quarta-feira, 10 de março de 2021

Vidas

- Não posso fazer muita força. Este dedo deve estar partido.

- E não foi ao médico?

- Não tenho tempo ... 

- Mas isso é perigoso, nunca mais cura e só piora.

- Um dia destes ... Há uns anos, estava a trabalhar na Áustria e caí. O braço esquerdo doeu-me muito, mas continuei. Passada uma semana, o braço estava inchado e não aguentava as dores. Fui ao hospital. O osso do pulso estava partido. Trataram-me, puseram uma tala e vim-me embora. No dia seguinte fui trabalhar. Era preciso!

Na maior parte das vezes, nem damos pelos sacrifícios dos outros e pelas dificuldades que têm para assegurar o dia a dia e os (poucos) proventos que auferem.

 - Tenho de trabalhar. Não sei fazer outra coisa e sempre assim foi, desde miúdo. Criei um filho sozinho, desde os seis meses. Ensinei-lhe cedo que temos de ser honestos e trabalhar para quem nos dá emprego e nos paga. 

Há muito tempo que não tinha esta experiência "auditiva". Aconteceu hoje e concluí, uma vez mais, que os meus problemas são ridículos quando comparados com situações destas. Apesar disto, está sempre bem disposto, com graça "malandreca" para aliviar a conversa.

terça-feira, 9 de março de 2021

Tributo

Neste dia, em 1841, estreou-se no Teatro alla Scala, de Milão, a ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi. Em 1959, na grande cidade de Nova Iorque, foi apresentada a boneca Barbie. Os dois acontecimentos são hoje registados na comunicação social, com o destaque devido e para que conste.

Uns bons anos passados, não num teatro nem num salão mas no Montepio Rainha D. Leonor, nesta cidade de "águas mornas", nasceu a minha filha. Foi um acontecimento muito mais importante e, apesar disso, não há um único jornal que lhe dedique uma linha. Coisa estranha? Claro que não!

A discrição é uma grande qualidade e a minha bióloga tem-na.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Chega?

O Campeonato Europeu de Atletismo em pista coberta, disputado na Polónia neste fim de semana, confirmou que já chega de blasfemar contra os migrantes, os de etnia ou pele diferente, o sexo forte e o sexo fraco, e muitos outros preconceitos que ainda por aí prevalecem.

Portugal trouxe 3 medalhas de ouro, duas conquistadas por mulheres e uma por um atleta do sexo masculino. Auriol Dongmo nasceu nos Camarões e conquistou o ouro no lançamento do peso feminino; Patrícia Mamona, que já nasceu em Portugal mas é filha de angolanos, trouxe a medalha mais importante do triplo salto feminino; finalmente, na prova masculina de triplo salto, o ouro foi conquistado por Pedro Pichardo, atleta que nasceu em Cuba e se naturalizou português.

Não foi por serem isto ou aquilo, pretos ou brancos, diferentes ou iguais, que a bandeira subiu no mastro e o hino nacional se ouviu em todo o mundo. Foi "apenas" porque foram os melhores.

Há lugar para todos e todos têm lugar, com o respeito e a tolerância a que qualquer um tem direito.

Chega de parvoíces!!!

domingo, 7 de março de 2021

Recordando ...

A minha primeira professora vive hoje um dia especial. 

Apesar de já ter comemorado muitos aniversários, este é o primeiro que festeja confinada e sem os rituais do costume. "Não quero que me comprem nada ... já não faço anos". 

Fui o seu primeiro aluno, vim ao mundo no mesmo sítio, fruto dos mesmos pais, apenas com três anos de atraso. Este tempo, hoje pequeno, foi o suficiente para que os seus dotes didácticos se fizessem sentir precocemente e determinassem a carreira que escolheu e foi a sua vida.

sábado, 6 de março de 2021

Futuro?

Não vale a pena especular e pensar em agregar esta ideia. Apenas se aplica aos grandes actores Ruy de Carvalho e Eunice Munoz e não passa de uma representação teatral de dois grandes actores, bem longe da realidade ...

Será?

sexta-feira, 5 de março de 2021

Janelas

Nos últimos dias e muito por influência do jornalista (ainda) director da Gazeta, JLAS,  têm circulado pelas redes ditas sociais muitos recortes de notícias sobre professores da "minha" Escola, publicadas aquando das suas vindas para as Caldas, das nomeações e tomadas de posse ou de realizações que conceberam ou ajudaram a levar a cabo.

