quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Orçamento

Finalmente há Orçamento para 2012!
Aprovado por uns, abstido por outros, contrariado pelos restantes.
Orçamentada que está a crise, podemos dormir tranquilos, sem pesadelos, sem pessimismos, sem rancores, sem ódios, sem receios, sem palavras e ... com menos dinheiro.
A capacidade dos nossos governantes está orçamentada e determina 5,9% do PIB para o défice de 2012, o que nos transmite uma enorme tranquilidade e uma grande confiança, demonstrando à saciedade e à sociedade quão bons eles são em matemática e na arte de adivinhar: é que o défice não é de cerca de 6% nem de 5,85%, mas exactamente de 5,9%, número mágico obtido após uma árdua tarefa de projectar (não riam que não tem nada a ver com cinema e muito menos cómico) a produção global do país em 2012, desde as abóboras da horta do meu vizinho passando pelos carros da Auto Europa e pelas couves, os tomates, os morangos, as alfaces e os pêssegos que a Casa da Ginja irá produzir.
Só génios conseguem determinar com tanto rigor e precisão este PIB que, multiplicado por 5,9%, há-de ter como resultado o valor da diferença entre as despesas e as receitas do Estado.
Simples e elementar !!!

domingo, 27 de novembro de 2011

Fado - Património Imaterial da Humanidade

No dia em que a Unesco reconheceu o FADO como Património Imaterial da Humanidade, Camões, Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neil, Alain Oulman e tantos outros estarão junto a Amália, festejando o prémio, a simbologia que o mesmo contém e o reconhecimento implícito da qualidade que a atribuição encerra. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vinho azedo

O rancho estava a acabar o arranque dos bacelos.
Na época, o plantio da vinha era feito com bacelos que tinham sido enraizados no ano anterior, numa seara que exigia boa terra, bons conhecimentos e muita dedicação. As varas que iriam ganhar raízes na terra eram colocadas manualmente, em leiras inclinadas, com o espaçamento suficiente entre si para se manusearem bem no arranque, mas não demasiado que se desaproveitasse o solo disponível.
Poucos agricultores se dedicavam a esta actividade que, para além das exigências da qualidade da terra e da muita e boa mão-de-obra, obrigava à manutenção da humidade certa, com a rega na hora e na dosagem correcta e, no final, de novo a mão-de-obra intensa para o arranque, a separação por variedade, a contagem, o atar dos molhos e, finalmente, a entrega aos clientes, que os haviam encomendado alguns meses antes.
O frenesi do arranque era o culminar de muitos meses em que se imaginava o desenvolvimento da raiz pelas folhas que iam despontando na pontinha da vara, deixada de fora da terra.
- Este ano o Richter 99 vai ter boa raiz, mas o SO4 não parece grande coisa …
- Dizes sempre o mesmo … no fim vê-se.
E via-se, à custa dos golpes da enxada larga, desferidos com o cuidado de “quem sabia da poda”. As primeiras cavadelas davam logo um sinal da qualidade ou da falta dela, e toda a gente exibia um sorriso largo ou um sobrolho franzido, consoante aquela cabeleira de raízes era farta e bem composta ou, pelo contrário, as varas se apresentavam quase carecas, com uns fiapos esparsos e fugidios.
O patrão assistia ao início e não passava dia nenhum sem fazer, pelo menos, uma visita ao rancho, incentivando os jornaleiros e prometendo a adiafa para o final.
Habitualmente os homens bebiam uma água-pé produzida na quinta, com baixo teor alcoólico e um sabor “choco”, que arrepiava só de molhar os lábios. Uma vasilha de madeira, uma cana a servir de torneira no topo, um púcaro de alumínio e uma rodada por todos, quando o caseiro determinava.
Na adiafa, a água-pé era substituída por vinho tinto e as rodadas eram mais frequentes. A alegria fornecida pelo vinho e a esperança de acabar antes do sol se pôr faziam com que as enxadas abrissem a terra ainda com mais força e que as futuras cepas saltassem com mais rapidez do seu leito de meses.
Naquele ano faltou o vinho para a adiafa!
A quinta tinha produzido pouco tinto e havia necessidade de o ir comprar. Ninguém se lembrou disso e …
- Leva três garrafões e vai à taberna de F… comprar. Não te esqueças de lhe dizer que é para nós e de perguntares, antes, se o vinho é bom.
A carrinha Citroen 2 CV conhecia bem o condutor e não se fez rogada, circulando à estonteante velocidade de 50/60 quilómetros, demorou pouco mais de um momento a chegar à porta da tasca.
- O vinho tinto é bom?
- ‘Tá um bocadinho azedo, mas bebe-se bem. Queres provar?
- Já agora …
Os lábios saborearam, a experiência era pouca, o hábito ainda menos, o sabor parecia normal, o azedo não se notava …
- Quero 15 litros, nestes três garrafões. É para a quinta.
No regresso, a Citroen voou. A pressa de chegar aliada à ansiedade de saber se o vinho estava ou não azedo, faziam o pé levar o pedal até ao fundo.
- Não dê o vinho aos homens sem o provar!
- Porquê? Não disseste ao homem que era para nós?
- Claro que sim, mas ele disse-me que o vinho estava um bocadinho azedo mas que se bebia bem. Provei, não me pareceu azedo, mas é melhor provar primeiro.
- O malandro quis brincar contigo … de certeza que o vinho é bom!
E era!
No final do dia, os homens do rancho estavam bem alegres e não descansaram enquanto não viram o “fundo aos garrafões”.
E de azedo só a azia que o taberneiro ainda hoje me causa …

