segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Nada

A música francesa fez parte da minha adolescência, quando tudo vinha de Paris, até os meninos.

De Adamo a Aznavour, nessa época mais Bécaud do que Brel, passando por Françoise Hardy, Sylvie Vartan ou Mireille Mathieu, o romantismo a marcar os passos de dança e os outros. Em meados dos anos sessenta, os quatro de Liverpool chegaram e cilindraram tudo, até o corte de cabelo. Uma nova ordem de gosto, moderna e contestatária, acentuou o conflito de gerações, com divergências profundas e observações (im)pertinentes, como a de um professor de História que, com a desfaçatez própria de quem tudo sabe, comentava sobre os Beatles: "músicos eléctricos, desliga-se a ficha e pronto" .

O encanto pela música francesa, mesmo assim, manteve-se, e a diva Edith Piaf ainda hoje se ouve com muito agrado e actualidade.

Rien de Rien ...

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Tempo

Janeiro fora, cresce uma hora. E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Nem o tempo ajuda!

Fevereiro já cumpriu um quarto do seu reinado, mais curto do que o dos seus onze irmãos e, neste ano, apenas com vinte e oito dias de vida, porque bissexto foi em 2020 e só volta a ser em 2024. Se dúvidas houver sobre a certeza desta verdade insofismável, é só consultar o Borda d'Água ou a Wikipédia. Está lá tudo!

De manhã, ainda deu para a voltinha higiénica - porque há-de chamar-se higiénica se nos faz transpirar -, que desentorpece os músculos e permite sentir o vento, fraco, na cara e a luz, cinzenta, nos olhos. Pessoas, muito poucas, mascaradas, com a pressa de andar, a desconfiança do olhar e a certeza do dever de afastar. Longe, longe, é a preocupação actual, não vá o diabo tecê-las. Quem vê caras não vê corações e muito menos o bicho, e cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Acordada da sesta, parece que a ventania está a regressar e a ameaça da chuva mantém-se, para que o encerramento confinado não se torne tão arrasador e a obrigatoriedade "legal" seja esquecida ou, pelo menos, menosprezada.

Os dias estão cada vez maiores. De acordo com os especialistas e os números dos últimos dias, parece que o tempo está a melhorar. Oxalá não haja enganos nem retrocessos, e a Primavera traga um sol radioso, para nos deliciar e fortalecer, que bem precisamos.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O Garoto

Estreou há 100 anos, no dia 06 de Fevereiro de 1921. Pode ser (re)visto aqui, integralmente, legendado em português e sem pagar bilhete.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Netos

Hoje é o dia do aniversário do meu neto mais novo. Cinco anos, alegria a rodos que não pode ser completamente extravasada, dadas as circunstâncias especiais em que (sobre)vivemos. Conversas, poucas e sempre distantes.

Daqui a uns anos, lembrar-se-á que, no dia do seu quinto aniversário, passou pela casa dos avós, numa "visita de médico", ouviu os parabéns mal cantados e recebeu uma prenda, dada por uns "mascarados" que o abraçaram, comedidos e receosos. Ainda mal começara e já a "festa" estava acabada.

Regresso à normalidade, anormal, que a chuva está a chegar e a casa é, em princípio, o único sítio que nos põe a salvo da dita ...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Teias

Fundiu-se uma das lâmpadas do quintal, aquela que só acende quando o escuro acontece e está destinada a dar luz à retaguarda da casa. É essencial que não sejamos egoístas e não queiramos a luz só para nós. Mesmo os visitantes nocturnos, que vêem bem de noite e nem sequer o escuro os atrapalha, e fazem do jardim o seu WC a céu aberto, merecem ser iluminados.

Os caracóis e as caracoletas, as aranhas e os aranhiços, as minhocas e os minhocos, as lesmas e os lesmas, são visitas nocturnas assíduas e também devem carecer de luz, para não se atrapalharem no trânsito. Não dão trabalho à mangueira e terão a sua utilidade no equilíbrio ecológico que, todos dizem, é fundamental para preservar o futuro do planeta.

