Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Liga das Nações
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Novas tecnologias
Efectuar uma chamada telefónica para os serviços, complexos, de alguma grande empresa, entidade ou repartição, é um suplício.
As gravações são todas muito simpáticas, uma voz melodiosa cumprimenta-nos e, logo a seguir, "despeja" as instruções:
- Se pretende X, marque 1; Se pretende Y, marque 2; Se pretende Z, marque 3; Se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.
Escolhida a hipótese que parece ser a mais adequada à questão que suscitou o telefonema e sobre a qual se pretende esclarecimento, aguardam-se alguns momentos até aparecer uma voz, simpática, claro, que se identifica, nos cumprimenta e nos interroga sobre qual o assunto que nos levou ao contacto, "que, desde já, muito agradecemos".
Relatado o problema, de novo a voz melodiosa:
- Desculpe, mas esse assunto não é comigo. Vou ter que transferir a sua chamada para o departamento respectivo. Não desligue.
Música, muita, para que o tempo passe sem se notar.
- Boa tarde, fala F., em que posso ser útil?
Renova-se a cantilena, tentando que a exposição seja clara e que o interlocutor perceba.
- Entendi perfeitamente mas, vai-me desculpar, o assunto não é comigo. Vou tentar ligar ao departamento respectivo. Espero que a chamada não caia. Pensando melhor: mande um "mail" para o endereço "tal" que, eu entretanto, falo com o colega para que se resolva de forma rápida.
O "mail" já lá está. E a resposta, quando virá? Aguardemos!
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
ABC da vaga
António concorreu e conseguiu ocupar a vaga posta a concurso. É hoje um distinto funcionário, querido pelos colegas e admirado pelo público.
Benjamim habituou-se desde cedo às vagas do oceano, ali mesmo à beira do qual viu a luz do dia. Mantém vivo o respeito pela sétima vaga e é hoje um surfista de sucesso.
Carlos viu um vaga-lume pela última vez há perto de cinquenta anos. Todos os anos compra o Pirilampo Mágico, para ajudar, e manter viva a chama que desapareceu.
A senhora do IPMA avisou que, nos próximos dias, haverá uma nova vaga de calor. A Protecção Civil alertou para o risco de uma vaga de incêndios e determinou que a vaga de piqueniques, tão habitual nesta altura do ano, seja proibida.
Uma vaga de bombeiros, viaturas e meios aéreos estará em estado de prontidão máxima, preparados para a vaga de sacrifícios que a sua nobre missão impõe.
Corona iniciou a sua primeira vaga em Março e, não contente com a vaga de problemas com que nos presenteou, prepara-se para nos oferecer uma segunda, sem ter evidenciado muito bem o final da primeira.
No mar alterado, as vagas surgem seguidas e muitas vezes não se consegue descortinar a diferença entre a primeira e a sétima.
No próximo século, uma vaga de cientistas e de historiadores dedicar-se-á a estudar as razões que motivaram uma vaga tão grande de infectados por um vírus que, nessa altura, não passará de um viruzeco.
domingo, 6 de setembro de 2020
Macramé
Técnica de tecelagem manual, conhecida e trabalhada desde, pelo menos, o século XIV.
Cá por casa também é velha conhecida. Desta vez está a surgir um novo projecto destinado ao jardim, com a execução a cerca de um terço, sempre sob o olhar atento dos herdeiros.
Até parece fácil ... para quem sabe.
sábado, 5 de setembro de 2020
Adágios
Num dia de almoço plebeu, no qual (quase) todos puxaram a brasa à sua sardinha, conviveram contando estórias, manjaram batatas, pimentos e tomates, tudo regado a contento e terminado com alguns "comprimidos" tomados à colherada e fundamentais para o progresso da diabetes, meia dúzia de ditados populares ilustradores da sabedoria da experiência.
