sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Inventários

Passar por uma livraria é cada vez mais raro, dada a imensidão e facilidade com que se fazem compras por via informática. Porém, sempre que isso sucede, a tentação de entrar é enorme e a vontade faz o resto.

- Queria o livro ... e não o consegui encontrar.

Após uma consulta, a afirmação peremptória:

- Queria, não, quer! Temos dois e estão lá de certeza.

O equipamento consultado mantém o inventário actualizado e, por isso, seriam os meus olhos, velhos, a não vislumbrarem o que estaria à vista.

A menina, simpática, dirigiu-se ao sítio já por mim vasculhado e teve a mesma sorte. Não era dos meus olhos ...

- Ó F..., o computador diz que há dois ... e não estão ali.

- Vê na gaveta lá do fundo. Se não estiverem lá, estão no armazém.

Mais uns minutos e o regresso de mãos a abanar.

- Nós temos ... aguarde só mais uns minutos que eu já volto. Desculpe.

Fui lendo o outro livro que tinha escolhido (o que faltava era para oferta) e, claro, perdi a noção do tempo. Não faço ideia se foram cinco ou dez minutos. O relógio já me abandonou há tempos e o telemóvel estava, escurinho, no bolso.

- Peço-lhe muita desculpa mas, afinal, não temos. Alguém se esqueceu de dar baixa. Desculpe, mais uma vez, ainda por cima fartou-se de esperar.

Paguei o livro que estava nas minhas mãos já com várias páginas lidas, e saí. Meditei: o inventário não devia ser actualizado de forma automática? Se calhar não. Estou velho e não percebo nada destas modernices.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

A Tinta da China promoveu, no ano passado, um "Clube" de leitores do qual faço parte desde o início. Mensalmente, recebo um livro novo, ainda antes de esse livro ter entrado no circuito comercial, o qual circuito, diga-se, me parece ser cada vez mais restrito em qualidade e alargado em quantidade. A abertura da caixa que traz o livro, sempre acompanhado por uma "graça" de utilidade, cria alguma ansiedade, uma vez que não faço a mais pequena ideia do que irá surgir e estou (ainda) habituado a folhear quase todos os livros antes de os adquirir. Até aqui, têm sido sempre excelentes surpresas, que bem justificam a decisão tomada.

Há três dias recebi o exemplar deste mês. Nele,  António Mega Ferreira faz um roteiro por palavras perdidas no tempo, ordenando-as alfabeticamente, debruçando-se sobre a sua origem e divagando sobre as razões que as levaram ao desuso. O autor refere, no preâmbulo, que apenas utilizou 80 das 250 palavras que inventariou. Dei por mim a confirmar que o meu "computador" já colocou no seu "lixo" tantas palavras bonitas ...

"(...) FINEZA - Há mais de meio século era corrente ouvir, em qualquer loja da Baixa, pedir a fineza de, solicitar um obséquio, reclamar a bondade de. Eram tudo formas mais ou menos preciosas (estas eram mesmo preciosas) de pedir um favor, demandar um serviço, chamar a atenção. No tabuleiro dos rituais de interação social, tanto como as formas de tratamento ("você é estrebaria" era a condenação comum de uma forma que agora se tornou corrente, tal como há 50 anos previa Luís Filipe Lindley Cintra, no seu ainda hoje fundamental estudo Sobre Formas de Tratamento na Língua Portuguesa, publicado em 1972), as saudações e fórmulas de cortesia tinham uma gradação exigente, cuja valorização social classista sempre espreitava por trás da expressão utilizada. Aliás, Cintra sublinhava que a relativa maior complexidade das formas de tratamento no português europeu (o que é usado em Portugal) refletia uma hierarquia social muito rígida, definida e gradativa. Quando em 1974 se abriram as comportas do discurso e da interação, tudo isso foi varrido no lapso de uma geração. Antigamente, a fineza e o obséquio eram um suplemento de cortesia que mascarava um mal-estar social, uma espécie de insegurança no relacionamento com os outros. Normalmente, o seu emprego era desproporcionado em relação ao favor que se pedia. (...)"

Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas
António Mega Ferreira

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Rugas

Foi há 48 anos, tantos quantos durou a ditadura, que alguns quiseram que a primavera de Abril de 1974 voltasse ao Inverno do Maio de 1926. Felizmente, não conseguiram. A maioria não era silenciosa e fez barulho suficiente para que se encolhessem. 

Com outros paninhos, outras conversas mas, ainda assim, de dedo em riste, estão a (res)surgir alguns com saudades daquilo que, na sua maior parte, não viveram. E, por vezes, parece que têm alguma audiência ...

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Opções

Há muitos anos, quase no tempo em que os animais falavam, participei num colóquio, dirigido pelo jornalista Joaquim Furtado, sobre formas de fazer (ou não fazer) rádio. Era a época da ascensão das "rádios pirata" e, a dada altura, o jornalista deu a sua ideia sobre a condução de uma emissão de rádio e da manutenção do microfone aberto. Nunca mais esqueci o conselho.

- É simples. Se não tem nada para dizer, ponha música, de preferência boa.