De todos os referidos, as aranhas e os aranhiços são os que mais admiração me causam. Ao desmontar o candeeiro destruí, de forma involuntária, registe-se, duas teias que lá estavam montadas. A teia é uma obra de arte: apanha moscas e mosquitos, é tecida com grande precisão e tem uma resistência enorme. Não há chuva nem vento que a destrua, esteja nos cantos ou no meio das paredes. E se, por qualquer mão predadora, perde o poiso, procura pôr-se a salvo e arranjar lugar para, outra vez, tecer uma casa nova.

As teias da vida real são quase tão eficientes quanto as dos pequenos insectos, mas muito mais perigosas...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Dificuldades

O jacarandá habita o jardim há muito tempo e todos os anos se estica e alarga mais um bocado. Na época da floração dá uns cachos lindos, de um azul arroxeado ou de um roxo azulado, numa copa verde, frondosa e muito bonita.

No Inverno causa problemas. A ramagem torna-se castanha, ou será cinzenta, talvez preta (a minha dificuldade com as cores é cada vez maior) e as pequenas folhas caem pelo telhado, no quintal e, pior que tudo, no algeroz. Com a chuva, as pequenas folhas formam  uma massa pastosa, pegajosa, bem agarrada ao fundo, dificílima de retirar, mesmo utilizando a mangueira com grande pressão.

A solução era caminhar por cima do telhado, com uma qualquer ferramenta que ajudasse a retirar aquela massa pastosa e permitisse à água circular livremente até ao final. Foi isso que pensei fazer, procurando arranjar uma qualquer vassoura ou um pequeno piaçaba para me facilitar a vida.

Com tudo já planeado na mente, lembrei-me que a apólice de seguro de acidentes de trabalho (que não tenho) tem uma cláusula de exclusão que impede o beneficiário de voar sobre os ninhos de cucos e também caminhar sobre os telhados. 

Pensei melhor e resolvi não me aventurar, para não invadir o território dos meus amigos gatinhos e, fundamentalmente, para não arranjar problemas com a seguradora.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Método e organização

Há livros por vários sítios, mas já não há na mesa de cabeceira, ou melhor, aparece um só à noite. Numa transformação a que não é alheia a campanha de esclarecimento há muito encetada, o plural passou a singular. O último que por lá restava a aguardar vez, está a ser lido desde ontem e desloca-se a vários locais, regressando à base apenas na hora de recolher.

Acabaram-se os avisos, os sinais de enfado, porque ganham pó, não deixam limpar bem, a mesa de cabeceira não é sítio para livros, não chega a secretária, não bastam as estantes, há livros por todo o lado. E contra factos, não há argumentos, que a hora não é para contraditar.

Os que estão na fila, aguardam a sua vez na secretária, bem comportados, embora também não goste muito de os ver aqui, em monte. São os prioritários. Não têm a certeza se não serão ultrapassados, por nunca se saber se e quando o carteiro traz alguns novos, que se tornem mais urgentes. 

Todos serão vacinados, perdão, lidos. Assim o tempo me ajude e a vontade não me falte.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Prevaricar

Eu, prevaricador me confesso!

Não, não fui vacinado nem sequer meti uma cunha para me colocarem na lista dos prioritários. Prevariquei, é verdade mas, tal como nas vacinas, não tenho qualquer culpa do sucedido. A minha prevaricação não resulta de sobras de circunstância que, irremediavelmente, iriam para o lixo, mas sim de um acaso fortuito e de culpa alheia.

Eu conto: era necessário e urgente ir ao supermercado, por estarem em falta alguns artigos essenciais a um confinamento eficaz. As excepções prevêem essas carências e o "Ambrósio" disponibilizou-se para cumprir a sua função, folgado que estava e por saber que o carrinho tinha saudades de sair da garagem conduzido pelas mãos habituais e, vamos lá, meigas e eficientes. A viatura agradeceu, penhorada, mesmo não havendo "Ferrero Rocher". O livrinho fez companhia, enquanto se esperava quem de direito. Cumprida a primeira tarefa, ainda era preciso, afinal, passar pela farmácia para recolher uns medicamentos que lá aguardavam. Tudo dentro da legalidade e sem hipóteses de "confrontação" com a autoridade, mesmo que ela aparecesse. O "Ambrósio" concordou, a viatura também e a tarefa foi cumprida sem problemas, aproveitando a espera para mais umas páginas, poucas, que o atendimento fármaco foi rápido. 