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A mais bela Lagoa da Europa

Os créditos da bela realização vão para Mário Santos, que carregou esta beleza em 18/10/2011.
Os agradecimentos devidos ao meu amigo VB, que me deu o privilégio de a admirar.



E como não há bela sem senão, como é possível sermos tão porquinhos e despejarmos tanta porcaria num sítio tão bonito ...

domingo, 30 de outubro de 2011

Palavras bonitas

RIO

Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
 
Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

sábado, 22 de outubro de 2011

Crise

Vivemos um momento único, para o qual se necessita de ponderação, capacidade de análise, inteligência, solidariedade, motivação, verdade, discussão mais um sem número de adjectivos que saem da capacidade de um mortal tão comum quanto eu.
Nos (muitos) anos que já levo, habituei-me a ler, ouvir, concordar, discordar, render-me à evidência do maior saber, desligar quando a estupidez dos argumentos me causa comichão, tudo isto aliado à capacidade de reconhecer quão difícil é o saber e o constrangimento que causa o desconhecimento e a incapacidade com que, muitas vezes, sou confrontado.
Miguel Sousa Tavares, uma vez mais, escreve no Expresso desta semana uma brilhante e lúcida crónica, da qual eu gostava muito de ter sido autor. Respigo uma pequena parcela:
"... A ingenuidade de Passos Coelho foi imaginar que tinha a solução no bolso e que para tal lhe bastava fazer o que os socialistas se recusavam a fazer. Afinal, como reconheceu Vítor Gaspar, numa entrevista há uns dois meses, gerar poupanças no Estado é bem mais difícil e demora bem mais tempo do que subir impostos e cortar salários, pensões e prestações sociais. O exemplo extremo desta ligeireza ideológica é a história da descida da TSU para as empresas, para estimular a sua competitividade. Se bem se lembram, foi a medida emblemática do programa eleitoral do PSD e o tema principal do decisivo debate televisivo entre Sócrates e Passos Coelho. Passos garantia que descia a TSU em 7 ou 8 pontos e financiava a descida através da subida de escalão de algumas taxas intermédias do IVA. Afinal, o que aconteceu é que a TSU desceu zero, mas, em contrapartida, subiu o IRC para as empresas, os trabalhadores vão ser forçados a trabalhar mais meia hora diária grátis e quase todas as taxas intermédias do IVA subiram para o máximo! Digam-me lá quantos votos teria tido o PSD se tem anunciado isto em campanha? E sabem porque tudo mudou, afinal? Porque, como confessou Vítor Gaspar esta semana, a descida da TSU era um modelo de trabalho académico, estudado em algumas Universidades, mas jamais testado na realidade, tamanhos são os riscos que acarreta ...
O meu medo é que esta história seja emblemática: que estejamos a ser governados em obediência a um modelo teórico dos académicos liberais, cujas teses de "governo mínimo" estoiraram com a economia mundial. Que sejamos uma espécie de cobaia para os seus ensaios ideológicos, que, de lógicos, nada têm.(...)"
E acrescento eu, parafraseando: É o mercado, estúpido!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando entrei no mercado de trabalho - há quantos anos, já lhe perdi a conta! - não havia subsídio de férias (nem férias), não existia subsídio de Natal (o Natal existia mas era bem mais curtinho) e o horário era uma coisa que constava de um papel afixado no escritório (havia um senhor que era o fiscal do dito) que, na prática se resumia a ter a hora de entrada e a hora de saída, com intervalo para almoço, para que o tal referido senhor consultasse quando visitava a empresa, na sua missão soberana de zelar pelo cumprimento da lei e, já agora, da ordem.

