Porque hoje foi um dia cansativo, apeteceu-me colocar nove minutos de boa música, por três grandes intérpretes portugueses, junto e ao vivo no CCB.
Apesar de tudo, ainda se fazem coisas muito bonitas em Portugal ...
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Porque hoje foi um dia cansativo, apeteceu-me colocar nove minutos de boa música, por três grandes intérpretes portugueses, junto e ao vivo no CCB.
Apesar de tudo, ainda se fazem coisas muito bonitas em Portugal ...
SONETO
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Na noite passada estive a converter alguns CD's para MP3 para, com uma simples "pen", fazer chegar algumas dezenas de canções a quem, sobre elas, manifestou interesse.
De entre os CD's convertidos contavam-se alguns de Gal Costa que, lembrei-me hoje, não coincidiam com alguns discos de vinil que fazem parte do "antiquário". A memória, por vezes, já vai traindo, mas a lembrança de um velho LP (era assim que se designavam os albuns de vinil) com uma capa muito sugestiva, estava bem fresca.
Fui à procura do "India" (gravado em 1973) e não o consegui encontrar nas "catacumbas".
Andará por aí ...
APOCALIPSE
É o cavalo do tempo a galopar ...
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
é ver, a sonhar,
um relâmpago a rasgar
o céu dum pesadelo.
Deixa a desolação por onde passa.
Torna os sonhos maninhos.
Desmente os adivinhos
que, na divina graça
de feiticeiras alucinações,
prometem duração às ilusões.
Besta infernal,
com asas de morcego
e raiva desbocada,
largou do prado onde pastava ausente,
e corre, corre, em direcção ao nada,
única direcção que a fúria lhe consente.
Numa visita relâmpago, em final de tarde, à minha amiga Isabel Castanheira (as tuas melhoras), da Loja 107, comprei e comecei a ler, enquanto esperava ser atendido para uma consulta médica de rotina.
Vou no quinto dia - 25 de Março de 2007 - com uma vontade enorme de continuar, sem paragens, para desvendar o muito que lá está. Não é possível. O tempo é pouco e a leitura exigente, num vai e vem constante para entender e digerir, sem pressas que o caminho certo é de difícil descoberta, mas entusiasmante quando se descobre a linha.
"(...) a hera a crescer na varanda não pareceu entusiasmar-se quando o tio o ensinou a andar de bicicleta entre o castanheiro e o portão trotando-lhe ao lado a equilibrar o selim
- Pedala
o tio exausto lá para trás e ele sozinho direito à garagem sem conseguir travar, a garagem subitamente enorme e o tio distintíssimo
- Pára
ultrapassou um canteiro, um segundo canteiro, o médico
- Vamos explorar as hipóteses
e ele contente embora a incisão principiasse a maçá-lo, isto é não dor ainda, a vizinhança da dor, o que em algumas horas se tornaria dor, impossível de travar como a bicicleta apesar dos gritos do tio, uma raiz desviou o pneu da frente e não o portão agora, um pilar de granito com um vaso em cima, o avô distraído com o rato de chocolate não o via da sala, chinelos cuja existência desconhecia, o avô sempre calçado até então, (...)"
E chega, para aguçar o apetite.
Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.
Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital ...
E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!