Agora, sim, era empreender o regresso a casa e ao confinamento. Viatura a trabalhar, viagem de regresso iniciada e o inesperado, surpreendente e incontrolável aconteceu! Como é possível! O carro, sem "rei nem roque" tomou o caminho do mar, sem obedecer às tentativas para o contrariar. Não faço ideia porquê, mas levou a sua teimosia até ao fim e, mal dei por isso, eis que surge a paisagem da Foz do Arelho, lá em baixo, com o mar a trazer muito "Omo Super" e a justificar o alerta da Protecção Civil.

Não houve saídas. A teimosia do carro também se fez sentir aí e as portas não abriram. Deu a volta, sem grande pressa, devagarinho mas sempre andando, como o outro. O "Ambrósio" pensava na desculpa de justificação, se as autoridades aparecessem. Seria uma qualquer, esfarrapada, como as que têm sido ouvidas sobre as vacinas.

Não foi necessário. As autoridades deviam ter mais que fazer do que controlar um carro teimoso, conduzido por um "Ambrósio" incompetente, incapaz de o controlar e de o fazer cumprir a lei. A CMTV também não andava por ali e apenas duas ou três outras viaturas foram encontradas, estas, por certo a trabalhar.

Como tudo mudou! Há um ano, se alguém dissesse que ir à Foz ver o mar era prevaricação, talvez visse apontarem-lhe o caminho do Júlio de Matos ... que já não existe.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palavras bonitas

Não, não é cansaço ...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo ...

Não, cansaço não é ...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como ...
Sim, ou por sofrer como ...
Isso mesmo, como ...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!

Obras completas de Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos
Edições Ática (1980)

sábado, 30 de janeiro de 2021

Espertices

Na estação do Metro do Rossio aglomeram-se algumas dezenas de pessoas, a aguardar o comboio que levará cada uma delas à estação de destino e ao regresso a casa, depois de mais um dia de labor. São clientes habituais. Já conhecem o local onde as portas se abrirão e é aí que se juntam mais. Um deles não pára quieto. Anda de um lado para o outro, bem dentro do grupo, de olhos postos no fundo do túnel, onde irá aparecer a luzinha amarela. O aviso electrónico mostra 30 segundos e ele aí está, parado à sua frente. As portas abrem e o irrequieto empurra, afasta e nem deixa sair os que chegam. Entra e, em passo de corrida, chega ao banco vago. Senta-se e olha para o exterior, disfarçando. Não fez nada de errado. Apenas se sentou no lugar vago. Se não fosse ele, seria outro. Mas ele foi mais esperto!

Na fila do supermercado, a senhora empurra o carrinho, preocupada com o que ainda lhe faltará comprar, fazendo esforço para se lembrar porque se esqueceu da lista. Não olha para nenhum dos que estão na fila, aguardando a sua vez de se abeirarem da caixa. De repente, aproveitando uma distracção, ei-la que toma lugar na fila, tão distraída que nem reparou nos que já lá estavam. Se alguém disser alguma coisa, responderá:

- Ah! Como sou tão distraída. Nem reparei que havia fila.

Quase sempre funciona. Quem está na fila não arrisca "peixeirada". Para quê? É apenas mais uma. Quando chegar a casa transmitirá aos filhos, contando a aventura:

- Nunca esqueçam: o mundo é dos espertos!

À porta do restaurante, dois ou três grupos aguardam serenamente que o empregado lhes venha indicar a mesa entretanto vaga. Ei-lo que surge e, de imediato, um casal avança, ainda que acabado de chegar.

- Os senhores chegaram agora, ouve-se de alguém.

- Não, não. Já cá estamos há muito tempo. Fomos ao WC lavar as mãos. 

O empregado lá os acompanha, que a fome é muita e os outros podem esperar.

A lista de prioridades para a vacina estabelece uma ordem que contempla, e muito bem, desde os profissionais de saúde aos utentes e trabalhadores dos lares. Mas, como sempre, o seguro morreu de velho. A vacina pode não chegar a todos e eu até sou o responsável máximo do lar, e da associação, e da segurança, e ... a minha família também é fundamental. Se eu adoeço, quem toma conta do barco?

Confirma-se. É esperteza saloia, mas funciona!

E depois admiram-se de chegar um "enviado do céu" e ter audiência.