sábado, 4 de novembro de 2006

Palavras bonitas

VOZ DE COMANDO

Amanhece.
Erguei-vos, corpo e alma, combatei!
Juntos, como num rio
Águas da planície e da montanha,
Aliados, correi
À batalha do mundo, que se ganha
No mundo.

Mundo cruel e duro, mas que eu amo,
Apaixonado pelos seus encantos.
Visito-lhe os recantos,
Sonho um abraço que o abarque todo.
De vez em quando há lodo
Nos baixios,
Mas olho os montes, limpos, preservados
Na sua altura,

E renasce-me a esperança ao vê-los debruados
De rebanhos e neve - a máxima brancura.

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976)

domingo, 29 de outubro de 2006

Benfica

Foi a concentração deste tigre de Júlio Pomar que faltou

ao Benfica, no início e no fim do jogo de ontem.

Quarta-feira será melhor!

É Dia de Todos-os-Santos!

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Palavras bonitas

Revelação
.
Tinha quarenta e cinco ... e eu, dezasseis ...
Na minha fronte, indómitos anéis
vinham da infância, saltitando ainda.
.
Contavam dela: - Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco ... e eu, dezasseis ...
Formosa? Não. Mais que formosa: Linda.
.
Seu olhar diz: Seja o que o amor quiser,
a verde planta que os meus dedos tomem!
.
Pela última vez foste mulher ...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
Pedro Homem de Melo
Antologia de Poesia erótica e satírica
Selecção de Natália Correia

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Dores de coluna

Recuso andar em bicos de pés, nego-me a viver de cócoras.

Apesar de os nossos antepassados terem andado de gatas, a coluna quer-se direita.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Palavras bonitas

Uma tarde
O Tóino
chegou ao largo
com um vidro extraordinário.
Segurava-se
entre o polegar e o indicador,
virado para o sol,
e do outro lado
chispavam as sete cores do arco-íris!
E nós
em volta
esquecidos do jogo do pião!...
Manuel da Fonseca
Poemas completos (6ª edição)
Forja 1978

domingo, 22 de outubro de 2006

Palavras bonitas

O Ritmo do presságio

A tinta das canetas
reflui de antipatia
e impregnadas, assíduas
cambam as borrachas
Não há fita de máquina
que o uso não esmague
o vaivém não ameace
de dessorar os textos
Mas a grafia nada diz
de pausas na cabeça
Vozes inarticuladas
adensam, durante elas
uma áfona tempestade
E nubladas carregam-se
as suspensões
encadeando em nós
o ritmo do presságio.

Sebastião Alba
A noite dividida
1996

sábado, 21 de outubro de 2006

E fez-se luz ...

Fui informado esta semana, pela voz autorizada do Senhor Secretário de Estado da Indústria e Inovação, de que iria passar a pagar a energia eléctrica mais cara cerca de 16%, por ter, há já alguns anos, uma dívida para com a EDP de dimensão apreciável.
Dois dias depois, a voz ainda mais autorizada do Senhor Ministro da Economia e Inovação, veio dizer que, afinal, já só vou ter um aumento de 6%, o que ainda mais me surpreendeu. Afinal eu, que nem sabia da existência da dívida, já não devia tanto! Alguém deve ter pago por mim e não me disse nada! Queria, ao menos, agradecer-lhe o gesto!
A baralhação é completa: há cerca de 30 anos contratei com a EDP o fornecimento de energia eléctrica, mediante um pagamento mensal da energia consumida na minha casa. Religiosamente paguei os consumos e as taxas constantes das facturas que me foram sendo apresentadas, sem qualquer contestação nem violação das regras contratuais que tinha subscrito.
Recentemente, impuseram-me o pagamento de dois em dois meses, oferecendo-me como alternativa, em telefonema simpático do Director de Marketing (!!), o recurso à conta certa para continuar a pagar mensalmente.
Recusei a alternativa, mas não pude continuar a pagar mensalmente o que consumia, como tinha sido contratado há quase três dezenas de anos
Também religiosamente, comunico à EDP a leitura do meu contador, evitando, assim, gastos desnecessários em pessoal e contribuindo, julgava eu, para que a empresa fosse rentável, como se ouvia dizer na apresentação das contas anuais e na distribuição de dividendos aos accionistas.
Perante tudo isto, acreditava piamente que era um cliente cumpridor!
Afinal, não passo de um vulgar caloteiro, que nem sabe o que deve!!!
A vida é uma caixinha de surpresas.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Registo Predial

Excelência
Sempre que vejo V. Exª. no pequeno ecran fico com a ideia de que padece de cansaço, um mal característico das pessoas da nossa geração, que começaram a trabalhar bem cedo, mantêm um ritmo elevado e, tudo o indica, assim vão continuar até ... sabe-se lá quando.
Tudo isto não é novidade nem para V. Exª. nem para mim e, por si só, não justificaria este ou outro qualquer comentário.
A razão de ser do meu escrito só existe por, hoje mesmo, ter arranjado um remédio que, se não elimina completamente o cansaço, o reduz de forma drástica. Como gosto de partilhar conhecimentos e me parece que, sem grande dificuldade, V. Exª. pode "tomar o remédio", a receita aqui fica: como sabemos, V. Exª. é natural do concelho de Alcobaça e vem, com alguma regularidade, ao seu "sítio" descansar das fadigas da governação; assim, quando apanhar o Senhor Primeiro Ministro de maré e sem azia, o que não deve ser nada fácil, peça-lhe um fim de semana mais prolongado e dê uma escapadinha à Conservatória do seu concelho.
Verificará que o cansaço não tem qualquer hipótese de sobreviver ao enfado que provoca tão grande celeridade no atendimento, ainda por cima com direito a aviso na parede: "Conservatória em informatização. Atendimento demorado", escrito à mão, com letra bonita, realçada por marcador fluorescente.
Lá diz o ditado: "quem te avisa, teu amigo é"!

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Palavras bonitas

Paraíso
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota ...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto ...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito ...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira
Obra Poética
1988

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Selvagens ... os patos?

Alguém há-de ser responsabilizado por isto!
Não vai ser trabalho do novo Procurador nem haverá inquérito a arrastar-se por muitos anos nas varas dos Tribunais.
Os vindouros hão-de chamar-nos todos os nomes que, nessa altura, serão utilizados para catalogar quem não presta.