sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crise

Casaram-se há pouco mais de um ano, após um noivado sufragado pela maioria e com o apoio de muita gente que entendia ter o casal todas as condições para gerir a habitação.

Os noivos, por seu lado, apregoaram aos sete ventos que há muito vinham estudando as matérias da vida em comum, e que se encontravam preparadíssimos para dar os passos necessários à abertura das portas, conhecendo todos os cantos da casa e todos os segredos da boa governação da mesma.

Com portas bem abertas e passos na direcção certa, haveria coelho para todos, sem necessidade de pedir mais ingredientes aos comensais.

Com o espanto de muitos e a confirmação do pensamento de alguns, afinal o namoro não tinha proporcionado um suficiente conhecimento mútuo, a vivenda era demasiado grande e a experiência que ditava certezas não passava de balão cheio de nada, numa mão de coisa nenhuma.

O divórcio está em marcha!

Já não dormem na mesma cama, conversam apenas através dos representantes, sentam-se à mesma mesa mas cada um escolhe a sua própria ementa ...

O país já fala abertamente no caso e os amigos mais próximos já o dão como irreversível.

O juiz paira no seu gabinete, aguardando que o casal chegue a acordo e evite o litigioso, mais caro e mais trabalhoso.

P.S. 1 - A semelhança entre o relato e as relações PSD/CDS não é pura coincidência.

P.S. 2 - A bandeira nacional foi içada ao contrário nas cerimónias do 5 de Outubro e houve dois "incidentes" bem reveladores do "estado" da Nação, numa cerimónia à porta fechada, com mais polícias a guardar que entidades a participar.

domingo, 30 de setembro de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Se fosse rei por uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr matacão em cima. Uma choldra de ladrões! Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro - lembram-se? - para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato! Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomenda o sermão?!(...)

O Malhadinhas
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Dias ... de crise

A perna presa mantém-me preso ... , em casa, a procurar que o descanso diminua as dores, que o calendário se mexa e que o "dia do corte" chegue depressa.
Será a 10 de Outubro que irei aconchegar-me, não nos braços de Morfeu, mas juntinho ao Santo António que dá nome à clínica onde já tenho hospedaria reservada.
"Vai ser fácil, sexta-feira já almoça em casa". 
Razão tem o meu amigo Z.F.:"Pimenta no do parceiro é refresco!".
Valha a leitura. Já lhes perdi a conta. Tenho lido (e relido) muito ... e bom!
Novo e velho, conhecido ou virgem, nacional ou estrangeiro.
Acabei há pouco "O Rebate", de J. Rentes de Carvalho: um "fresco", extraordinariamente bem escrito, em 1971(?), e um retrato do Portugal da "outra senhora", que alguns parecem apostados em ressuscitar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crise

Recado para o país, surgido das imediações do Palácio de Belém, na noite em que o Conselho de Estado está reunido para aconselhar o Presidente da República.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Data

Um papel sem data não vale nada ...

Jovem escriturário numa grande (à época) casa agrícola da região oeste, marquei no cartório notarial a escritura de venda de uma pequena courela que, sendo da casa, se encontrava encravada entre dois talhos que lhe não pertenciam, não tendo qualquer hipótese de exploração com um mínimo de rentabilidade.

No dia aprazado para o "solene" acto e de acordo com as indicações que tinha, deixei um recado, em papel grande e com letra de imprensa, na mesa que a isso estava destinada. Dizia mais ou menos o seguinte:

"Senhor F..., agradeço que esteja no cartório notarial às 12H00, para assinar a escritura da Lameira. Obrigado. O"

Fui à minha vida, verificar se estava tudo em condições e tratar de alguma imponderável de última hora que surgisse.

A pontualidade era uma norma da casa, cumprida escrupulosamente por toda a gente, do empregado mais humilde ao patrão, que detestava atrasos e ficava de "cabelos em pé" quando alguém se atrasava, incluindo ele próprio. Estranhou-se, por isso, que às 12H00, o outorgante mais importante não estivesse ainda presente.

