sexta-feira, 10 de julho de 2020

Campeões Europeus

                 
Há quatro anos, exactamente neste dia, Portugal foi Campeão Europeu de Futebol, derrotando na final a França, por 1-0, com o golo inesquecível de Éder. 
Nessa altura, o banco onde trabalhava produzia uma revista trimestral, destinada a todos os colaboradores do departamento, e nela publiquei o texto, emotivo, que agora aqui replico, já mais calmo mas ainda com as emoções bem frescas e à flor ... dos olhos.

CRÓNICA DA ANGÚSTIA E DA ALEGRIA
(...) Ouve o silêncio - a voz universal
Só ele é o verdadeiro confidente
Do coração de tudo (...)            

Câmara Ardente
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

Para quem gosta de futebol - e eu gosto muito e há muitos anos - ver um bom jogo transmite uma alegria, uma disposição, um prazer, difíceis de explicar mas facílimos de sentir: o passe longo para o extremo, com que ninguém conta e que, surpreendentemente, o deixa isolado; o voo do guarda-redes que defende para canto quando toda a gente já salta gritando golo; a finta que "parte" o defesa e permite "perguntar" ao guardião para que lado quer; o remate do "meio da rua" que coloca a "bola na gaveta", são apenas alguns exemplos dos momentos de maravilha que o espectáculo nos oferece.
Porém ... situações há em que o jogo de que tanto gosto traz consigo angústia, nervosismo, palpitação, desespero. Eu explico: tenho com o seleccionador nacional Fernando Santos uma amizade que já leva mais de 50 anos e, por isso, segui sempre atentamente a sua carreira, desde os juniores do Benfica até à actualidade. Quando nos juntávamos, o futebol fazia parte da conversa e o "treinador de bancada" igual a milhões de outros que eu também sou, dava as opiniões sobre estratégias, jogadores, escolhas, resultados. A sua voz, pausada e calma, punha, ao fim de algum tempo, fim ao tema:

"Quando conseguires ver futebol sem olhar para a bola, começas a perceber alguma coisa disto!"

Há cerca de 10 anos, assistir a (alguns) jogos de futebol passou a ser um suplício. 
Concluída a formação na área e após um ano a dar aulas, o meu filho passou a integrar a equipa técnica do Fernando, primeiro na Grécia (AEK) e depois acompanhando todo o seu percurso (Benfica, PAOK, Selecção da Grécia e, presentemente, Selecção de todos nós).
Na Grécia, o drama começava com a busca de um site (quase sempre "manhoso") onde ver o jogo, mesmo com paragens, cortes e, muitas vezes, um écran negro, um som de inglês arrevesado ou de grego incompreensível (para mim). Nessa época, as notícias sobre os problemas gregos eram diárias e muitas vezes amplificadas. Ao final do dia, o Skype ajudava a esbater a preocupação sentida ao saber das manifestações, das cargas policiais, da crise, da falta de dinheiro, da hipótese de haver venda de ilhas, da fome nas ruas, um sem número de acontecimentos que, para quem está longe e de coração apertado, se transformam na desgraça iminente e são difíceis de aguentar e de mascarar para fora.
Depois, a alegria do regresso a Portugal - ainda por cima para o (meu) Benfica - toldada pelas dificuldades em ir ao café, pela necessidade de não ter ouvidos, de fazer de conta, de ter de ler notícias falsas e escutar mentiras absurdas afirmadas como verdades indiscutíveis, a angústia do resultado a sobrepor-se ao prazer de ver o jogo. E a culpa é sempre do treinador ...
De novo a Grécia. Primeiro o PAOK, de Salónica, cidade que vive o futebol com uma paixão intensa, incontrolada e incontrolável. As imagens televisivas mostravam-na e, ao vivo, tudo se confirmava. 
A Selecção grega trouxe alguma folga: não havia jogos todas as semanas, as notícias não martelavam tanto, e o Europeu da Croácia e o Mundial do Brasil deram muitas alegrias.
Fui grego nesse tempo ...
Eis que, como na parábola, o bom filho à casa torna e pela porta grande!
Nunca me passou pela cabeça ver o meu filho na equipa técnica da nossa Selecção. Mas está!
E foi Campeão Europeu ... e chorei convulsivamente!
Hoje ainda continuo com dificuldade em controlar a emoção quando falo ou escrevo sobre aquela epopeia. E é melhor parar para que o papel não fique manchado ...
O futuro trará o costume: a bola baterá na trave, o guarda-redes dará um "frango", o defesa será fintado infantilmente, o médio errará o passe, o avançado falhará o golo certo e milhões de "treinadores de bancada", como eu, fariam bem melhor do que aqueles "nabos" que estão no "banco".
Cá por mim, continuarei a gostar muito de futebol e a sofrer ainda mais, caladinho no canto do meu sofá ou na cadeirinha da bancada, indiferente ao que se diz à minha volta.
Prezo muito a amizade e até os filhos da coruja são os mais bonitos do mundo!
Porém, nunca aprenderei a ver futebol sem olhar para a bola!
Outubro de 2016

