quarta-feira, 25 de abril de 2012

Percurso


No exercício de hoje
Pra relembrar tempos idos
Tento colocar os sentidos
Alerta,
Na matemática.

Contei seguido e aos pares
Saltei como o caranguejo
E que vejo:
No dia da liberdade fiz
A capicua de dois,
Algarismo que serviu,
Depois,
Para completar duas dúzias.
Vejam só a ambição
De ver o tempo correr
Que doze meses passados
Já cá tinha um quarteirão.

Na época da ilusão
Tudo parecia real
O mundo estava a mudar,
(os filhos já a chegar)
Não havia volta a dar!
Acabara a escuridão,
O horizonte era vasto.
(como o pensar era casto)
O futuro já nos sorria
Na janela bem aberta,
De um país que pulsava,
Sentia, vivia, sonhava,
E, sobretudo,
Acreditava!

Os anos foram passando …
Os alcatruzes da nora
Já não trazem água fresca.
Está turva, que bem se nota.
A janela está fechada
Por culpa de quem a fez
(não cuidou bem da madeira)
E deixou que o caruncho
Sulcasse, de novo, a cama
E lhe apagasse a chama!

E eu, que só queria provar
Ser capaz de me contar
Por formas mui variadas:
Doze lustres, cinco dúzias,
Seis dezenas, quatro arrobas,
Dei uma volta na vida
E encontrei um cenário
Triste e tão pesaroso.
Hoje, já sou idoso,
Cordato, sexagenário!

domingo, 15 de abril de 2012

Madredeus

Ontem foi noite de concerto no CCC, que ainda permanece frio, à espera que a austeridade desapareça ou que o verão surja, quentinho.
Os Madredeus escolheram as Caldas para apresentarem ao vivo o novo disco - Essência - recentemente editado e que assinala os 25 anos do grupo. O trabalho é uma visita a alguns dos muitos êxitos que, ao longo deste quarto de século, nos habituamos a ouvir, a ver e a apreciar, e que surgem como uma roupagem nova, mais cheia e mais lenta.
Do anterior agrupamento restam Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres de Magalhães, surgindo um violoncelo a brilhar nas mãos de Luís Clode (foi professor no Conservatório de Caldas), dois violinos, Jorge Varrecoso e António Figueiredo, e a voz de Beatriz Nunes, a procurar fazer esquecer Teresa Salgueiro.
A primeira parte não foi brilhante, com a música a sobrepor-se demasiado à voz, algo tensa, de Beatriz Nunes, que parecia adivinhar as comparações que se faziam na plateia.
Na segunda parte, Beatriz Nunes surgiu mais tranquila e mais segura, resultando um excelente concerto, onde ressaltou a qualidade dos novos arranjos e o virtuosismo dos músicos.
Já passava da meia-noite quando se ouviu a última música dos "encores", com uma interpretação excelente, que nada ficou a dever à que abaixo se reproduz.
Uma pequena nota final: ao consultar a página dos Madredeus verifiquei que o primeiro concerto do grupo a que assisti aconteceu em 20 de Maio de 1994, no Mosteiro da Batalha. Já lá vão quase 20 anos!

domingo, 8 de abril de 2012

Cão de ... rocha

Foz do Arelho, manhã de hoje.
O cão, que o tempo esculpiu na rocha, medita no modo como o mar tirou a areia que cobria as rochas e a transportou para a aberta, sem uma única máquina, camião ou draga.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quotidiano

Lapso (Adjectivo) - Erro, falta que se comete, falando ou escrevendo, por inadvertência, descuido ou falha de memória (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).
Na semana da Páscoa, o Ministro Gaspar explicou, pausadamente como é seu timbre, que o ano de 2015 será o consecutivo do ano 2014 e que os subsídios de Natal e de férias voltarão aos bolsos dos funcionários públicos, de forma gradual, nesse ano e não em 2014, como, por mero lapso, havia referido anteriormente. 
Ainda bem que o Ministro Gaspar explicou tão direitinho aquilo do ano consecutivo. Esta angustiante ignorância de não saber que o ano de 2015 era o consecutivo de 2014 estava a aumentar-me perigosamente os níveis de ansiedade. Ficou tudo claro e vou passar a dormir mais tranquilo, à espera que 2016 seja o consecutivo de 2015 e que um senhor Fulano de Tal qualquer surja como consecutivo do Ministro Gaspar, muito antes disso.
Já não há pachorra para aturar aquele ar de sapiência infinita e aquela voz monocórdica de suprema clareza.
Tranquilo com a sequência dos anos, estou agora ansioso para não perder o momento em que o porta-voz do Conselho de Ministros virá explicar o lapso de se ter esquecido de nos informar que tinham aprovado a suspensão das reformas antecipadas, coisita de somenos, uma vez que se trata da gestão do dinheiro dos nossos descontos.
Entretanto também estou a aguardar que Cavaco Silva explique na sua página do Facebook como conseguiu promulgar o diploma tão rapidamente. Não o terá lido? Terá sido lapso?
Durmamos descansados, que há sempre alguém inteligente que vela por nós e pelo nosso bem-estar.
Devemos, por isso, voltar a ser "cidadãos atentos, veneradores e obrigados, a bem da nação", como antigamente, lembram-se?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Portugal ... pequenino

