sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Sexta-Feira

A partir de hoje e até terça-feira, não é autorizado ir para a brincadeira. Pode ir para o emprego, se o tiver e se houver um papel que o justifique. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Quotidiano

Os números "covidianos" não param na sua ascensão, à procura de um pico que não há meio de ser atingido. A nossa "ilha" mantém-se firme, no lugar mais baixo da escala "covídica", apesar de também seguir uma trajectória ascendente. 

Amanhã chegará a proibição de viajar entre concelhos, mesmo para aqueles que são "paredes meias" e cuja divisão se circunscreve a apenas um risco num mapa. Que seja para o bem de todos, espera-se.

A primavera ainda está longe e, tudo o indica, o inverno será longo. A esperança de melhores dias mantém-se bem viva e a boa música ajuda muito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

25 Novembro

Há 45 anos era eu um jovem bancário, acabado de ingressar na CGD, num edifício enorme, situado no Largo do Calhariz, em pleno Bairro Alto, e que ainda hoje lá permanece, agora servindo, julgo, de sede à Fidelidade Seguros. A admissão à Caixa tinha sido efectuada, após concurso, em Setembro de 1974 e protelada, nessa altura, por força do serviço militar obrigatório. 

A saída da tropa tinha acontecido no final de Agosto de 1975 e, por isso, estavam bem frescas as memórias dos tempos que por lá tinha passado, nomeadamente após o "dia inicial inteiro e limpo" imortalizado por Sophia de Mello Breyner Andresen. A presença no Gabinete do Ministro da Defesa Nacional desde o primeiro governo provisório (Maio de 1974) foi uma experiência de vida marcante, que recordo sempre com emoção e saudade. Deu-me a oportunidade de conhecer muita gente, alguns insignificantes, mas a grande maioria educada, dedicada e empenhada. São já muitos os que desapareceram, mas com todos aprendi muito e não os esqueço.

Conhecia (alguns pessoalmente) a grande maioria dos intervenientes na disputa, quer de um lado quer do outro. Não vale a pena, a esta distância, fazer quaisquer comentários ou análises sobre o sucedido, as suas causas e muito menos sobre as consequências. A história é o que é. A realidade e os olhos de hoje são completamente outros.

Recordo, apenas, um dia tenso, no trabalho e pela noite fora, à espera que o desfecho não descambasse naquilo que, pela manhã, parecia inevitável. Talvez o hoje quase esquecido Francisco da Costa Gomes, com a serenidade que lhe valeu a alcunha de "Rolhas", tenha sido a "peça" que evitou o troar dos canhões e a guerra civil que parecia estar a chegar.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Ligações

Ontem, ao contrário do que é costume, não tive possibilidade de ver o programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, que é normalmente exibido na RTP-2, por volta das 23H00 de cada segunda-feira.

Graças às tecnologias disponíveis, que dão bastante jeito, estive a vê-lo há pouco. Desta vez a visita fez-se à Casa de Tormes, onde se situa a Fundação Eça de Queiroz. De acordo com quem sabe, foi nesta casa que Eça escreveu A Cidade e as Serras. A conversa, interessante, havida com o historiador Rui Ramos, trouxe-me à memória alguns pormenores do livro, que a arca, com dificuldade, ainda mantém à tona, embora já com enormes "brancas".

Não resisti. Fui à estante, abri "ao calhas" e saiu isto sem procurar mais. Uma beleza!

(...) Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar ... Jacinto ocupou a sede ancestral - e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou - e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - "Está bom!"

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

- Também lá volto! - exclamava Jacinto com uma convicção imensa, - É que estou com uma fome ... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas. (...)

A cidade e as serras
Eça de Queiroz
Lello & Irmão - Editores

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Caldas da Rainha

Apesar do erro divulgado pelo Power Point da Direcção Geral de Saúde, o nosso concelho permanece, no mapa "covidiário", numa zona pintada a branco, cor indicativa de risco moderado e circunscrita a um conjunto, pequeno, de quatro concelhos do Oeste - Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral e Lourinhã.

Ainda subsistem por aí muitas coisas péssimas, reveladoras de mau gosto e de falta de sensibilidade. Porém, a verdade é que na cidade (e no concelho) há locais que nos fazem sentir bem, gostar de por aqui viver e que, sabemos, causam inveja a quem nos visita. 

Não vale a pena referir que a praia da Foz do Arelho é a melhor de Portugal por se saber que seremos contraditados por a água ser muito fria e o mar demasiado bruto. Mas, quantas cidades haverá no país que tenham dois "pulmões" como o Parque D. Carlos I e a Mata Rainha D. Leonor? Poucas, sem qualquer dúvida.

A Mata, que convida sempre a um longo passeio por toda ela, oferecia, na manhã de hoje, esta paisagem de sonho.

Ainda bem que o Power Point estava errado e continuamos a poder desfrutar.

domingo, 22 de novembro de 2020

Manhã

Com um pouco de sorte, o "jardim zoológico" poderia ter mais espécies, mas foi o que se conseguiu arranjar. Os patos e os flamingos estariam ocupados lá mais para o fundo da Barrosa ou dos Musaranhos, ainda sem necessidade de descansar.

Não é fácil conseguir que um coelho, uma rola e uma gaivota partilhem o mesmo espaço, de forma pacífica, num barco sem motor e preso à âncora, no meio de muita, muita água, de um azul espantoso.

