domingo, 30 de outubro de 2011

Palavras bonitas

RIO

Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
 
Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

sábado, 22 de outubro de 2011

Crise

Vivemos um momento único, para o qual se necessita de ponderação, capacidade de análise, inteligência, solidariedade, motivação, verdade, discussão mais um sem número de adjectivos que saem da capacidade de um mortal tão comum quanto eu.
Nos (muitos) anos que já levo, habituei-me a ler, ouvir, concordar, discordar, render-me à evidência do maior saber, desligar quando a estupidez dos argumentos me causa comichão, tudo isto aliado à capacidade de reconhecer quão difícil é o saber e o constrangimento que causa o desconhecimento e a incapacidade com que, muitas vezes, sou confrontado.
Miguel Sousa Tavares, uma vez mais, escreve no Expresso desta semana uma brilhante e lúcida crónica, da qual eu gostava muito de ter sido autor. Respigo uma pequena parcela:
"... A ingenuidade de Passos Coelho foi imaginar que tinha a solução no bolso e que para tal lhe bastava fazer o que os socialistas se recusavam a fazer. Afinal, como reconheceu Vítor Gaspar, numa entrevista há uns dois meses, gerar poupanças no Estado é bem mais difícil e demora bem mais tempo do que subir impostos e cortar salários, pensões e prestações sociais. O exemplo extremo desta ligeireza ideológica é a história da descida da TSU para as empresas, para estimular a sua competitividade. Se bem se lembram, foi a medida emblemática do programa eleitoral do PSD e o tema principal do decisivo debate televisivo entre Sócrates e Passos Coelho. Passos garantia que descia a TSU em 7 ou 8 pontos e financiava a descida através da subida de escalão de algumas taxas intermédias do IVA. Afinal, o que aconteceu é que a TSU desceu zero, mas, em contrapartida, subiu o IRC para as empresas, os trabalhadores vão ser forçados a trabalhar mais meia hora diária grátis e quase todas as taxas intermédias do IVA subiram para o máximo! Digam-me lá quantos votos teria tido o PSD se tem anunciado isto em campanha? E sabem porque tudo mudou, afinal? Porque, como confessou Vítor Gaspar esta semana, a descida da TSU era um modelo de trabalho académico, estudado em algumas Universidades, mas jamais testado na realidade, tamanhos são os riscos que acarreta ...
O meu medo é que esta história seja emblemática: que estejamos a ser governados em obediência a um modelo teórico dos académicos liberais, cujas teses de "governo mínimo" estoiraram com a economia mundial. Que sejamos uma espécie de cobaia para os seus ensaios ideológicos, que, de lógicos, nada têm.(...)"
E acrescento eu, parafraseando: É o mercado, estúpido!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando entrei no mercado de trabalho - há quantos anos, já lhe perdi a conta! - não havia subsídio de férias (nem férias), não existia subsídio de Natal (o Natal existia mas era bem mais curtinho) e o horário era uma coisa que constava de um papel afixado no escritório (havia um senhor que era o fiscal do dito) que, na prática se resumia a ter a hora de entrada e a hora de saída, com intervalo para almoço, para que o tal referido senhor consultasse quando visitava a empresa, na sua missão soberana de zelar pelo cumprimento da lei e, já agora, da ordem.

Passadas estas dezenas de anos, o horário já desapareceu há muito mas ainda consta do papel e os subsídios de férias e de Natal vão seguir-lhe o caminho.

Regredir é a palavra de ordem, ninguém sabendo onde se situará o fim desta "descida aos infernos".

Espera-se que a meta não seja o regresso a uma sociedade arcaica, castradora, insensível, desigual, propiciadora de situações como a que António Lobo Antunes ficciona no seu último romance, Comissão das Lágrimas:

"(...) um animal vindo por momentos à superfície de um sonho e mergulhando logo numa inércia de afogado, a lareira que não aquecia, fritava e o tio a cabecear no banquito que era o único baloiço que tivera na vida, a tia que o marido entrega ao avô, no dia seguinte ao casamento, por não estar completa
      - A sua fruta tem bicho
e não comia com eles, estendiam-lhe o prato e acocorava-se no arco do forno, de chapéu na cabeça a tapar-lhe a cara (...)"