Estou nessa situação. Por isso, música, se possível boa.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Novas

Novas, há novas, gritou Bocage quando chegou à praça, perante o pasmo dos aí presentes.
- Compradinhas agora mesmo, disse, exibindo as botas novas que calçava.

Dia cheio de novidades ou talvez não.

Chegou o Outono, como acontece todos os anos, que eu me lembre; comemoraram-se 200 anos da primeira Constituição Portuguesa; os russos iniciaram os referendos para tentar legitimar a invasão da Ucrânia; a guerra continua, ainda que com menos directos das televisões e menos comentários dos "sabões"; os preços aumentam e toda a gente se lastima, até os que estão a ganhar, e muito, com isso; o Ministério Público abriu mais um rigoroso inquérito já não me lembro sobre quê, mas isso não tem importância nenhuma; Portugal anunciou, através de António Costa, que se vai candidatar ao Conselho de Segurança da ONU, para o biénio 2027/2028, com a esperança de que a guerra já tenha acabado nessa altura, acrescento eu.

São assuntos e acontecimentos relevantes, aos quais todos devemos dar atenção e manifestar o nosso apreço. Felizmente que não são os únicos e que há algo mais importante que acontecerá hoje e marcará o futuro e a história do país, sem qualquer dúvida.

Costa receberá Montenegro, ambos acompanhados por dois ajudantes, que pouca relevância terão no diálogo que vai acontecer. Os dois, neste primeiro dia de Outono, vão abrir as páginas dos estudos que hão-de determinar a localização do futuro aeroporto, as quais ainda se encontram em branco, mas deverão ser preenchidas nos próximos 50 anos e dar lugar a um Livro Branco sobre as vicissitudes que justificarão o atraso e a importância da obra, que demorou muito tempo, obrigou a tantos estudos e tornou a conversa sobre o assunto insuportável.

O parágrafo anterior é longo, fastidioso e chato de ler, tal como a tarefa que está em cima da mesa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Pescador

Aquele professor era famoso pelas estórias que contava nas aulas. Antes da matéria havia sempre alguma nova, que prendia a atenção de toda a plateia e fazia o tempo passar mais depressa. Muitas aulas houve que só foram reais nos últimos cinco minutos ou, se a campainha tocava, apenas por uns instantes, para lembrar os temas que deviam ter sido tratados. 

Dizia ser um caçador exímio, um pescador ainda melhor, jogador de xadrez e damas imbatível, imparável com uma raqueta de ténis de mesa nas mãos, tudo isto numa verborreia impecável, clara e sem hipóteses de contestação ou contraditório, palavras que não constavam do vocabulário acessível por aquela época. Falava de música, a sério e não essa coisa eléctrica que vocês ouvem. Desliga-se a ficha, acabou. Na única vez que se disponibilizou para as damas, com o I., perdeu. Nunca mais se sentou frente a um aluno, com o tabuleiro pelo meio. De vez em quando dava umas bolas no ténis de mesa, mas jogar, nem pensar.

- Imaginem que ontem fui à Foz. O dia estava lindo e o mar com a cor maravilhosa do costume. Saí do carro e olhei lá bem para o fundo. O cardume ia a passar. Voltei de imediato a casa, peguei na cana de pesca, fui a S. Martinho e ainda os apanhei quase todos. 

Sorrisos escondidos, olhares cúmplices, tudo excitado e alertado pelo toque da campainha.

- Há dúvidas? O ponto (agora diz-se teste) é na próxima aula e não vai ser fácil!

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Confissão

Em cada dia que passa me sinto mais compelido a penitenciar-me de um defeito de que padeço e que, nesta época de incertezas, se acentua a um nível que nunca pensei ser possível atingir: sou invejoso.

E é tão feio ter inveja! Para atenuar o castigo que este meu pecado merece, esclareço que não me invejo de quem tem carros, parelhas e montes, mas apenas desses privilegiados a quem o criador dotou com a capacidade e inteligência que lhes permitem nunca se enganarem e raramente terem dúvidas.

O Orçamento Geral do Estado irá ser, de acordo com a lei, apresentado na Assembleia da República, no próximo mês. Os "matemáticos" das projecções não se cansam de enunciar os números que vão acontecer, o crescimento do PIB que surgirá, o aumento inevitável do petróleo e dos tomates, os prejuízos a suportar pelas empresas, a razia nas disponibilidades das famílias, as receitas e as despesas do Estado, tudo em relação ao ano de 2023, com a certeza, certa, de cada um, sendo esta diferente da de todos os outros e a única inquestionavelmente correcta.

Os ilustres estudiosos e, por isso, sabedores, apresentam números rigorosos, apesar de, por definição, um orçamento ser sempre previsional, carregado de dúvidas e contingências, e sujeito a vicissitudes e imprevisibilidades que podem, e vão, surgir. As certezas, sempre antecipadamente exibidas com o calor próprio de quem domina todos os dados e sabe do que fala, desapareceram quando ninguém conseguiu adivinhar a pandemia e serão deitadas ao lixo se a vontade bélica daquele caramelo russo se mantiver.

Gostava tanto de saber (também sou curioso, outro defeito) o que se vai passar até ao final deste ano e, mais ainda, o que surgirá em 2023. Humildemente reconheço que me falta a capacidade de alguns e que, invejoso, invejo.