"(..) 1.
Bloom afogaça com os caninos um médio hot dog
enquanto, em redor dele, americanos de cinto cem vezes XL
parecem devorar pão plastificado e gordura repelente
a ritmo de máquina trituradora, mistura de motor e ansiedade.
Mas as conversas mudaram. O tema é um e só um.
2.
E é isto. Boatos, boatos.
Como se o medo da peste fosse no organismo a mais súbita
das viagens para trás, colocando a cabeça do assustado
num insólito século XXI rodeado de pedra e pura paisagem,
sem qualquer artefacto ou vestígio do intelecto -
bem antes do metal, do fogo, da roda ou do alfabeto.
Estúpida como um tijolo fica a cabeça do homem moderno
diante do perigo sem forma e sem causa aparente.
Balbucia, repete boatos e dispara bem antes do alvo aparecer
ou sequer ser feito ou pintado.
3.
Mas, sim, nesse organismo que vive no equilíbrio possível,
no meio da confusa marabunta interna,
a partir de que concentração pânica, senhor narrador,
salta o pai de família sapiens para as quatro patas mentais
do animal impiedoso que, como único projeto de vida,
coloca no instante atual, e nos seguintes,
o objetivo de sobreviver?
(...)"
O fim dos Estados Unidos da América
Gonçalo M. Tavares
Relógio d'Água (2025)
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