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Formigas

A estrada da montanha terminava a uns quinhentos metros da casa e tinha cerca de dois quilómetros de extensão, bem íngreme, em terra batida. 
A vista era deslumbrante e, bem lá no cimo, ainda permanecia a neve branca trazida pelo último Inverno. O horizonte era interminável e o verde predominante, num fim de tarde radioso e de temperatura agradável.
A casa seria o nosso albergue nas duas noites que ficaríamos em Basel mas, para isso, era necessário chegar lá a pé, pelos socalcos de um carreiro que obrigava a uma "bicha de pirilau" aprendida vários anos antes na instrução militar.
O Werner caminhava na frente, visivelmente agradado por disponibilizar  a sua casa de montanha a meia dúzia de compatriotas da mulher.
Mas ...
            - Alto, gritou.
Tinha parado junto a um carreiro de formigas, bem assinalado por dois montinhos de areia fina feitos pelas próprias.
           - Estamos na Suíça e aqui, ao contrário de em Portugal, não se pisam formigas e muito menos
             se dão pontapés nos montes de areia que elas tão bem executam.
Ninguém comentou.
Todos entenderam a mensagem e deram um pequeno salto, para não perturbar o afã do formigueiro.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Banco de Portugal

Acabou o reinado de Carlos Costa no Banco de Portugal.
Espera-se e deseja-se que o novo regime seja republicano e que aconteça o que sucedeu há alguns anos em Belém.
Sai Costa e entra Mário Centeno, e o mais provável é que nem a secretária seja a mesma, numa época em que a higienização é fundamental.
Resta antever que um técnico de tão alto gabarito deverá ir presidir ao Novo Banco ou às comissões liquidatárias do BPN, do BES ou do Banif ou talvez, quem sabe, à administração do Montepio Geral.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Isto e o seu contrário

A situação actual no país, e no mundo, faz-nos sentir embaraços, dúvidas e ansiedades que não esperávamos nos estarem ainda reservadas.
É a vida, dirão muitos, com toda a razão. Pelo menos pensando assim dormimos mais descansados.
As notícias mais recentes sobre a TAP, a EDP, o Sócrates, a queda do PIB, o turismo, o desemprego, o orçamento, a oposição, o governo, as presidenciais, o corona, o Bolsonaro, o Trump, o racismo e os refugiados, a miséria e as desgraças, os comentários, as opiniões, as certezas dos mesmos e as dúvidas da grande maioria, transmitem-nos angústia numa altura em que a mobilização e o querer deviam ter primazia e a sensação de se ser enganado nem por um bocadinho poderia vir ao nosso espírito.
Todavia ...

Quando era jovem, contava-se que Bocage tinha um dia entrado num café e pedido:
- Meia dúzia de pastéis de nata, por favor.
O empregado, solícito, colocou os bolos numa caixinha, bem arrumados e ainda quentinhos, pôs a tampa e a caixa em cima do balcão.
- Pensei melhor. Prefiro antes meia dúzia de pastéis de feijão. Têm tão bom aspecto.
- Sem problema, trocam-se já. 
Nova caixa, agora com pastéis de feijão. Bocage pega nela e encaminha-se para a saída.
- Ó senhor Bocage, esqueceu-se de pagar os pastéis de feijão.
- Não me esqueci. Troquei-os pelos de nata. 
- Mas também não pagou os de nata!
- Como quer que os pague se os deixo aí.
E saiu porta fora, por certo a salivar e ansioso por deglutir o feijão e o açúcar dos pastelinhos.
Imagino como se deve ter sentido o empregado, sem argumentos para contrariar tal evidência. É a vida!

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Quotidiano

Não tenho o fantasma da folha em branco - presunção e água benta cada um toma a que quer - mas não me apetece escrever sobre nada, nem sequer sobre a manhã, maravilhosa, que hoje encontrei na Foz. 
Tudo perfeito: sem vento, sol aberto, temperatura agradável e água, como de costume, muito fria.
Parafraseando um companheiro de banhos: "é massagem cardíaca". Soube bem!
Como sempre, não se sabe o que irá acontecer amanhã e não vale a pena fazer planos. 
De manhã, saberemos o que o S. Pedro nos reserva e agiremos em conformidade, como soe dizer-se.
Entretanto, as bandeiras foram finalmente içadas, por certo com a pompa e a circunstância devidas, estando agora disponível para toda a gente que estamos numa praia "azul, dourada e acessível".
E que já tem um lava-pés no início de uma das escadas de acesso. 
Finalmente!

