Pode ter sido um diário, a reunião de um conjunto de crónicas, uma amostra de que a prosa também contém poesia, um exercício de liberdade e de opinião, uma forma de, usando as metáforas, retratar e deixar escrito o que lhe vai na alma. É um livro "eterno", ao qual se volta sempre e sempre com grande prazer e actualidade.
******
O BICHANO REACCIONÁRIO
O grande gato não partiu para a grande guerra. Quedou-se em casa. Aceitou de mau grado o racionamento do leite, a escassez do carapau, as hipérboles dos títulos dos jornais; aceitou, até (ele que há muito deixara de ser um caçador!), a magreza dos ratos. Conformou-se, foi-se conformando com a crescente dureza óssea do regaço da dona. Mas, sob as águas estagnadas do dia-a-dia, quem estaria a torpedear-lhe a barquinha da vida?
E, assim, com seu guizo e juízo, o grande gato foi, aos poucos, aprontando-se para entrar numa quotidiana eternidade em que a mera sobrevivência já seria grande conforto. E não perdeu as maneiras - o grande gato! Mesmo quando certos deveres cívicos passaram a mobilizar colectivamente homens e bichos, o grande gato soube encontrar, com desencanto e pachorra, a figura certa na hora própria. Impunha-se quadricular as vidraças das janelas para evitar, em caso de bombardeamento, o voo rufião dos estilhaços? Lá estava o gato, de língua de fora, a ajudar a dona a espalhar, nas tiras de papel de embrulho ou de pano cru, a cola de preparação caseira. Nos exercícios de ocultação de luzes, ele, que há anos não trepava a um telhado, acabou por rondar, corajosamente, o seu quarto pelos inclinados caminhos de telha, mau grado a secura que a vertigem, o medo da vertigem, sempre lhe deixava no céu da boca. E a atenção concentrada por ele nessa vigilância era tanta que, uma escuríssima noite, vislumbrou algo. Preveniu a Central da existência, embora incerta, a umas centenas de metros do seu posto, dum tremeluzir suspeito. Distracção do locatário ou morse de espião para o inimigo? Acorrida ao local detectado pelo grande gato a brigada móvel, verificou-se, com alívio e gáudio para todos os diligentes vigias, que a ténue fonte de luz era ... um pirilampo! E o grande gato sofreu, nessa altura, a vertigem do primeiro louvor. Mas logo se recompôs na fleuma e no cepticismo. A sua dona, com algum sacrifício pessoal, aumentou-lhe, por dois dias, a ração de carapau e de leite. A filosofia de vida do grande gato não consentiu que ele ficasse, no seu foro íntimo, muito grato à bondosa senhora por este melhoramento (aliás, aumento) temporário do rancho.
A questão, para o gato, era sobreviver. Se não fosse debaixo de telha, seria sobre telha; se não pudesse ser ao pé do calorífero a serradura, teria de ser ao Sete-Estrelo, ao calor da ilusão de dias melhores ou ao sol quadriculado de guerra; se carapau, para tanto, faltasse, moscas haveria, que há sempre moscas (e gordas!) quando os mortos se demoram, um pouco por toda a parte, ao ar livre. O que o grande gato queria era levar por diante o seu plano de sobrevivência, mas sem paixão, de cabeça fria. O pelo deslustrara-se-lhe, a orelha tornara-se-lhe quebradiça, o seu rabo já quase não era capaz de um ponto de interrogação, duma simples vírgula. No entanto, o grande bichano, que conhecera dias de rei, aceitava com resignação a decrepitude que o ameaçava.
Para ter um pouco menos vazio o saquitel do dia-a-dia, prontificava-se a fazer recados às senhoras da vizinhança. Por conta doutrem, aguentou, a pata firme, horas e horas nas bichas do azeite, do açúcar, do arroz, das batatas. E quando alguém se surpreendia com a sua estirada paciência, ele respondia: <<Para que serve, nos dias de hoje, um gato, senão para isto?>>.
Com seu guizo e juízo, lá foi chegando o grande gato ao fim da grande guerra que parecera não mais ter fim.
No dia da vitória, quando, no peitoril da janela, a cabeça encostada ao ossudo cotovelo da dona, contemplava, quase indiferente, as multidões que se entregavam à desordenada alegria de quem julga que venceu, o grande gato, pensou, repentinamente, num carapau tão grande e tão prateado quanto um dirigível. E, de gozo, adormeceu.
Sem comentários:
Enviar um comentário