A caminhada domingueira fez-se numa manhã de sol lindo, a incidir sobre as máscaras de todos os que gostam de passear à beira da Lagoa.

As e os que adoram a prancha também por lá andavam e ainda ficaram, que aquele exercício, no meio da água, exige muito mais tempo.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia emergente

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez ontem uma comunicação ao país, apelando para a união na diversidade de opiniões, e para a compreensão do que é necessário todos fazermos para que os números da pandemia não aumentem de tal forma que o SNS sufoque. Na sua curta declaração, justificou a manutenção do estado de emergência, alertando de forma clara para o que está a surgir e o que pode chegar. 

Vivemos um momento no qual quem tem responsabilidades tem obrigações. De partidos a jornalistas, de governantes a opinadores, a hora é de ser mais cuidadoso, rigoroso e mobilizador, não cedendo ao facilitismo e à demagogia. Sintético e esclarecedor, crítico mas construtivo, transmitindo serenidade e esperança, se mais não fora pelo respeito que devem merecer os que partiram e aqueles que, nesta altura, quase esgotam os recursos dos hospitais.

Estamos em tempo de congregar atitudes em prol do bem comum, sem deixar de criticar quando a situação justifique, sempre com a perspectiva de ajudar a corrigir, antes que as vozes dos salvadores que por aí chegam se sobreponham às de quem acredita que só há futuro com a diversidade de opiniões e de ideias.

Talvez se justifique voltar a Camões e, nomeadamente, ao último verso da terceira estrofe do Canto I de Os Lusíadas, para não cansar muito. Se não o conseguirmos, corremos o risco de ver o país embarcar sem rumo, numa nau sem fundo e de a musa não cessar de cantar e continuar a apregoar os nossos (de)feitos.
(...)
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sentir & Saber

A propósito da publicação do livro Sentir & Saber - A caminho da consciência, editado pela Temas & Debates, o cientista António Damásio dá uma entrevista à Visão desta semana, na qual discorre sobre a actualidade, a política, o cérebro e o futuro. Dessa entrevista, copio e roubo uma pergunta e a respectiva resposta, por me parecerem, ambas, dignas de destaque, pela objectividade e actualidade.

(...) Visão - Tem esperança de que, desta experiência, possa surgir uma espécie de "homem novo", mais atento, como escreve no livro, à "inteligência, fenomenal e ainda incompreendida, da natureza"?

António Damásio - Não tenho qualquer dúvida. Vejo uma enorme mudança de atitudes. No espaço sociopolítico em que vivemos, existe a noção de que a Natureza está a ser agredida, temos plena consciência de que as alterações climáticas podem vir a comprometer o nosso futuro. Claro que há outros lugares onde as pessoas negam a existência dessas alterações climáticas, mas, quando se olha para os grandes números, para as principais sociedades, não tenho dúvidas de que a maioria da população acredita que estamos perante uma emergência climática. Quanto mais respeitarmos a vida noutros seres que não sejam apenas seres humanos, melhor estaremos no futuro. Mas, atenção: respeitar a Natureza não é respeitar os passarinhos, os cães e os gatos. De um modo geral, isso são espécies que as pessoas respeitam porque as consideram facilmente interligáveis com os seres humanos. O que é preciso é respeitar todas as outras espécies, até mesmo aquelas que não vemos claramente que nos dão vida, como as bactérias. (...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Rio

Corre um rio para o mar ...

E vai lá chegar, ultrapassando obstáculos, vencendo dificuldades, cursando o seu leito, da nascente até à foz, com ou sem afluentes e influentes. Tudo o que o rodeia contribui para o seu percurso, desde quem gosta de o ver limpo, garboso, contente, a muitos que o agridem, com lixo ou lixando-o, sem respeito pela sua natureza única e importante.

Cíclico, teimoso, lá segue por altos e baixos, estuários e veredas, curvas, rectas e encruzilhadas, percorrendo o trajecto que lhe surge determinado a cada momento, tentando sempre o melhor caminho para chegar a bom porto. Nem sempre o consegue. O trajecto, muitas vezes, torna-se mais longo, mais lento, mais exigente, mais penoso, mais difícil. Mas vai lá chegar, com mais ou menos escolhos, com erros de escolha e falhas na decisão.

Nem mesmo um rio consegue ser perfeito ...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Tempo

Não chega para nada. Mal começou e a semana já está no fim. Tanta coisa para fazer e os dias como que desaparecem. Quarta passada, semana acabada, aprendi há muito tempo.

Não se compra nem se vende, nem mesmo nas grandes superfícies. Vive-se. Sem dramas nem sobressaltos, sem demasiada pressa nem lentidão em excesso. Tempo certo, à velocidade certa, com as certezas possíveis e as incertezas do costume.

De vento em popa, ao sabor da maré, como Deus quer, cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas, à espera de melhores dias, é o destino, há quem esteja muito pior e muitos há que nem o sol vêem. Respaldamo-nos nas frases feitas, naquilo que sempre ouvimos e dissemos, sempre com a língua afiada para assinalar os defeitos dos outros e uns bolsos, enormes, para guardar, bem fundo, os nossos.

E adiamos, ou procrastinamos, como agora se diz para mostrar eloquência, não esquecendo a resiliência que nos é característica e também está na moda.

Amanhã também é dia, apesar de o dia, o mês ou o ano se aproximarem velozmente do fim. É sempre a mesma coisa ... mas melhores dias virão, não tenhas dúvidas!