Comissão das lágrimas
António Lobo Antunes
D. Quixote (2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Euro 2012

O trabalho deu frutos...
Após 16 jogos sem conhecer a derrota, a Grécia está apurada para o Euro 2012 e o "meu menino" também tem uma quota parte de responsabilidade nesse sucesso.
Parabéns para todos, num dia de nervos e de alegria, apenas ensombrada pelo não apuramento directo da selecção de Portugal.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fim de semana

O Expresso faz-me companhia desde o primeiro número publicado, ainda naquele papel e tinta que deixavam as mãos num estado impróprio para mostrar a quem quer que fosse, no já longínquo ano de 1973. 
Com altos e baixos, o seu caminho é, lugar comum, uma demonstração cabal de que a qualidade, a diversidade e o debate das ideias são condição para se ser cada vez melhor.
Os colunistas são, para mim, pessoas do "tu cá, tu lá", sem que, na grande maioria, alguma vez me tivesse com eles cruzado nem sequer no passeio do outro lado da rua. Mas, o Henrique Monteiro, o Miguel Sousa Tavares (mais uma extraordinária crónica esta semana), o Nicolau Santos, o Fernando Madrinha, o Ricardo Costa, a Clara Ferreira Alves, etc. etc., são convidados de casa e passam comigo todos os fins de semana.
No número de hoje, uma chamada de atenção na crónica do Nicolau Santos levou-me a esta "pérola" de Pedro Osório, que aqui fica. Obrigado, Nicolau, e, já agora, os agradecimentos também pelas incursões da poesia nos interstícios da economia. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Vontade

Não me apetece, pronto!
Com tanto assunto na ordem do dia, do aumento da energia eléctrica com anúncio deixado cair pela entidade reguladora (?), até às "gavetas" do Alberto João que guardam tantos "tesourinhos deprimentes", passando pela crise, pelo fim do euro, pelo discurso "redondinho" do PR, pela nova liderança e presidência do PS, por isto e mais aquilo, não faltavam assuntos para discorrer, mesmo que a imaginação não abunde e a capacidade seja pouca, mas, que querem, não me apetece!!!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Palavras bonitas ...

... para o meu filho, que faz hoje 30 anos.

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra: "Não sujes
 a toalha", "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.
Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

sábado, 27 de agosto de 2011

Percebes


Percebes, agora, porque são caros os percebes?

MAMAOT

Num país onde as siglas proliferam e os neologismos e as misturas linguísticas são constantes, mencionar, em voz alta, a sigla do Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território - MAMAOT - pode dar lugar a dúvidas sobre o que se pretende identificar ou transmitir. 
Sendo a pronúncia rigorosamente igual para MAMAOT ou MAMA HOT, já o significado, considerado o inglesismo arrevesado na última expressão, é bem diferente.
Para além de enorme, o Ministério de Assunção Cristas também será "quente"?

