quarta-feira, 20 de julho de 2011

Neto II

Qual navegador ousado, consequente e destemido, o meu neto Vasco terminou a "travessia" pelos interstícios da mamã e "atracou" nas Descobertas, onde lhe franquearam as portas de uma vida que se deseja longa, bela e cheia de felicidade.
Chegou bem! Era o mais importante. É (ainda) pequenino, mas vai crescer e fazer as delícias dos pais, dos avós, dos tios, de toda a família e ... do mano Gil, que está tão deslumbrado e com tanta ânsia de brincar com ele, que já queria que o mano pegasse no peluche que escolheu para lhe oferecer.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Palavras bonitas

DIÁLOGO
 
Pergunto ...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar ...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar ...
Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também ...
Perguntam, mas a quem?

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

Netos

O meu neto fez 5 anos no passado dia 5. Nunca mais conseguirá repetir esta proeza e o avô não foi capaz de assinalar a data na altura própria, como se impunha.
A vida, às vezes, prega-nos partidas e a "martelada" na cabeça não sai só aos outros. Também nos calha, por muito que pensemos que não.
O mar já está mais calmo, a tempestade tende a amainar, a minha qualidade de teimoso já está à tona, o humor já apanhou o comboio, ronceiro, do regresso.
Apareceram inquilinos a ocupar espaço sem a devida autorização. Foram despejados e remetidos a quem os possa identificar, nem que seja para lhes determinar um "termo de identidade e residência".
Cá por mim, que com eles não assinei contrato, só espero que não voltem nem tenham deixado rasto ...
O que importa, agora, é que o meu neto Gil já é um homem de 5 anos e que o meu neto Vasco está quase, quase a sair do conforto da barriguinha da mãe!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crise

No muro, algum contestatário meio "anarca" ou a recordar os idos tempos do PREC (para quem é mais novo, iniciais do Processo Revolucionário Em Curso, em 1975), escreveu:

- NÃO À CRISE!

A cor diferente, um esperto zelador da língua, talvez conservador ou diligente "educador", colocou um H antes do "à", não tocando, todavia, no acento.
Deixando de lado a acentuação, com a qual já pouca gente se preocupa, resultou que a primeira mensagem, que pretendia ser de alerta, chamamento, voz de revolta, foi, com um simples H, transformada radicalmente numa afirmação peremptória:

- NÃO HÁ CRISE!

E ambas cumpriram a sua função, com a subtileza, bela, que tem a língua portuguesa.

sábado, 2 de julho de 2011

Palavras bonitas

PÓRTICO


Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
do dia ganho.
Não por haver chegado,
mas ter acrescentado
um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Diário XVI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quotidiano

Mudará?
Parece haver uma nova linguagem, mais clara, mais determinada, sem rodeios.
Outro ar, menos viciado, que elevou uma mulher  - Assunção Esteves - para o segundo lugar da hierarquia do Estado. 
Há uns anos não conseguimos eleger uma outra - Maria de Lourdes Pintassilgo - para o primeiro e foi uma oportunidade perdida.
Não são águas em que navegue mas o vento parece soprar do lado certo e à velocidade correcta. Espero não ter de "engolir" a opinião de hoje.
Sou um crédulo que (ainda) acredita no País.

domingo, 19 de junho de 2011

Quotidiano

Algumas frases soltas para despertar a curiosidade para uma excelente entrevista de Carlos Tê, publicada na revista Visão da passada 5ª. feira, que só hoje consegui ler.

"... A minha avó paterna, analfabeta, veio, aos quarenta e tal anos, de Resende para o Porto. Criou-me, teve um impacto muito forte em mim ..."

"... Depois, foi a literatura à porta. Sentia-me intimidado por entrar em livrarias. Era um mundo reservado a outras pessoas, achava que se entrasse me punham fora ..."

" ... Mas havia um lado B, mais ou menos obscuro. «O gajo é dos que lê livros», estás a ver? Dava-me um ar suspeito."

"Começamos a ficar cheios de pessoas que só sabem muito de uma coisa e são incapazes de relacionar assuntos".

A não perder!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Homem prevenido

Prevenindo situações de angústia resultantes da inactividade, nada melhor do que ir preparando a reforma estabelecendo um horário que garanta uma passagem gradual, calma e tranquila à inércia completa.


Angra do Heroísmo - Terceira - Açores

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quotidiano

Um "jovem trintão", meu amigo e colega de profissão, enviou-me hoje um mail com uma canção residente neste endereço Youtube, a sua letra completa e uma epígrafe que dizia
"... ainda acho que nem tudo o que é antigo é para deitar fora ...".
Obrigado, GP.
O espectáculo do vídeo, denominado "Três Cantos" aconteceu em Outubro de 2009 e juntou, pela primeira vez, três "dinossauros" da música portuguesa: Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias.
Fazem parte da minha colecção os dois CD's e os dois DVD's que o registaram para a posteridade. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Palavras bonitas

NOITE PERDIDA
Coitado do rouxinol!
Passou a noite ao relento,
Do pôr ao nascer do sol,
Sem descansar um momento,
Sempre a cantar, sem dormir,
Absorto no pensamento
De ver uma rosa abrir ...
Coitado do rouxinol!
Passou a noite ao relento,
Do pôr ao nascer do sol,
Sempre a cantar, sem dormir.
Mas o mísero - coitado!
Cantando tão requebrado,
Com tal cuidado velou,
Que adormeceu de cansado,
E os olhos tristes cerrou
No minuto, no momento
Em que ao luar e ao relento
A rosa desabrochou ...
Coitado do rouxinol!
Com tal cuidado velou
Do pôr ao nascer do sol
E tanto, tanto cantou,
A noite inteira ao relento,
Que de fadiga e tormento,
Sem descansar, sem dormir,
Fecha os olhos, perde o alento,
No minuto, no momento
Em que a rosa vai abrir ...
Coitado do rouxinol!

Antologia de poemas portugueses modernos
António Feijó
Ática Poesia (2010)