sábado, 8 de janeiro de 2011

Palavras bonitas

LETREIRO
Porque não sei mentir,
não vos engano;
Nasci subversivo.
A começar em mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
de cada paraíso.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Palavras bonitas

OLHOS DE SERPENTE

Os teus olhos de serpente
são os únicos representantes
da tua formosura oh linda
o teu cabelo serve de cortina
para te cobrires para que
não te descubra, amor
mas eu vou abrir a tal cortina;
És muito bonita que até
as borboletas te conhecem
e dizem que roubaste a beleza
da rainha borboleta, amor
e então que encantas tanto, amor.
Esses olhos são para mim
luzes para zigue-zagues caminhos
dás-me a mão para que eu não caia
tragas a tua beleza toda para
os passos da minha vida, amor.

Malangatana
24 poemas  e outros inéditos
ISPA (2004)

A "doença prolongada" levou mais um grande nome da cultura, ontem, no Porto.
Malangana foi um grande pintor moçambicano, com ligações profundas a Portugal e também às Caldas da Rainha, onde realizou, que me recorde, duas exposições na Casa da Cultura. Nessa altura, ofereceu algumas obras que farão parte do espólio da Casa da Cultura (onde quer que ele esteja), com excepção de um pequeno quadro a tinta da china, que pode ser visto na sede dos Pimpões.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rotinas

Chegou o Ano Novo, que trouxe consigo as rotineiras formulações de votos para que haja muita saúde, paz, harmonia; que as guerras acabem, que a fome desapareça, que aconteça mais solidariedade, que as pessoas se entendam. As mensagens chegam pelas mais diversas vias: SMS, correio electrónico, de viva voz, nos discursos do poder e no poder das entrevistas, etc, etc..

Apesar da sinceridade destes votos não dever, na sua grande maioria, ser posta em dúvida, daqui a doze meses estaremos a fazer o balanço e, infelizmente, iremos encontrar um aumento do desemprego, do número de pessoas para quem a fome é visita de casa, dos que não têm casa nem sequer para essa visita, das convulsões sociais e, inevitavelmente, da criminalidade.

Cá estaremos para constatar a evolução e o comportamento de 2011 para, quando ele partir, lhe cobrarmos o que não nos deu e perspectivarmos, de novo, um 2012 cheio de paz, harmonia, solidariedade e progresso.

Valha-nos a rotina da Foz, que continua e continuará bonita e a convidar para um mergulho, que a falta de coragem não deixou, hoje, concretizar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Presidenciais

Porque tenho esperança e confiança, acredito, ainda, na política e na capacidade de mobilização dos portugueses para o bem comum, prezo a tolerância e as oportunidades iguais para todos, acho essencial que todos tenhamos acesso à educação, à cultura e à saúde, gosto de poesia e considero que há mais vida para além dos números que, todos os dias, os interesses instalados nos facultam, vou escolher Manuel Alegre para Presidente da República. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ironia do destino

De acordo com as notícias de hoje, o Governo vai:

  • capitalizar o BPN, injectando-lhe mais 500 milhões de euros do erário público;

  • adiar a venda, por não haver interessados;

  • substituir a actual administração, oriunda da CGD, por outra que, nos próximos anos, crie condições para o Banco ser, de novo, posto à venda.

Os problemas que afectam, nesta altura e por todo o mundo, a actividade bancária, não são de molde a encontrar muita gente disponível para um fardo destes, ainda por cima com a missão de "engordar o porco", para que possa ser vendido quando o negócio se tornar interessante e o mercado apresentar interessados.

Por isso, talvez fosse melhor o Governo não se cansar a procurar muito e voltar a chamar Oliveira e Costa e Dias Loureiro para retomarem as rédeas do Banco. 