domingo, 21 de agosto de 2011

O celeiro

A vida naquele celeiro era qualquer coisa de sonho!
Os ratos que nele habitavam deleitavam-se com a variedade e a qualidade dos cereais que lá eram armazenados e que proporcionavam lautos banquetes.
Bem nutridos, os ratinhos apenas comiam, dormiam e ... reproduziam-se. Cada vez eram mais, e mais felizes!
Um dia (há sempre um dia) surgiu no celeiro uma criatura estranha, bem maior, mais peluda, que também se deslocava a quatro patas, bem diferentes e assustadoras. Cada uma delas tinha umas garras, afiadas, retorcidas,  de fazer arrepiar o pelinho sedoso de qualquer ratinho ou ratão. Ainda por cima, a criatura trazia cara de poucos amigos ... inspeccionou, cheirou, decerto detectou o que procurava, retirou-se sem sequer mostrar curiosidade pelos esconderijos que as sacas empilhadas ofereciam.
Os ratos, em pânico, convocaram uma reunião de emergência para discutirem o problema que, já se adivinhava, havia chegado. A sua vida corria perigo, a sua subsistência estava em causa, o sossego ia terminar. 
Encontrar uma solução era urgente e instante!
Constituída a mesa que iria conduzir os trabalhos, a participação dos ratinhos na assembleia surgiu ordeira, preocupada e civilizada.
- Juntamo-nos todos, montamos uma emboscada e liquidamos o gato, disse um.
- Nem pensar! Somos civilizados, fiéis ao respeito pelos outros, ordeiros, dialogantes, não somos vândalos, muito menos assassinos, argumentaram, com veemência, os dois oradores seguintes.
- Pregamos-lhe um valente susto!
- E quem nos garante que ele não volta a seguir?
Foram inúmeras as intervenções, nenhuma apresentou qualquer solução. O desespero já se apoderava da assembleia, o medo era comum a todos, a corrida às ideias era vertiginosa.
Acabaram os oradores inscritos e o silêncio na sala era ensurdecedor.
Um rato mais maduro, tido como ponderado, inteligente e sabedor, pediu a palavra.
- Encontrei a solução! 
A voz era pausada, persuasiva e concitou a atenção de toda a assembleia.
- Colocamos um guizo no gato e o seu tilintar avisar-nos-á com antecedência, permitindo-nos fugir para os esconderijos sem correr quaisquer riscos.
- Bravo, excelente, brilhante, foram alguns dos muitos adjectivos com que a assembleia brindou o orador, para além de uma chuva de aplausos de "deitar o celeiro abaixo".
Solução encontrada, prepara-se o presidente para a última intervenção, na qual brindaria os presentes com os agradecimentos do costume, e daria por encerrados os trabalhos, não sem antes salientar a forma ordeira como tinham decorrido e a aclamação com que tinha sido aprovada a proposta do meritíssimo rato. Não se podia esquecer de convidar todos os participantes a retemperarem as forças depauperadas com uma boa dose dos excelentes cereais que ali se encontravam à disposição de todos e de cada um. 
Ajeitou a compostura, pigarreou para aclarar a voz, mas, lá do cantinho do fundo e com uma voz tremida pelo nervoso habitual de quem fala em público pela primeira vez, um jovem ratinho levantou a medo a pata direita, pedindo a palavra.
- Senhor presidente! Também eu aplaudi a ideia brilhante que acabou de ser aprovada e aclamada, e que, por certo, o senhor secretário já registou na acta. Permita-me, contudo, uma pergunta.
- Meu caro, pergunte o que quiser, retorquiu, solícito, o presidente.
- Quem vai colocar o guizinho no pescocinho do gato?

Moral da história - É fácil dizer que se faz, mas é tão difícil fazer!
Entre o celeiro e o país "vai o passo de um anão".

domingo, 7 de agosto de 2011

Cidadania

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que António Barreto dirige (vale a pena espreitar o seu blog pessoal  aqui), tem vindo a publicar uns "livrinhos" com estudos, ensaios e opiniões sobre os mais diversos temas, da educação às finanças, da autoridade à estatística, passando pelas sondagens, pela corrupção e pela justiça. 
Já foram editados 18 volumes, que podem ser adquiridos no Pingo Doce, a 3,15 Eur cada.
A última publicação é da autoria de Maria Filomena Mónica e versa a morte e a forma como com ela se lida. Partindo da doença da mãe, vítima da doença de Alzheimer em 2006, a autora discorre sobre conceitos éticos, morais, científicos, religiosos. Analisa-os sobre a perspectiva histórica, ilustra a argumentação com casos reais, convida/desafia à discussão, serena, sobre temas tão actuais quanto o são a eutanásia, o testamento vital, o suicídio assistido, a dignidade a que temos direito, a vontade manifestada e ausência dessa manifestação e muito, muito mais.
O tema não será fracturante na sociedade mas é, seguramente, demasiado importante para ser deixado nas mãos da demagogia e do cinismo. 
Imprescindível ler.

Palavras bonitas

UM DIA
 
Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

domingo, 31 de julho de 2011

Venda do BPN

O Governo anunciou há pouco, em comunicado formal, a venda do BPN ao banco angolano BIC, que já opera no mercado português e é presidido por uma figura muito conhecida na nossa praça - Luís Mira Amaral. 
Foi assim cumprida, em cima do limite de prazo, uma das imposições da "troika".
Como os nossos credores não fixaram o preço de venda nem o comprador, aguarda-se, agora, que o Ministro das Finanças divulgue as razões que o levaram a preferir a proposta do BIC em detrimento das dos outros 3 concorrentes - Montepio Geral, um grupo de empresários denominado NEI e um outro que se manteve no anonimato - e bem assim como todas as condições da adjudicação.
A bem da transparência ...