António Lobo Antunes é um dos escritores preferidos cá de casa e a sua obra literária (completa) tem lugar de destaque na memória e na estante.
Para além dos livros que o mantêm sempre por aqui, quinzenalmente faz-nos a visita nas crónicas da Visão, já por várias vezes aqui destacadas.
Esta semana, com um humor irónico de alto nível e a qualidade habitual da escrita, Lobo Antunes espraia-se pelas figurinhas e pelos figurões desta "nação valente e imortal" e termina assim: 
"... Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes."

domingo, 1 de abril de 2012

A cabana do pescador



Numa manhã cinzenta, com alguns pingos a convidarem a ficar em casa, cumpriu-se o ritual do Domingo, com uma ida à Foz para mirar as obras intermináveis da dragagem e procurar que o ar do mar limpe o nariz que os pólens teimam em manter congestionado.
O pisar difícil da areia e o mar a provocar lembranças dos mergulhos que irão chegar dentro em pouco, despertam, lembram, fazem reflectir naquilo que somos, no que queremos ser, no que não somos, naquilo a que damos importância.
Há cerca de uma semana, num movimento voluntário a nível nacional e com a devida divulgação, houve uma acção de limpeza por variadíssimos locais públicos, que recolheu muitas toneladas de lixo.
Ontem, de acordo com as notícias, cerca de 50.000 portugueses manifestaram-se em Lisboa contra a diminuição do número de freguesias e ouviram discursos inflamados de autarcas preocupados com o bem estar das "suas" populações e com a eventual extinção dos serviços que as "suas" autarquias a elas prestam, tais como, cito, "abrir conta no Banco".
A cabana do pescador ilustra, com eloquência, a falta de civismo, de educação e de respeito pelo que é público e de todos. O pescador que, se lhe for perguntado, dirá que ama a natureza e principalmente o mar, deu-se ao luxo de construir uma barraca para se proteger e ainda deixou um montão de lixo que levou e que alguém há-de limpar.
A autarquia, lá para os finais de Junho, acudirá, pressurosa, a limpar a praia, com grande sacrifício financeiro, só justificado pela preocupação, conhecida, com o bem estar dos veraneantes.
As fotos são apenas uma pequena ilustração do muito lixo que a Foz contém.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia Mundial do Teatro

Apesar de o teatro da vida nos reservar surpresas onde menos se esperam, regista-se a comemoração do dia salientando o excelente trabalho que o Teatro da Rainha, remando muito, vai realizando nesta terra.

Na sua página pode-se espreitar o que vai acontecer ... com a possibilidade de, um dia, poder ver teatro na sala que (ainda) é projecto.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1922)

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

O Sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

O sal da língua
Eugénio de Andrade
APEL (2001)

sábado, 10 de março de 2012

Estórias

MOTE, EM NOTÍCIA

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, acusa José Sócrates de deslealdade política, no prefácio de mais um livro dos seus discursos. A acusação, feita em termos bastante violentos, é justificada por o antigo Primeiro-Ministro não ter dado conhecimento antecipado ao PR do conteúdo do PEC IV. Os factos passaram-se há mais de um ano, o PR não fez qualquer comentário público a tão grave desconsideração e não demitiu o então chefe do Governo.

GLOSA, EM FICÇÃO

No silêncio desconfortável do Palácio de Belém, na longa noite de insónia às voltas na mesma cama, Aníbal inicia um curioso diálogo com Maria:

- Há muitos anos, quando eu era chefe de turma na escola secundária de Boliqueime, um rapaz chamado José qualquer coisa - olha, não me lembro do apelido, tinha a ver com filosofia, Grécia, não, Grécia, Grécia, não, nós não somos gregos nem queremos ser como eles ...

- Deixa-te de entretantos e vai aos finalmente, para ver se me dá o sono ...

- ... Segismundo, Séneca, Scarlatti, que confusão, bem, não interessa, o rapaz, dizia eu, fez uma redacção e entregou-a ao professor sem ma mostrar, a mim, que era o chefe da turma.

- E tu, que fizeste?

- Nada. Aguardei que o tempo me fizesse justiça. E assim foi!
 
- ?!?!

- Pois! Passado muito tempo, voltei a encontrá-lo e escrevi no quadro:

- " Mamã, este menino bateu-me!"

- Ó Aníbal, que dizes tu? Dorme, que o teu mal é sono.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aniversário

A minha irmã fez hoje anos. Não digo quantos, mas asseguro que são pouco mais de 30 ..., bem conservados!
A "rede" proporciona-nos um manancial de coisas boas (e também algumas más). O som não é famoso, mas a voz e a música estão lá para serem digeridos por quem tem tempo ..., com a curiosidade de a gravação ter sido efectuada no já longínquo ano de 1949.