sábado, 15 de março de 2025

Aperitivos

O espumante, branco, era bruto e fabricado na adega onde iria decorrer o evento. Há já dois dias que havia sido colocado no gelo, em grandes alguidares, para que se mantivesse fresco. Ali não havia frigorífico e as visitas eram importantes (a fina flor da alta sociedade). Estavam muito habituadas ao champagne francês. Não se podia correr o risco de não gostarem do nosso.

Na semana anterior, tinha havido uma grande festa citadina em Cascais e o "campo" não podia ficar mal. Tinha sido escolhida a adega, para recrear um ambiente rural que a maior parte desconhecia.

Os aperitivos - pinhões, tremoços e pevides - despertariam a sede para que o espumante lavasse bem a goela e criasse as condições óptimas de degustação do repasto.

- Não vais lá almoçar, claro, mas queria que lá estivesses com o Peugeot. Pode ser necessário vir à quinta buscar alguma coisa que falte.

Tudo tratado e (bem) planeado. As cozinheiras cuidavam das panelas e dos tachos, o cheirinho aguçava o apetite, antevia-se o sucesso. Havia canja, coelho, galinha, porco, cabrito, borrego, vitela, feijão branco e verde, ervilhas, batatinhas no forno e fritas, jaquinzinhos, bolinhos de bacalhau, rissóis de camarão e muitos outros pitéus que a memória já limpou. Só o cheiro saciava o apetite.

Os criados, vestidos de um branco imaculado e com o lacinho preto ao pescoço, iam servindo o espumante e repondo os aperitivos nos pratos, até ser dada ordem para os convivas se sentarem nas mesas. Os lugares tinham sido previamente estabelecidos e escolhidos de acordo com regras bem definidas. Casais separados, muito cuidado com alguns "ódios de estimação", de forma a tornar o ambiente descontraído e sem mácula.

- Preciso que vás à quinta levar uma senhora. Está muito mal disposta. A C. vai contigo e tu ajudas a levá-la para um quarto.

Com alguma dificuldade, a senhora foi deitada no banco de trás. Sossegadinha, gemia, soluçava, tossia, vomitava para um saco que a C. segurava. Não foi fácil levá-la até ao quarto e deitá-la na cama, mas lá ficou. Não deu pela viagem e nem fazia ideia onde estava. Baralhações ...

Só pode ter sido dos tremoços. Ou seria dos pinhões? As pevides quase de certeza que não, embora, por vezes, causem alguns embaraços estomacais e intestinais.

Uma coisa é certa: do espumante não foi! Era bruto ... mas de muito boa qualidade. 

quarta-feira, 12 de março de 2025

1884 ou 2025

"(...) Ainda se não disse tudo.

Neste espaço de literatura da decadência, ou decaída de todo, observe a crítica escorreita que há dois projectos: um é patente, o outro é clandestino. O primeiro é - arrasar Inglaterra; e, com efeito, arrasa-se. O projecto clandestino, um tanto arteiro, é obter pelo sofisma tortuoso da letra redonda, tipo Elzevir, o que o merceeiro alcança com o correcto silogismo dos azeites e dos farináceos. O Espiritual ousa correr o pário com o Comestível: a meta é o hábito de Cristo. Que o merceeiro, melindrado na sua prosápia de antropóide, não se agaste, se eu o lanço nestas correrias de hipódromo. Não lhe conheço outros dons que o habilitem a entrar no sport.

Enfim, quando voltares a ministrar os negócios do reino, Tomás Ribeiro, não me percas de olho o meu hábito de Cristo, merecido pela façanha heróica e pouco trivial de arrasar Inglaterra. Bem vês que estas ambições aliás temerárias, confesso, não ultrapassam desmedidamente as balizas do meu merecimento. A almejada venera é a ínfima, penso eu, a mais piranga característica étnica da raça que domina esta nesga rasgada da Espanha (que mo releve dom Jaime) - umas noventa léguas, metade incultas; e, assim mesmo, na povoação dessa metade, inçam e pompeiam, segundo conta o Almanaque Comercial para 1884, cento e vinte e dois condes, trezentos e quatro viscondes, e cento e noventa barões. Quanto a comendadores, quem contou as gotas do Mediterrâneo, as areias do Saara e as estrelas da Via Láctea? (...)"

Vinho do Porto
Camilo Castelo Branco
Frenesi (2001)

terça-feira, 11 de março de 2025

Memórias

O dia permanece na minha memória como se fosse ontem, ou melhor, aparece sempre no "ecran" do  meu "computador", e bem mais nítido do que aquilo que ontem fiz.

Dizem os entendidos que é normal. À medida que os anos vão passando, as gavetas antigas da memória surgem à tona, bem abertas, e escamoteiam as modernices que aconteceram nos últimos tempos. No recente, a gaveta desaparece e nem sequer o móvel se nota.

Já lá vai meio século. Tudo se alterou e os olhos de hoje não servem nem podem "ver" claramente "visto" aquilo que se sentiu nesse tempo. Porém, a gaveta tem este vício de se continuar a mostrar anualmente.

O perigo, nessa época, vinha de cima, duns helicópteros que rosnavam a bom rosnar e voavam quase a rasar os telhados mais altos. Por mais inconsciente que se fosse, havia um buraquinho ao fundo das costas ...

