segunda-feira, 7 de julho de 2025

Gostos não se discutem

Como facilmente percebe quem por aqui vai espreitando, sou um eclético ouvidor de música, sem quaisquer receios de manifestar preferências, mesmo que estas não sejam consensuais ou estejam na berra.

Ouço música de Cabo Verde há muitos anos! Como parece cada vez mais normal, a gaveta foi resgatar memórias antigas quando ouviu notícias sobre as comemorações dos 50 anos da independência daquela antiga colónia portuguesa.

Há mais ou menos sessenta anos convivi, durante alguns meses, com dois cabo-verdianos, um deles com idade para ser meu pai - cerca de 40 anos -, o outro um pouco mais velho do que eu: cantei-lhe os parabéns, com a voz bem desafinada, no dia em que fez 18 anos.

Ainda não se falava de Cesária Évora ou Tito Paris, muito menos de Tété Alhinho ou Sara Tavares. Adelino, o mais velho, e Cula, o jovem, ensinaram-me as diferenças entre a morna e a coladera e abriram-me a boca de espanto nas muitas vezes em que os ouvi tocar e cantar. Tocavam cavaquinho e daqueles dedos negros saíam ritmos frenéticos ou dolências mimosas, desconhecidos para mim e que me habituei a ouvir, calado e deliciado. O Cula fazia percussão com qualquer coisa, da caixa de sapatos ao tampo da mesa, do colchão ao prato da sopa virado ao contrário. 

Regressaram à sua terra e nunca mais deles ouvi falar ou tive qualquer notícia. Talvez já não pertençam ao mundo dos vivos. Vieram-me à memória e devo-lhes o ter aprendido a gostar da belíssima música cabo-verdiana, que continuo a ouvir regular e regaladamente.

sábado, 5 de julho de 2025

Bom e expressivo

A roda dentada do tempo não avaria, nunca! E prossegue, inexorável, o seu afã de fazer crescer cada um, a velocidades bem diferentes aos olhos de cada qual.

O meu neto GRANDE faz hoje 19 anos, tantos quantos o avô tinha há 54, quando a tal roda quase lhe parecia que não andava e o tempo teimava em se deslocar a velocidade de caracol. Afinal, a rodinha revelou-se, aplicou-se, esmerou-se, foi trazendo cada dia atrás do outro e cada vez com mais velocidade. Pelo menos, assim parece!

BOM E EXPRESSIVO

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que 
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra ...
Mas também da rima <<em cheio>>
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo ...

Tomai lá do O'Neill!
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Passagem aérea

Quarta passada, semana acabada! E hoje já é quinta, com mais de dois terços do dia cumpridos e a caminho da noite. Adivinha-se meiga, bem diferente do quotidiano oestino.

Talvez justifique uma voltinha pela cidade, sem pressa e utilizando a nova passagem aérea, com elevador e tudo, que poupa uns valentes degraus, bem difíceis, que o antigo "galinheiro" obrigava a subir.

Com o desaparecimento do "lixo" da velha, a Rua 15 de Agosto ficou mais desanuviada, mais bonita e com grande vontade de receber, espera ela, a praça prometida.

Quase me esquecia, mas ainda vai a tempo: se houver passeio, convém levar um casaquinho, não vá o oeste pregar a partida costumeira.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Agora, incluída no seu projecto, já posso perguntar. Afinal que livro quer o meu pai escrever. Responde que lhe chamou Teoria Geral da Insubmissão. Nada mais, nada menos. E eu a pensar num Lusitânia Revisited, ó mágoa, ó Tejo mudo a correr entre o Algarve e o Minho. Não admira que nunca tivesse chegado ao fim.

O sonho e o destino do país tenham paciência, que o deixem em paz. O meu pai considera a insubmissão o único sentido da História, o único sentido da vida.

Excepto quando me exige obediência. Discorda quase sempre das minhas escolhas. Irrita-se. Desorienta-me. Escolho não discutir, não suporto as suas iras.

Começa a traçar o plano de escrita, não tarda a dispersar-se. Divaga.

Então vai ser assim, tu sacas do tablet, eu digo umas larachas, acrescentamos claras em castelo, umas pedrinhas de sal, uma calamidade, um susto, umas palavras-formigas, umas frases-cigarras, pimenta na língua bárbara, murros nas trombas do poder. Achas que chega? Talvez encontres mais ingredientes no tablet, livros instantâneos, como os pudins. No meu tempo só havia uma ardósia e giz, tudo cinzento, mais tarde umas folhas pautadas e uma caneta de tinta permanente. Quando me puseram uma máquina de escrever na secretária nunca mais quis outra vida. Verdade que o teclado HCESAR não ajudava. Ainda se fosse o AZERT, o internacional. Mas não, o Saladas queria a pátria espremida em teclas orgulhosamente sós. Através do teclado, dois destinos divergentes, a repartição e a poesia. Via-os inimigos, mas só porque era míope, ingénuo e acagaçado. Afinal, quando bati com a porta da repartição, a miragem ficou lá dentro, encerrada no teclado. Orgulhosamente europeu dessa vez, pelo menos já era AZERT. Tomaste nota? (...)" 