As vantagens desta solução seriam inúmeras, mas merecem destaque as seguintes:

  • Os aqui propostos conhecem o Banco e os seus problemas melhor do que ninguém;

  • Têm uma excelente carteira de contactos, em Portugal e no estrangeiro, que lhes permitiriam recuperar rapidamente os clientes interessantes, que abandonaram o Banco aquando da intervenção do Estado;

  • Estão de licença sabática há muito e, por isso, terão tido tempo bastante para estudar as regras prudenciais de gestão que a actividade envolve e necessita.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Crise e inteligência

Confesso que, no início, fui dos que concordaram com a grande maioria dos articulistas, comentadores e quejandos, e achei que a decisão do Governo Regional dos Açores - compensar uma parte dos funcionários públicos daquela Região Autónoma com um subsídio igual ao corte decretado pelo Governo da República para 2011 - revelava uma quebra na solidariedade nacional e uma arrogância não admissível na hora em que a crise impõe sacrifícios a todos.
Curvo-me, agora, perante a inteligência, sagacidade e conhecimentos matemáticos revelados por Carlos César que, qual Sherlock Holmes para o seu Dr. Watson, justificou ao Primeiro Ministro da República as razões que motivaram a decisão.
- Também tu, César! Por que me fizeste uma coisa destas?
- Elementar, meu caro Sócrates.
- Como? Zombas de mim?
- De modo nenhum. Fiz contas (sei fazê-las) e concluí que o corte dos funcionários públicos reduziria a despesa da Região em 3,5 milhões de Euros; peguei no Orçamento, procurei, procurei, e encontrei uma despesa de valor idêntico, orçamentada para cobrir o campo de futebol do Santa Clara.
- E depois?
- Elementar, de novo, meu caro: anulei a obra do campo de futebol e vou utilizar esse dinheiro para subsidiar os funcionários públicos.
- Reconheço que foste muito esperto! Quando chegar a minha hora de partir (parece estar próxima), proponho-te para o meu lugar.
Consta que Sócrates já adquiriu a lupa e procura afincadamente um Dr. Watson, a contratar a prazo ou em outsourcing. Vão percorrer o Orçamento do Estado, linha a linha, para tentar encontrar coberturas que não sejam imprescindíveis ...
Espera-se que nem a lupa nem a sagacidade sejam de potência muito elevada, sob pena de se concluir que o supérfluo orçamentado talvez chegasse para evitar os cortes.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de ler ... e confirmou as expectativas.

Termina assim:

(...) O amanhecer apenas se distingue do anoitecer por aquilo que o antecedeu e pela sucessão que lhe imaginamos, o antes e o depois. Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.

Livro
José Luís Peixoto
Quetzal (2010)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

Chama-se Livro o último romance de José Luís Peixoto e vou mais ou menos a metade da sua leitura. Apesar disso, arrisco-me a dizer que o título deveria ser Vida, num Portugal que começa (no livro) em 1948 e se prolonga até não sei quando, porque não quero ir ver (ler) o fim da história. Prefiro digeri-la, a pouco e pouco, saboreá-la: está lá muito do que eu conheci: as castas sociais e os seus desequilíbrios, a amante do padre e o filho de pai incógnito, a matança do porco e os seus rituais, o Portugal salazarento e a ida, a salto, para França, o alcoolismo, a miséria, a ignorância ...

"(...) O que seria a França? A Adelaide sabia três coisas acerca do país para onde se dirigia: na França, as pessoas tinham máquinas que faziam a lida da casa, que varriam o chão, que lavavam a loiça e a roupa, braços de ferro; na França, as pessoas só andavam de automóvel, mesmo para ir à padaria; na França, as pessoas comiam carne de cavalo cozida. Esta última informação era a que mais espécie lhe fazia, tinha pena dos bichos. Também já tinha ouvido falar da cidade de Paris, conhecia o nome, e também já sabia que os franceses falavam estrangeiro. Como iria entender-se num lugar em que toda a gente falava estrangeiro e comia cavalo? Durante as horas de viagem, coberta por lona, a fugir com o rosto aos olhares embaciados dos homens, a Adelaide apoquentava-se com estas perguntas, mas havia um pensamento que lhe fazia mais mazela.(...)

Livro
José Luís Peixoto
Quetzal (2010)