Agora são drones, silenciosos, e bem mais perigosos!

domingo, 9 de março de 2025

Velocidade

Notícias de última hora:

  1. A minha menina faz hoje anos e é uma respeitável senhora, mãe de dois "matulões" que não param de crescer;
  2. O tempo foi multado por excesso de velocidade e, de acordo com fontes bem informadas, vai ser colocado sob controlo apertado, talvez com pulseira electrónica, de forma a prevenir esse seu desaforo.

Veremos se o ponto 2. se concretiza, o que não é crível nestes tempos de fake news.

Entretanto, a Casa exulta com mais um aniversário da mais velha dos dois rebentos que por aqui cresceram e se fizeram grandes.


sexta-feira, 7 de março de 2025

Contas

Por muito que ache que não deve, a minha irmã faz anos, de novo, hoje. Continua a não querer saber quantos nem aceita que outros façam as contas e divulguem o resultado. A matemática, para este efeito, é uma ciência sem importância e à qual não dá qualquer relevância. 
A poesia, sim: permanece sempre actual, seja escrita hoje, ontem ou amanhã. E nunca, mas nunca mesmo, tem necessidade de mencionar os anos que tem.

Perguntas quanto tempo deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre.
 
A poesia em 2013 - Resumo 
José Tolentino de Mendonça 
FNAC (2014)

Podemos desligar o silêncio
que a oficina corrompe
e seguir com a multidão
Ou volver a nós reencontrando
as páginas ardidas
dia a dia
e com o mesmo ritmo colher o sol
como se fosse um fruto
que um estuar só nosso sazonou
Nós os que em breve desistimos
nós que nos reconduzimos
pela nossa mão ao que de nós se espera.

O ritmo do presságio
Sebastião Alba
Edições 70 (1981)

terça-feira, 4 de março de 2025

Carnaval

Está quase no fim a folia! O tempo não ajudou mas vai ser um Carnaval recordado por muitos anos, talvez até para ficar na História e ser objecto de estudo aprofundado pelas gerações vindouras.

Por cá, vivem-se dilemas difíceis de resolver, entre moções de confiança ou de censura, comissões parlamentares de inquérito, vidas privadas e aproveitamentos públicos. O Governo, titubeante, comporta-se como o menino que foi apanhado a fazer malandrices na aula e não sabe o que há-de responder ao professor. Marcelo ainda está a decidir se manda uma carta ao Encarregado de Educação ou prefere o silêncio, que é de ouro e ajuda sempre.

Por lá, bem longe daqui (ou será perto?), o homem da poupa diz, com todas as letras "quem manda sou eu". Trata mal a visita, que teve a lata de não levar fato e gravata, mesmo que fosse curta. Obteve largos aplausos russos, ainda que não se saiba ao certo se foram por ele ter ideias brilhantes ou por ser um enorme idiota.

A Europa assiste, com a senhora Von der Leyen a clamar pela necessidade, imperiosa, de se gastar muito dinheiro em armas e munições e António Costa talvez a dizer, com os seus botões, "onde eu me vim meter. Até pareço o Guterres!".

E, no meio disto tudo, recebi ontem (mais) uma carta da Unicef, a pedir-me nova ajuda para as crianças que, todos os dias, morrem de fome.  

domingo, 2 de março de 2025

Palavras bonitas ...

... para a minha mãe, que partiu há vinte e um anos e por aqui se mantém, diariamente, em recordações, sonhos, arrependimentos, certezas de que estive longe de ter sido um bom filho, lhe dei muitas e grandes preocupações e poucas alegrias.

A HORA DA PARTIDA

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andreses
Caminho (2005)

sábado, 1 de março de 2025

Carnaval

É por estas ( e por muitas outras) que, mais de meio século depois da primeira vez, ainda faz sentido continuar a ler o Expresso.

Em papel, claro!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Problema?!

Quem por cá anda há já bastante tempo, com um mínimo de atenção ao que o rodeia e com um pouco de memória, vai usufruindo de muitas coisas que já viu, já ouviu ou já leu noutras "eras".

Tem sido bem badalado nos últimos dias a ética ou a falta dela, o conflito de interesses, as "ajudinhas", os contratos de amigos e os amigos dos contratos, as cunhas e o compadrio sem que se vislumbre qualquer anormalidade e tudo sempre dentro da legalidade e com a máxima honestidade. Em síntese, acima de qualquer suspeita e clarinho como água ...

Há perto de sessenta anos, conheci um homem, na época já um velho empresário, que tinha sido motorista de um Ministério. Contava ele que, em determinada altura, o Botas proibiu os funcionários públicos de terem qualquer outra actividade.

- Ó senhor Ministro, logo agora que eu acabei de fazer a minha empresa, ainda por cima com dinheiro emprestado! Que vai ser de mim?

- Não te preocupes, António. A lei é só para os outros ... tu continuas aqui comigo, sem problemas.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

História

No início da próxima semana, mais propriamente logo na segunda-feira, "comemoram-se" três anos da invasão da Ucrânia pela Rússia. 

Daqui a 80 anos talvez se consiga fazer a história do que motivou a barbárie, quantificar os muitos milhares que morreram e clarificar os interesses de alguns que destruíram a vida de muitos. 

Mau de mais para se encontrar um pingo de racionalidade, com a paz a ser, agora, determinada pelo alucinado da poupa amarela, em conjunto com o candidato a "czar" do século XXI. 

Valha-nos a subtileza de António, em mais um excelente cartoon, no Expresso desta semana.