Cinco, dez, quinze minutos e nada! O notário já desesperava e o ajudante do dito via a sua hora de almoço comprometida.

Os telemóveis ainda nem em projecto existiam e o telefone do cartório não era para uso público.

Embaraçado e sem saber o que fazer, pedi ao notário para, violando a regra, me deixar telefonar para a quinta. 

O último dos cinco números mal tinha acabado de regressar à posição inicial do disco e a voz surgia do outro lado:

- Sim!?
- Senhor F..., estamos todos à sua espera ...
- De mim, para quê?
- Para a escritura da Lameira, respondi, percebendo que qualquer coisa não tinha corrido bem.
- Deixei um papel escrito, em cima da mesa da sala ...
- Vi e li. Não tinha data, não adivinhava que era para hoje. Vou já para aí!

Passaram mais de quarenta anos. Ainda hoje, em qualquer situação, coloco sempre, mas sempre, a data. Para não ter surpresas ...

sábado, 15 de setembro de 2012

Palavras bonitas

No dia em que milhares de pessoas manifestaram o seu repúdio pelas "folhas de excel" que nos governam, é bom recordar palavras antigas, de um tempo que se quer antigo e sem retorno.

DE PORTA EM PORTA

- Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

- Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

- Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho ...

- Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

- Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ela não tem mãe
e não é do Norte ...

- Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser infinito?
Tomai lá uma antologia
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Crise

Ao contrário do que dizem por aí as vozes desestabilizadoras da tranquilidade do País, o Presidente da República não fala por birrinha, por ter inveja da voz pausada do Ministro Gaspar e muito menos por não ter nada para dizer, mas simplesmente por estar afónico em resultado dos inúmeros banhos tomados nas águas cálidas da Praia da Coelha.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Crise

Mia Couto, em entrevista à Visão de hoje:

"Das várias vezes que tenho vindo a Portugal sempre me falam da crise. Mas agora as pessoas incorporaram esse sentimento - como se a crise fosse uma casa e já estivessem a morar nela, o que me perturbou. Há um olhar melancólico, que herdei, de quem está aqui empurrado contra o oceano e tem de fazer opções impossíveis: se é terra, se é mar ... Mas havia também um gosto de subverter essa melancolia com a pequena graça, a piada, as anedotas, o riso. Não o vejo, agora, tão presente."

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Privatizações e parcerias

De acordo com fontes geralmente bem informadas, o Governo encarregou o Ministro Miguel Relvas de, em conjunto com o consultor para as privatizações, constituir um grupo de trabalho para estudar a possibilidade de concessionar o Sol à iniciativa privada.
O concurso, cujas regras deverão ser publicadas, em inglês, no Diário da República, será aberto a investidores privados de todo o mundo, incluindo o governo chinês. 
A ideia é fruto de um estudo aprofundado de Miguel Relvas, justificando-se, desta forma, a fase de "hibernação" que o Ministro tem vivido nos últimos tempos. 
Nesse estudo, é demonstrado ser previsível que a iniciativa privada tenha capacidade para, empacotando o Sol, vendê-lo não só no mercado nacional, no inverno e nos dias em que o nevoeiro visita a Foz do Arelho, como também exportá-lo para todo o mundo, alegrando as gentes que raramente o vêem e sentem, e contribuindo para que a nossa balança de pagamentos passe a ser altamente positiva.
Espera-se que a "troika" concorde com esta medida e não impeça o desenvolvimento e o crescimento do país.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cobras