Quem porfia mata caça
Grão a grão enche a galinha o papo
Quem muito manduca, pouco trabuca
Ovelha que berra, bocada que perde
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura
Quem tudo quer tudo perde
sexta-feira, 4 de setembro de 2020
Palavras bonitas
DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Jogo do ringue
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
Bilhete de Identidade
- Levas vinte escudos, que chega e sobra. O homem vai dizer que não tem troco e tu respondes que vais trocar à loja.
Dito e feito. Era a primeira vez que, sozinho, ia tratar da renovação do bilhete de identidade. O homem tinha os cabelos todos brancos, estava atrás de um grande balcão de madeira castanha, vestia um fato cinzento e usava umas mangas pretas por cima das do casaco. Não havia mais ninguém na sala.
- Bom dia. Venho renovar o meu bilhete de identidade, disse eu, estendendo o antigo, que iria caducar em breve.
Pegou no bilhete, mirou, remirou e, do alto da sua arrogância, despejou:
- Espera.
Se a timidez e o receio já eram grandes, o medo da ordem provinda de tal figura acentuou-se. Metia respeito ao falar, gritava, como se fosse polícia e tivesse à sua frente um criminoso. Era o "dono" da loja.
- Chega cá!
Tinha saído de trás do balcão e aproximou-se da craveira onde, percebi, me iria medir a altura. Eu já era grande, pensava, mas não sabia ao certo quanto media.
- Encosta bem as costas.
A peça de madeira que iria assinalar a altura na fita marcada, foi solta e caiu sobre a cabeça, dura, do miúdo que eu era. Não doeu muito, mas não foi meiga. Anotou no papel que trazia, usando um lápis que tinha nascido nos dias pequenos ou já tinha sofrido muitas aparadelas. Não fez comentários nem me disse a altura.
- As fotografias?
- Estão aqui, senhor Garcias.
De novo atrás do balcão, coloca uma enorme caixa em cima, abre a tampa, retira o rolo e mancha a pedra de tinta bem preta. Pega no meu indicador direito sem dizer palavra, tinge-o de preto e, a seguir, fixa a imagem em dois papéis distintos. Um era o impresso que, depois de preenchido e plastificado em Lisboa, haveria de ser o meu novo bilhete de identidade, o outro deveria ser destinado a arquivo, para o que desse e viesse.
Preencheu o papel que substituiria o velho bilhete, já guardado, e que iria servir para efectuar o levantamento do novo daí a 15 dias ou um mês. Estava concluído o trabalho, só faltava pagar. E tinha demorado pouco mais de meia hora. Maravilha!
- São dezassete e quinhentos.
Estendi a nota de vinte Santo António, que o meu pai me tinha dado. Recolheu a nota, simulou olhar para a gaveta e
- Não tenho troco.
- Eu vou ali fora, à loja, e troco.
O olhar fulminante acompanhou o devolver da nota, atirada com violência.
Fui à tasca do Tição e pedi, por favor, para me trocarem a nota, para pagar no Registo Civil.
- O homem não tem troco, não é? É o costume. Ele queria era ficar com o troco. Foste esperto.
Não fui nada. O aviso do meu pai foi precioso e determinante.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Dias de anos
Desde 1975 que não trabalho no meu dia de anos. Agora, que a situação é de "férias permanentes", nem seria necessário o feriado, mas é importante que ele se mantenha para sempre.
A liberdade não tem preço, deve ser sempre comemorada por todas as razões e ainda por eu ter feito 22 anos no seu dia.
Já os meus filhos não têm a mesma sorte. Nasceram ambos em dias "normais" e, por isso, raramente têm direito à folga no seu trabalho.
Hoje o filho faz 39 anos e nem oportunidade tem de receber os carinhos da família, isolado que está em estágio "pandémico" e rigoroso. Os parabéns são virtuais da família real, e presenciais da outra "família" onde está integrado - a selecção nacional de futebol, em estágio para os próximos compromissos da Taça das Nações (Croácia e Suécia).
Se vencerem os dois encontros, como se deseja e espera, terá valido a pena, uma vez mais, o sacrifício da ausência física.
Cá estaremos todos para as comemorações, com atraso, mas com o mesmo entusiasmo.
