Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho  através da parede.

Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.

Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.

O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.

O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.

Lavamos as mãos para evitar certas palavras.

E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e eu estamos juntos neste verso.

O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.

Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.

O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.

José Luís Peixoto
29 de Março de 2020

(Em tempo de clausura, sabe bem ler estas palavras de um escritor de quem gosto muito. A minha filha, que sabe isso, deve tê-las obtido na Net e enviou-mas de imediato.)