terça-feira, 26 de abril de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) "Não há qualquer possibilidade, hipótese nenhuma, por mais remota e improvável e fugidia, de Petra Chissomo saber do Rafa e do pai e do carvalho vermelho. Ele olha para o Sininho, enroscado no tapete, as patas já tão magras, as costelas a emergirem. O cão tem os olhos fechados, mas há movimento nas orelhas, como quem estivesse a escutar a conversa e agora estranhasse o silêncio da pausa.

Olham-se. Petra Chissomo parece esperar, há qualquer coisa no ar que ainda não acabou, os gramas a mais dos assuntos inacabados. Não há qualquer possibilidade de ela saber o que ele precisa de lhe contar a seguir.

- Porque é que perguntas o que levou a Isabel com ela?

- Curiosidade. Se não sabes, não sabes. Se não queres dizer, não digas.

- Levou o pior de mim, aquela desilusão, a maior de todas.

A certeza de que escolheu mal, deve ter levado a raiva de não conseguir deixar-me.

- Qual desilusão? Disseste aquela.

- A que tu não podes saber e no entanto sabes.

- Eu? Não sei enquanto não disseres.

- Seja. Já que vai ser assim. Tenho de dizer, não é?

- Tens de dizer. Tens de fazer acontecer. Antes de seguirmos." (...)

Cuidado com o cão
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2022)

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Liberdade

Para mim e para muitas outras pessoas, hoje é dia de festejar o aniversário e de lembrar sonhos que estão por cumprir, coisas que não se fizeram, tempos que já foram. 

Com esta idade, os sonhos já só acontecem a dormir. Os outros, se não se concretizaram, talvez já não aconteçam. Nesta noite, dei por mim a convidar a Liberdade para comigo almoçar, e, assim, comemorarmos o aniversário em conjunto. Apesar de ela ser bastante mais nova do que eu, tinha alguma esperança de que aceitasse e, até, ficasse satisfeita com a lembrança do idoso. 

- Nem pensar. Já me conheces há tempo suficiente para saberes que não quero nem devo privilegiar ninguém. Aliás, conheces bem a minha história e sabes que foi para acabar com os privilégios que vim ao mundo há 48 anos, trazida com orgulho por um punhado de portugueses corajosos.

- E achas que conseguiste? 

- Resposta difícil, tais são as incertezas e os escolhos que procuro contornar. Mas já muita coisa se alterou e o jardim tem um aspecto e uma vida completamente diferentes.

Compreendi as reticências da minha amiga, ou melhor, reconheci que a não devia ter convidado, uma vez que, apesar da nossa ligação fraternal, ela tem muito mais que fazer do que almoçar com um qualquer egoísta que a pretende só para si. Talvez até nem tenha tempo para almoçar, tal o trabalho imenso que a mantém atarefada e com uma preocupação constante de tentar evitar aqueles que, à sombra da sua benevolência, não hesitarão em matá-la à primeira oportunidade. Não lhe gabo a sorte e estarei por aqui para lhe dar a ajuda de que for capaz, considerando que as minhas limitações já vão sendo significativas.

Acordei! E veio-me à memória Sophia:

Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E juntos habitamos a substância do tempo.
O nome das coisas
Sophia de Mello Breyer Andresen
Caminho (2004)

Viva o 25 de Abril, SEMPRE!

domingo, 24 de abril de 2022

Candeeiro

Esta é a altura em que vemos, ouvimos e lemos dissertações imensas sobre o país que o dia de amanhã, em 1974, despertou e transformou. A maior parte delas registam situações, hoje quase absurdas, que se viviam nessa altura e que, vistas a esta distância, não lembram ao diabo. Esta não foge à regra e serve apenas para a confirmar.

Outras há que, menos cuidadas ou propositadamente omissas, registam estórias para encher o olho e o ego, regra a que também esta não fugirá. Ainda bem! O país (e o mundo) não tem nada a ver com o daquela época e não é apenas por vivermos em democracia, haver partidos políticos, não termos censura nem polícia política, e existirem hipóteses (quase) iguais para todos, independentes da qualidade da madeira do berço. A vida minimamente digna ainda está longe de ser totalmente abrangente, mas mesmo os mais miseráveis vivem indiscutivelmente melhor, embora com muito caminho a percorrer.

Há coisas que, contadas hoje, parecerão da Idade da Pedra e completamente incompreensíveis para os mais novos. Se um qualquer professor se lembrar hoje de perguntar o que significa torcida, o mais provável é receber como resposta de que se trata da claque apoiante de um qualquer clube de futebol. Ninguém se lembrará, felizmente, da tira que, mergulhada no petróleo existente no "depósito" do candeeiro de vidro, garantia a iluminação de muitas das casas portuguesas, em finais da década de cinquenta do século passado. Um pequeno rodízio fazia com que a torcida subisse ou descesse, aumentando ou diminuindo a chama que dava a luz a quem da eléctrica apenas conhecia a dos candeeiros da rua, não em todas as terras e muito menos em todas as ruas.

Hoje, o candeeiro de vidro já não leva petróleo e é apenas um peça decorativa, cara, pousada sobre um qualquer móvel de recordações para visita ver.

sábado, 23 de abril de 2022

Premonições

Estamos como o burro do espanhol: agora que já estávamos habituados a usar máscara, veio o decreto que elimina a obrigatoriedade de com ela andar.