- Hoje vamos às cobras, gritou o Júlio.
A pequenada abriu os olhos de admiração e de ignorância. Que raio queria ele dizer?
O Júlio era de poucas falas; na aula, o professor estava constantemente a referir que precisava de trazer o saca-rolhas para lhe arrancar um pouco mais do que um monossílabo e, agora, de repente e em voz bem alta, desafiava, ou antes, ordenava à turba que hoje íamos às cobras.
Que coisa mais esquisita, pensavam os "capitães da areia", aborrecidos com a possibilidade de não haver a futebolada do costume mas, ao mesmo tempo, com uma vontade louca de ver esclarecida a aventura que se perspectivava.
- Não é agora, esclareceu o Júlio, percebendo o desgosto e as dúvidas de todos.
- Logo à tarde, quando acabar a escola, vamos acabar com elas!
- 'Tás maluco! Falas de quê, questionou o Eduardo, sempre tão bem comportadinho, a pensar na explicação a dar à mãe por chegar tarde a casa, em alternativa a perder a aventura.
- Ontem, quando saí da escola, fui lá e vi-as. Eram duas, passeavam no restolho, grandes, enrolando-se e esticando-se, a deslizar, em curvas seguidas, com uma pele azul ou cinzenta, não consegui ver bem. Andavam depressa, mesmo sem pernas.
- Tiveste foi medo, foi o que foi, gracejou o Tóino, para quem as aventuras no campo não tinham segredos. Era o campeão da fisga, o que mais corria e saltava, o que conhecia os pássaros estivessem eles poisados ou a voar. Sempre descalço, as plantas dos pés passavam por qualquer folha ...sem o mínimo esgar de dor.
O Júlio tinha descoberto duas cobras na encosta fronteira à escola e queria matá-las à vista de toda a malta. Para além de peçonhentas e perigosas - olhem se o Tóino as pisa - comiam os ovos das perdizes e, dizia-se, até os perdigotos.
Toda a gente concordou: as cobras, se por ali andavam, tinham que ser mortas.
- E como as matamos nós, questionou o João.
- Eu trago a pressão de ar do meu pai - ele só lhe pega ao domingo e sai cedo para o trabalho, tal como a minha mãe - voluntarizou-se o Manel -, e o Tóino dispara. Se tem boa pontaria com a fisga, também a terá com a espingarda.
- Não é preciso espingarda nenhuma! Ainda alguém ouvia os tiros e fazia queixa à professora. Vamos matá-las com uma cana verde!
O pasmo foi geral. Cana verde para matar cobras, que nos morderiam pela certa? O Eduardo tinha razão, 'tava maluco, o Júlio!
- É fácil e vocês não têm que mexer uma palha. Eu faço o trabalho sozinho, só quero a vossa companhia, para verificarem que não minto.
O Júlio passou à explicação do projecto de assassinato das cobras, maduramente pensado na noite anterior, e narrou-o com uma desenvoltura que constratava, e muito, com o habitual mutismo na sala de aula.
- Vamos ao caniçal e cortamos duas canas, duas, não mais, bem grossas e compridas; com a minha navalha, faço um corte a meio de cada uma, rasgando a cana até metade e criando duas abas sobrepostas, que se manterão seguras, por o rasgo não chegar ao fim. A "arma" fica pronta a ser utilizada: basta apontar à cabeça e bater-lhe com força. A cana assim cortada não parte e a chibatada é bem forte. As bichas vão dar ao rabo e podem, se não tivermos cuidado, dar-nos a chibatada a nós. Confiem em mim. Estudei bem a lição! As duas que vi nunca mais comerão ovos de perdiz ou de qualquer outra ave, nem morderão os pés do Tóino.
E assim foi ... duas cobras morreram nesse final de tarde, às mãos da cana do Júlio (uma chegou).
Levava um arame no bolso e prendeu-as pela cabeça e, enrolando-as, colocou-as no saco de serapilheira que tinha escondido na mala. Tudo pensado, não havia dúvida!
- Vou enterrá-las no pomar da quinta.
A surpresa estava guardada para o dia seguinte. No intervalo, o Júlio foi à sebe e arrastou as cobras pelo pátio. 
Acabou o recreio para as meninas da outra sala, que fugiram a sete pés, refugiando-se junto da professora, a quem contaram o que estava a acontecer.

Durante uma semana não houve recreio para os "capitães da areia".