domingo, 24 de julho de 2011

Província

A grande cidade coloca à disposição dos seus habitantes espectáculos da mais variada ordem, sendo apenas condição para a eles assistir que o gosto a isso apele e a carteira disponibilize os euros suficientes. 
Para quem vive na província, a situação é bastante diferente. Ou se desloca frequentemente à "aldeia grande", com os custos e o cansaço inerentes, ou está atento e não desperdiça as oportunidades, uma vez que "o comboio nunca passa duas vezes".
Na passada sexta-feira assisti no CCC, com a companhia estóica do meu Neto I (já estou muito cansado, avô), ao encerramento do Musicaldas 2011. Inspirado em Alexandre O'Neil, Bernardo Sassetti e a Companhia Nacional de Bailado apresentaram "Uma coisa em forma de assim" que valeu pela música e pela interpretação de Sassetti, pelas excelentes coreografias e pelos belíssimos desempenhos dos bailarinos (Ó vô, parece que estão a fazer ginástica). Uma bela noite!
Ontem, no Mosteiro de Alcobaça, integrado no Cistermúsica, este ano "Em torno de Inês", ouvi, pela primeira vez, Bach em acordeão a solo. O finlandês Mika Väyrynen deu um concerto extraordinário no claustro D. Afonso VI, do Mosteiro. A última obra do programa - Impasse, de Franck Angelis - foi uma "coisa em forma de ASSIM", que o texto escrito pelo intérprete no programa já deixava antever: "...Na última parte do concerto temos Impasse, de Franck Angelis. A história desta peça é dramática e trágica. O Franck era uma espécie de "padrasto" do filho da sua irmã (pois este não tinha pai). Eram muito próximos e o Franck viu o pequeno bébé crescer e tornar-se rapaz. Até que um dia chegou a triste notícia: o rapaz morrera num acidente de moto. "Impasse" é dedicado à memória deste menino. Impasse significa "algo que não sai". Nos grandes desgostos, é essa a sensação que temos."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Neto II

Qual navegador ousado, consequente e destemido, o meu neto Vasco terminou a "travessia" pelos interstícios da mamã e "atracou" nas Descobertas, onde lhe franquearam as portas de uma vida que se deseja longa, bela e cheia de felicidade.
Chegou bem! Era o mais importante. É (ainda) pequenino, mas vai crescer e fazer as delícias dos pais, dos avós, dos tios, de toda a família e ... do mano Gil, que está tão deslumbrado e com tanta ânsia de brincar com ele, que já queria que o mano pegasse no peluche que escolheu para lhe oferecer.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Palavras bonitas

DIÁLOGO
 
Pergunto ...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar ...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar ...
Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também ...
Perguntam, mas a quem?

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

Netos

O meu neto fez 5 anos no passado dia 5. Nunca mais conseguirá repetir esta proeza e o avô não foi capaz de assinalar a data na altura própria, como se impunha.
A vida, às vezes, prega-nos partidas e a "martelada" na cabeça não sai só aos outros. Também nos calha, por muito que pensemos que não.
O mar já está mais calmo, a tempestade tende a amainar, a minha qualidade de teimoso já está à tona, o humor já apanhou o comboio, ronceiro, do regresso.
Apareceram inquilinos a ocupar espaço sem a devida autorização. Foram despejados e remetidos a quem os possa identificar, nem que seja para lhes determinar um "termo de identidade e residência".
Cá por mim, que com eles não assinei contrato, só espero que não voltem nem tenham deixado rasto ...
O que importa, agora, é que o meu neto Gil já é um homem de 5 anos e que o meu neto Vasco está quase, quase a sair do conforto da barriguinha da mãe!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crise

No muro, algum contestatário meio "anarca" ou a recordar os idos tempos do PREC (para quem é mais novo, iniciais do Processo Revolucionário Em Curso, em 1975), escreveu:

- NÃO À CRISE!

A cor diferente, um esperto zelador da língua, talvez conservador ou diligente "educador", colocou um H antes do "à", não tocando, todavia, no acento.
Deixando de lado a acentuação, com a qual já pouca gente se preocupa, resultou que a primeira mensagem, que pretendia ser de alerta, chamamento, voz de revolta, foi, com um simples H, transformada radicalmente numa afirmação peremptória:

- NÃO HÁ CRISE!

E ambas cumpriram a sua função, com a subtileza, bela, que tem a língua portuguesa.

sábado, 2 de julho de 2011

Palavras bonitas

PÓRTICO


Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
do dia ganho.
Não por haver chegado,
mas ter acrescentado
um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Diário XVI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)