Marcelo, com a rapidez do costume, promulgou o decreto que, em consequência, se encontra em vigor. Hoje, talvez por insistência dos jornalistas, o Presidente teve uma conversa "informal" com eles e deu a conhecer que, quase de certeza, as reuniões de Guterres com o "caramelo" que manda na Rússia e quer estender o seu mando como quem estende uma toalha sobre a mesa, e também com o Presidente da Ucrânia invadida, as quais devem acontecer no início da próxima semana, irão ser determinantes para o fim da guerra. Marcelo opinou, quem pode duvidar.

Significa isto que quer a pandemia quer a guerra poderão estar em vias de extinção, tal como o lince da Serra da Malcata? Talvez. Marcelo costuma ser assertivo e antecipar tudo e o seu contrário.

Vamos ver o que acontece nos próximos dias, com a esperança de que, desta vez, Belém acerte em cheio nas duas, promulgação e palpite.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Escondido


Talvez tenha vindo para frequentar a universidade, mas escondeu-se e quase passa despercebido.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Paciência

A necessidade de esclarecer a contabilização e um pedido de pagamento obrigou-me a procurar um endereço electrónico para responder, uma vez que o que me foi enviado transmitia, imperativamente,  que aquele endereço não fosse utilizado para responder. 

Fui à página da NET mas contactos electrónicos não existiam. Indicava-se um número de telefone para qualquer contacto.

Que desespero! Tentar saber apenas um endereço electrónico é pior que percorrer a via sacra! A chamada já leva mais de quatro minutos e continuo a ouvir um arrazoado dissertando sobre a protecção de dados e afins.

Não há pachorra! Desisto, que são horas de ir jantar, tema muito mais interessante e importante.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Roseira

Não aguentou a ventania. Havia sido plantada no jardim há muito, muito tempo. Talvez trinta anos, talvez mais. Era a mais antiga e ostentava algumas rosas na primavera que foi a sua última. Caiu de noite, para que ninguém visse. O vento foi implacável e aproveitou-se da sua fraqueza e incapacidade para resistir. Como tantas vezes acontece com tanta situação ...

Deixa duas herdeiras que, cheias de força e vontade, resistiram sem problemas às inclemências do tempo. Partiu a roseira mais velha, ficaram as descendentes que, juntamente com as outras que por cá moram, hão-de continuar a dar alguma beleza ao jardim.

Tudo tem o seu fim, tudo continua.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Cuidado com o cão

(...) Cesse tudo quanto a antiga musa canta,
que outro valor mais alto se alevanta. (...)
Os Lusíadas - Canto I

"Chegou, viu e venceu"

Como era esperado, o carteiro trouxe-o hoje, dia oficial da colocação à venda, autografado e tudo. E já começou a ser lido.

Remeteu para a fila de espera a "Morte e ficção do Rei Dom Sebastião", de André Belo, (Tinta da China),  e o "Contágios", de diversos autores (Visgarolho), que ficarão a aguardar melhor oportunidade para serem concluídos. Talvez não o merecessem, mas devem ter paciência. Nem sempre tudo nos corre bem.

Tendo em conta os trabalhos anteriores, as expectativas são elevadas para este novo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho, mas as conclusões serão tiradas no fim. Não são de prever desilusões e o princípio já o indicia.

Agora é ler, para chegar ao fim tão depressa quanto o deleite o permita. 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Divagações

Há todos os dias coisas que aprendo, aparecem diariamente muito mais assuntos que ignoro. Não tem nada de mal nem de anormal, é verdade, e acontece, digo eu, a toda a gente, mesmo aos que pararam no tempo e acham que nem vale a pena perder uns minutos com um tema que ignoram e também àqueles que sabem tudo e de ninguém precisam.

É bem mais fácil comer o peixe já misturado no acompanhamento, previamente despido da pele e das espinhas, do que ser colocado frente ao prato onde paira a posta, e conseguir que, com esforço, calma e atenção, lhe sejam retirados os componentes que não irão ser deglutidos.

Com tantos anos já decorridos, seria admissível pensar que já não apareceriam coisas completamente novas, assuntos totalmente ignorados, temas simplesmente desconhecidos. E nada disto acontece, felizmente. Depois disto, surge a interrogação, a constatação da estupidez, a vontade de abanar, agitar, revoltar, modificar.

Se o mundo tem tanto de aliciante para todos, se cada um pode dar o seu contributo útil, como compreender que "meia dúzia" continue a subjugar a imensa maioria e se repitam situações de opressão, dizimação, violência, sem preceito nem respeito por ninguém.

A estrada será estreita. Todavia, todos poderiam nela caber, se cada um ocupasse apenas o seu espaço e se preocupasse em não invadir o dos outros.

Divagações!!!

domingo, 17 de abril de 2022

Palavras bonitas

QUEREM O CÉU

Querem o céu, a mística ilusão
Da alma.
E, se estivessem lá,
Queriam a terra, a sórdida morada
Da raiz.
Mas é o céu que lhes diz
Eternidade,
Verdade,
Santidade
E descanso.

Assim se pode mistificar
A preguiça,
O pecado,
A mentira,
E a transitória vida natural.

O grande tecto azul, porém, não dá sinal
De acolher o aceno.
Afaga as nuvens, e da luz solar
Faz o dia maior ou mais pequeno.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Coimbra (Jan/1974)