Corpo Vegetal
Julieta Monginho
Porto Editora (2024)

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Calorzinho

A necessidade de resolver um problema "habitacional" obrigou a uma deslocação à Serra d'El Rei. Como ainda era cedo, foram desprezados os acessos modernos da A8 e do IP 6 e utilizada a velhinha e bem conhecida EN 114 - muitos quilómetros foram feitos por ela na década de 80 do século passado.

Tratado o assunto, uma vez que, "quem bem o sabe, depressa o reza", "já agora", um saltinho ao Baleal, para ver se o tempo está igual ao da Foz ...

Tal e qual ou sem tirar nem pôr. Nevoeiro denso, frio, vento e o mar, ausente. Ala, que se faz tarde!

Circundada a rotunda, percorridas umas centenas de metros e, de novo, Ferrel, agora uma vila desenvolvida e bem tratada, muito diferente da que existia aquando da luta contra a central nuclear. O sol brilha e o calor aperta.

Isto está tudo mudado!

sábado, 28 de junho de 2025

Palavras bonitas

S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1986

REBATE

Tantas palavras que conheço agora
E malbarato
No papel,
Aqui onde só duas aprendi
Com eterno sentido:
Pai e Mãe!
Mas ninguém
Fica fiel à infância.
Crescemos
E perdemos
A inocência
E a sua mágica
Sabedoria.
Adulto que porfia
Nestas solfas de letras alinhadas
E paralelas,
Chego a ter pejo de as escrever.
Que podem dizer elas
Que valha a pena ler?

Diário XIV
Miguel Torga
Coimbra

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Liberdade

O cartoon de António e a crónica de Miguel Sousa Tavares justificam, como sempre, o valor dispendido na compra da edição semanal do Expresso.

Na sua crónica, após referenciar a frase já aqui reproduzida, Miguel Sousa Tavares escreve:

"(...) Esta frase ficará para a história, lembrem-se dela por muitos anos, pois ela resume na perfeição o papel de cãozinho do dono que tem sido o de Mark Rutte, o infeliz secretário-geral da NATO. O neerlandês não é, por si mesmo, membro da NATO, mas apenas o coordenador de vontades e construtor de consensos entre os 32 membros da organização. Porém, desde o primeiro dia, e certamente também temente pelo futuro do seu cargo, ele fala como se mandasse em todos e a todos pudesse impor livremente a vontade do dono, o seu tão admirado Donald J. Trump - esse tão confiável Presidente americano, que poucas horas antes da cimeira de quarta-feira voltou a pôr em causa o cumprimento do artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, o próprio fundamento da NATO: um por todos, todos por um. Já sabíamos que Rutte é um serventuário de Trump, ainda mais que o seu antecessor, Stoltenberg. Mas escrevê-lo assim, com estes requintes de subserviência e dando já por decidido o que só no dia seguinte se iria discutir, é suficiente para concluir que o homem não está à altura do cargo. Se houvesse alguma réstia de dignidade e orgulho próprio entre os dirigentes ocidentais de hoje, o ponto nº. 1 da ordem de trabalhos da Cimeira da NATO em Haia teria sido a destituição do seu secretário-geral. (...)"

A crónica acaba assim: "Nunca tantos viveram, indefesos e ignorantes, tamanha hipocrisia".

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Cretinos

Aquele figurante que foi Primeiro-Ministro dos Países Baixos e, nessa qualidade, disse que os portugueses só sabiam gastar o dinheiro da UE em p...s e vinho verde, é agora o fantoche que manda na Nato.

Talvez por estar actualizado e viciado nas mensagens rápidas e concisas, resolveu mandar uma ao (seu) Presidente da melena. Ainda bem que não releu o texto e lhe saiu uma pérola que, sem qualquer dúvida, vai merecer o Nobel da parvoíce, da sabugice e da cretinice.

"Parabéns e obrigado pela tua ação decisiva no Irão, que foi verdadeiramente extraordinária, e algo que mais ninguém se atreveu a fazer. Isso torna-nos a todos mais seguros. Estás a viajar para mais um grande sucesso em Haia esta noite. Não foi fácil, mas temo-los todos comprometidos com os 5%!. A Europa vai pagar à GRANDE, como devia, e será uma vitória tua. Donald, tu conduziste-nos a um momento mesmo mesmo importante para a América e para a Europa, e o mundo. Alcançaste algo que NENHUM presidente americano em décadas conseguiu."

Não se conhece a resposta de Donald Trump a Mark Rutte mas, a avaliar pela amostra, as conversas de quem manda no mundo estão, cada vez mais, a descer de nível e a subir de interesse!

terça-feira, 24 de junho de 2025

Tão longe ...

Em menos de trinta dias, a contar de hoje, irão decorrer os aniversários de três dos quatro "rapagões" que nasceram "ontem", com grande alegria dos pais e um orgulho enorme dos avós.

Hoje é a vez do Duarte, terceiro na cronologia, que completa uns maravilhosos treze aninhos. Está longe, com três horas a mais, que obrigam a que a alvorada seja muito cedo e o serão curtinho, quando se tenta comparar com os horários de cá.

Tem mundo, conhece gente de todo o lado, de todas as cores e todos os hábitos. Enriquece todos os dias, o que nunca irá esquecer e lhe irá servir para a vida.

Parabéns, meu DUDU querido. Daqui a dois dias vou dar-te um abraço igual ao último, dado na despedida de Baku. Sem chuva nos olhos, espero.