Passadas estas dezenas de anos, o horário já desapareceu há muito mas ainda consta do papel e os subsídios de férias e de Natal vão seguir-lhe o caminho.

Regredir é a palavra de ordem, ninguém sabendo onde se situará o fim desta "descida aos infernos".

Espera-se que a meta não seja o regresso a uma sociedade arcaica, castradora, insensível, desigual, propiciadora de situações como a que António Lobo Antunes ficciona no seu último romance, Comissão das Lágrimas:

"(...) um animal vindo por momentos à superfície de um sonho e mergulhando logo numa inércia de afogado, a lareira que não aquecia, fritava e o tio a cabecear no banquito que era o único baloiço que tivera na vida, a tia que o marido entrega ao avô, no dia seguinte ao casamento, por não estar completa
      - A sua fruta tem bicho
e não comia com eles, estendiam-lhe o prato e acocorava-se no arco do forno, de chapéu na cabeça a tapar-lhe a cara (...)"

Comissão das lágrimas
António Lobo Antunes
D. Quixote (2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Euro 2012

O trabalho deu frutos...
Após 16 jogos sem conhecer a derrota, a Grécia está apurada para o Euro 2012 e o "meu menino" também tem uma quota parte de responsabilidade nesse sucesso.
Parabéns para todos, num dia de nervos e de alegria, apenas ensombrada pelo não apuramento directo da selecção de Portugal.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fim de semana

O Expresso faz-me companhia desde o primeiro número publicado, ainda naquele papel e tinta que deixavam as mãos num estado impróprio para mostrar a quem quer que fosse, no já longínquo ano de 1973. 
Com altos e baixos, o seu caminho é, lugar comum, uma demonstração cabal de que a qualidade, a diversidade e o debate das ideias são condição para se ser cada vez melhor.
Os colunistas são, para mim, pessoas do "tu cá, tu lá", sem que, na grande maioria, alguma vez me tivesse com eles cruzado nem sequer no passeio do outro lado da rua. Mas, o Henrique Monteiro, o Miguel Sousa Tavares (mais uma extraordinária crónica esta semana), o Nicolau Santos, o Fernando Madrinha, o Ricardo Costa, a Clara Ferreira Alves, etc. etc., são convidados de casa e passam comigo todos os fins de semana.
No número de hoje, uma chamada de atenção na crónica do Nicolau Santos levou-me a esta "pérola" de Pedro Osório, que aqui fica. Obrigado, Nicolau, e, já agora, os agradecimentos também pelas incursões da poesia nos interstícios da economia.