domingo, 5 de julho de 2020

Netos

Nasceu na capital, há 14 anos. Parece que foi ontem.
Foi o primeiro dos quatro que, até à pandemia, faziam as delícias da casa, com as brincadeiras, os jogos, as "malandrices" e o carinho que todos transmitem, de forma diferente porque cada um  tem a sua personalidade e bem forte. (Quando eu era da idade deles era teimoso)
O Gil é o meu neto GRANDE. É quase sempre assim que o trato e ele sorri, com aquele ar meio tímido que tão bem lhe fica.
Já me olha de cima para baixo: vai no metro e oitenta e a tendência parece ser para o infinito! Calça mais seis números do que eu e, se nadasse a meu lado, dava-me pelo menos uma piscina de avanço.
Bom aluno, bom leitor, bom atleta, vive agora a fase que todos conhecemos e que bem nos lembramos, mas vai passar depressa. 
Não perde a delicadeza nem a simpatia e deixa o avô "babado" desde que nasceu.
É GRANDE, o meu neto Gil.


          PARABÉNS, GIL

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Quotidiano

Já lá vão quase quatro meses a conviver com o "novo normal" e a luz ao fundo do túnel ainda nem tremelica.
"O medo é que guarda a vinha", diz um ditado popular que, como quase todos, encerra verdade e sapiência. 
Somos hoje altamente influenciados pelo medo, que nos constrange, impede, influencia, nos torna cautelosos, desconfiados e nos transporta sempre de pé atrás, "não vá o diabo tecê-las".
E se ...? 
O melhor é ficar em casa. Na dúvida ...

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Bibliotecas

Ontem assinalou-se o Dia Mundial das Bibliotecas.
Embora já me vá fartando dos "Dias Mundiais" por tudo e por nada, as bibliotecas têm todo o direito a ter um Dia Especial, realçando que em todos os outros a sua importância também é enorme, por aquilo que dão e pelo que representam, historicamente, a quem delas se serviu com grande proveito e sem custos.
Ler foi sempre, e ainda é, uma das minhas grandes paixões.
Comecei a ler muito novo, bem antes de entrar para a primária, graças à minha irmã, três anos mais velha, que dedicava o tempo dos trabalhos de casa à meritória tarefa de os partilhar comigo e com as minhas impertinências. Como recompensa, veio a ser professora e a aturar alunos muito piores que o irmão.
Para além dos livros da escola, com a bandeira da "bufa" (como era conhecida a Mocidade Portuguesa) desfraldada na capa, dos bois do Jeirinhas, da balada da neve, da casa portuguesa, com certeza, com pão e vinho sobre a mesa, quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim, já não consigo lembrar-me com exactidão de quando comecei a ler o Jornal de Notícias. O meu pai ia ao Porto de segunda a sexta-feira e quase todos os dias trazia o JN. Recordo o jornal, enorme, aberto sobre o chão da cozinha e o miúdo a soletrar as notícias, do terramoto de Agadir ao assalto ao Santa Maria, da invasão da Índia, do caso da herança Sommer, do quadrado pequenino do Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, que comunicava as mortes dos soldados na guerra, nunca mais de dois. Recordo, ainda, as caricaturas de Miranda, na última página, e o problema das palavras cruzadas, cujo vício de resolver ainda hoje mantenho.
Depois, vieram as bibliotecas, itinerantes e fixas, que facultaram o acesso aos livros que não habitavam lá por casa, de Júlio Dinis a Eça de Queiroz, de Namora a Aquilino, de Garrett a Herculano, sempre graças à Fundação Calouste Gulbenkian
Hoje, também eu tenho uma, passe a vaidade, razoável biblioteca, abastecida com regularidade há muitos anos, que não é itinerante mas está sempre disponível para bons leitores.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Amália - 100 Anos

Se fosse viva, Amália festejaria hoje 100 anos.
Não festeja, mas consegue ser, para além da brilhante cantora que sempre foi, uma figura consensual na sociedade, coisa que nem sempre aconteceu.
Parece que, finalmente, todos lhe reconhecem os méritos que a levaram a cantar nas melhores casas de espectáculo pelo mundo fora e a ser considerada uma diva, do Brasil ao Japão, da Rússia à China, da França à Argentina.
Deu voz a grandes poetas, contribuindo para a divulgação da grande poesia portuguesa e, sem sombra de dúvida, deu um valioso contributo para que o fado fosse reconhecido pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade.
E, passados tantos anos a ouvi-la, conclui-se sempre que a sua voz é única.

terça-feira, 30 de junho de 2020