segunda-feira, 23 de abril de 2007

Livros - Dia Mundial

Conhecemo-nos há cerca de 50 anos e temos mantido uma amizade sã, sem arrufos nem zangas dignas de registo. Os primeiros encontros tiveram lugar sem contacto físico, com leituras (pela voz da mãe e da irmã) retiradas dos livros da primária, alguns dos quais, mais tarde, me passariam pelas mãos. À força de tanta vez o ouvir, por insistência minha, decorei um texto que contava a história dos bois de um tal Geirinhas, que não puxavam o carro por estarem com os lugares trocados. A cigarra e a formiga também vêm desse tempo.
O aprender a ler permitiu governar-me sozinho e o Jornal de Notícias, chegado do Porto ao final do dia, era devorado no chão da cozinha, única hipótese de ser lido (soletrado), por os braços serem demasiado curtos para o tamanho. O "boneco" do Pacheco de Miranda, na última página, era a primeira coisa a espreitar. Destas leituras vem à memória, sem preocupação de confirmar sequência, o terramoto de Agadir, a invasão de Goa, o assalto ao Santa Maria, notícias que não se entendiam e que os adultos evitavam explicar. Foi no JN que foram tentadas as primeiras palavras cruzadas, com dificuldade para entender a razão pela qual batráquio, com duas letras, era rã.
O vocabulário era curto. Os primeiros livros da Biblioteca itenerante da Gulbenkian foram lidos com dificuldade e com o recurso sistemático a um pequeno Porto Editora que apareceu lá em casa. A maior parte das leituras que fiz na adolescência deveram-se à Fundação Calouste Gulbenkian. O "homem da carrinha" era o conselheiro e, por lhe ter caído no goto ou por me achar maduro (?!), entregou-me A Relíquia , com a cinta vermelha à volta, por volta dos meus 12/13 anos. Foi o primeiro Eça que li, após um estágio com Júlio Dinis.
O Círculo de Leitores permitiu as primeiras compras com regularidade, utilizando os poucos recursos disponibilizados pelo "Ministro das Finanças" lá de casa. Uma das aquisições - Sábado à noite, Domingo de manhã, de Alain Sillitoe - haveria de ser confiscado no dia da apresentação na tropa, com o argumento de que, ali, não teria tempo para ler e que, se calhar, o livro até era subversivo! Abençoado sargento, mais papista que o papa.
A amizade continua ... os livros são mais fofinhos ... o que sobra em vontade, falta nos olhos e nas costas ... mas cá continuamos. A ler, cá nos vamos entendendo e aprendendo.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Primavera

No final de um dia esplêndido, cheio de sol, a "cheirar" a Verão, as rochas, a areia e o mar ... da Foz, à espera da chegada de um visitante novo.

Está quase!

sábado, 14 de abril de 2007

Ecos da semana

  • A novela "Universidade Independente" chegou ao fim, com o encerramento compulsivo da dita escola. Esperemos que a Justiça seja célere a julgar o recurso, se o houver.
  • Não foi necessário Despacho do Ministro Gago nem Decreto do Presidente Cavaco: está assente que não é condição necessária ter uma licenciatura para ser Primeiro Ministro e que, se calhar, até não ajuda nada. No Regulamento de Disciplina Militar do tempo da Monarquia (da autoria do Conde de Lipe, julgo) determinava-se que "o sargento da companhia deve saber ler, escrever e contar, porque pode o Comandante ser nobre e assinar de cruz". A licenciatura é fundamental para se ser caixa no banco ou no supermercado ...
  • O meu Benfica não passou às meias finais da Taça UEFA, dando razão aos que perfilham o ditado que "de Espanha, nem bom vento nem bom casamento". Cerca de 50.000 pessoas, no estádio, alguns milhões, em casa, a olhar a TV, mais umas centenas de jornalistas e a astróloga da SIC, fizeram a equipa ideal e delinearam tácticas e estratégias infalíveis para vencer a eliminatória ... e não cobraram nada por isso.
  • Deixando a ironia, uma chamada para a reportagem sobre a tuberculose, a Sida e o voluntariado de Jorge Sampaio, publicada na Visão, que merece ser lida atentamente, para se perceber que há coisas muito mais importantes do que um mero jogo de futebol ou um simples diploma, mesmo adulterado.
  • Apesar da situação difícil em que se encontra, António Lobo Antunes continua fantástico a escrever! A crónica corajosa, como a designa a Visão na 1ª. página ou Crónica do hospital, como lhe chama o autor, é imperdível.

domingo, 8 de abril de 2007

Ovos de Páscoa

Com a devida vénia ao Expresso e o aplauso a António, cartunista que, todas as semanas, nos delicia com desenhos absolutamente fantásticos.

Palavras bonitas



AQUIETAÇÃO

Melro arisco e feliz
Que, na brancura
Pura
Das camélias,
Chocas ovos pascais
Galados de ressurreição,
Quem te contou da triste maldição
Dos poetas,
Sombras de inquietação
E de agoiro maninho?
Sossega no teu ninho.
Aquece e amadurece
O mistério da vida.
E deixa que eu te espreite envergonhado
Do poema gorado
Que sai da minha inveja enternecida.