Os comentários que surgem são, como é normal, extremamente abonatórios para as pessoas "noticiadas", o que se compreende bem e segue a regra. Até hoje, sempre me tem sido difícil, para não dizer impossível, encontrar alguém desaparecido que, em vida, tenha sido uma peste.

"Lá no fundo, no fundo, até nem era mau diabo."

Um dos professores "noticiados" recentemente era conhecido por gostar demasiado das alunas, de disso fazer publicidade com galanteios frequentes, alguns de mau gosto mesmo para a época, e também por, no seu trabalho didáctico, não ser dos de primeira água. Era vítima de muitas tropelias por parte dos alunos, quer em "bocas" lançadas à sua passagem quer nas aulas, que podiam ir das abelhas levadas numa caixa a serem soltadas em plena sala às garrafinhas de mau cheiro, tão populares no Carnaval.

Num dia de muito calor e sem ar condicionado a funcionar ou a existir, uma aluna pediu para abrir uma janela, porque o ar estava muito "pesado", fruto, talvez, de algum "vapor" escapado por distracção ou mesmo por vontade. O professor teve resposta pronta:

"Ó menina, descasque-se, ponha-se à vontade. Abrir as janelas é que não!"

quinta-feira, 4 de março de 2021

Pecado

Eu, pecador, me confesso ...

Ontem carpi mágoas de saudade de um café do café. Hoje, a meio da manhã, um SMS "maroto" dava a sugestão de uma visita ao café habitual, antes das 14 horas, que é a hora do fecho. Talvez haja uma surpresa.

Almocei e fui até lá. Não havia ninguém à espera. Mostrei-me através da montra e aguardei que o sinal sonoro me desse indicação para entrar. Em vez de me dirigir à parte do take-away ou à do quiosque, foi-me indicado o acesso outrora livre e agora apenas destinado a quem lá trabalha.

No escuro, a chávena apareceu, por milagre, à minha frente. Quentinha, a chávena, e a bebida, cremosa, ainda a fumegar. Bebi. Nem saboreei, mas soube tão bem! Até a máscara gostou! Quando a voltei a colocar, passadas mais de duas horas, ainda havia o cheirinho maravilhoso daquela bica tão ansiada.

Sabe sempre bem pisar o risco ... mas não pode ser sempre nem se deve divulgar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Rotina ou talvez não ...

O drama da folha em branco ... não tenho nada para dizer e muito menos para escrever.

Não que o mundo tivesse parado, eu tivesse deixado de estar atento ou não estivessem a acontecer coisas que a todos interessam, como aquela do japonês que está a oferecer viagens à Lua, para concretizar em 2023. Só não me inscrevo porque ainda não tenho o "passaporte vacinal" e não arrisco ir lá e sujeitar-me a apanhar o "corona lunar".

Sinto falta de café do café, de andar por aí sem "rédeas", de ver gente, de conversar ou de estar calado, sem a isso ser obrigado. Não há meio, mas tudo indica que o dia vai chegar em breve. Já ninguém põe à janela o "vai ficar tudo bem" e deixou de ouvir-se o papagaio carioca falar do "resfriadinho". O das melenas já foi passear e estará agora a meditar sobre a cor da casa que substituirá a Branca, que não deverá ter Sala Oval. Pondera, também, se deve manter a cor do cabelo e a "brasa".

Cá pela cidade, tal como no país, começou a agitação dos candidatos a autarcas e já há um candidato perfilado. É edil de Junta e vai tentar ser promovido à governação principal do concelho.

"Cheira-me" que, este ano, as autárquicas vão ser diferentes ...

terça-feira, 2 de março de 2021

Mãe

- Vou buscar os medicamentos e volto já.

- Não vale a pena. Quando voltares já cá não estarei.

Era um final da tarde e estavas deitada na cama do hospital, com grandes dificuldades na respiração mas completamente lúcida. A percepção do que iria acontecer era muita mas, ainda assim, saí para satisfazer o pedido da enfermeira. Não cheguei a casa e os medicamentos por lá ficaram ... o telefone tocou antes e voltei pelo mesmo caminho. Tinhas razão ...

Foi há dezassete anos e continuas a ser a minha rosa, da noite, da tarde e da manhã.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras bonitas

 SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade, 
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome de luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda - ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)