Diário XII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1986)

quarta-feira, 4 de abril de 2007

"Dótores e Engenêros"

Com a nossa tendência para complicar e para ver fantasmas em todo o lado, arranjamos, agora, um "par de botas" que toda a gente acha dificílimo de descalçar.
Os "malandros" dos jornais foram "à pergunta" e descobriram que as habilitações académicas do Senhor Primeiro Ministro não lhe devem permitir usar o título honorífico de Engenheiro (Eng.).
A notícia causou grande alarido e algum mal estar no Governo, havendo já articulistas a prognosticarem o fim do "estado de graça".
A opinião aqui da Casa é que a descoberta e a queda das três letrinhas só prestigiam o Primeiro Ministro e o país, colocando-nos, finalmente, em igualdade com todos os países da Europa e do Mundo.
José Sócrates poderá, assim, reunir com Angela Merkl, trabalhar com Tony Blair, dialogar com George Bush e conversar com Vladimir Putin sem necessidade de lhes explicar o que significam aquelas três letrinhas que antecedem o seu nome, preocupando-se apenas em fazê-los compreender as suas ideias, tarefa que não será, seguramente, muito fácil.
Sigamos o cherne, perdão, o Zé Manel, que chegou a Presidente da Comunidade Europeia e reciclemos os "dótores" e "engenêros" que por aí abundam, pavoneando-se com um papel (que não mostram) e ofendendo aqueles que, pelo seu mérito, merecem o nosso aplauso.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Ecos da semana

  • Embora o Ministro do Ensino Superior seja Gago, deverá falar claro na ordem de fecho da Universidade Independente;
  • Com algumas "arranhadelas" (por falta de cuidado com portas), Maria José Nogueira Pinto abandona o "gatil";
  • O "Rei" da Madeira já começou a campanha que o há-de levar à glória;
  • Portugal ganhou à Belgica e empatou com a Sérvia, no apuramento para o Europeu 2008 em futebol. Alguns "músicos" mostraram os seus dotes de assobiadores no hino belga e não conseguiram disfarçar a desafinação;
  • A minha declaração de IRS já vai a caminho do destino, cumprindo a viagem pela auto-estrada da informação. Junto-me, assim, a muitos outros e afasto-me de uns quantos (bastantes) que teimam em usufruir da minha (nossa) contribuição;
  • Durão Barroso fez anos no passado dia 23. Consta que recebeu um postal ilustrado, de parabéns, enviado por George Bush, com uma vista das Lages;
  • A estadia dos americanos no Iraque, prevista inicialmente para 90 dias, já vai em 4 anos. As condições são de tal maneira boas, que ninguém arreda pé;
  • Mário Soares não foi convidado para as comemorações dos 50 anos da Comunidade Europeia. Ter-se-ão esquecido ou a figura incomoda?
  • Salazar é o melhor português, segundo o programa da RTP1, apresentado por Maria Elisa. "Ditosa Pátria que tais filhos tens";
  • Um tal Coelho, em cartaz do PNR - Partido Nacional Renovador, define como objectivo para 2009: "Basta de imigração. Nacionalismo é solução. Portugal aos portugueses." Terá sido desta cartola que saíram os coelhos que telefonaram para o programa da Maria Elisa?

quarta-feira, 21 de março de 2007

Dia Mundial da Poesia



Miguel Torga por Mário Viegas

No Dia Mundial da Poesia,
um Grande Poeta na voz de um Grande Declamador!








terça-feira, 20 de março de 2007

Gataria

D. Afonso Henriques deu duas voltas no túmulo e reuniu de urgência o seu estado-maior!
O Beneficiado Malhão enfiou-se na biblioteca do céu, à procura de textos apaziguadores!
A pintora Josefa pediu a S. Pedro que lhe arranjasse uns plásticos para evitar arranhadelas nos seus quadros!
O Presidente da Câmara interrompeu os contactos com a comunicação social e deu dois pulos de contentamento: acabava de garantir figurantes para as lutas da próxima edição do Mercado Medieval!
Foi em Óbidos, neste fim de semana!
Um saco de gatos abriu-se e aconteceu espectáculo ... com algumas vozes a chamarem nomes aos bichanos mais importantes, num vernáculo que se julgava inacessível a mentes tão brilhantes.
Aguardam-se novos desenvolvimentos e novas investidas da gataria.
Mentes perversas e sempre ávidas da desgraça alheia dizem que a praga se propagará, com facilidade, do Largo do Caldas para a Rua de S. Caetano, e acrescentam que a este aumento de gatos assanhados não é alheio o trabalho de formação realizado na Universidade Moderna e, mais recentemente, na Independente.

sexta-feira, 16 de março de 2007

16 de Março de 1974 - A Censura

Na 2ª. feira, 18.03.1974, o jornal República aproveitava a derrota do F.C. do Porto na deslocação ao Estádio de Alvalade para, de uma forma brilhante, iludir a censura prévia e comentar a revolta das Caldas:
Sporting, 2 - Porto, 0
QUEM TRAVARÁ OS "LEÕES"
" Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da sua estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, «perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra» ..."
Que beleza de prosa e que imaginação na forma de dar a notícia.