terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Carnaval

A ideia era ir a Veneza, depois planeou-se Rio de Janeiro, a seguir ponderou-se Sesimbra e, à cautela, pensou-se também na Mealhada, ou Ovar, ou Estarreja. E um salto ao Algarve? O tempo estará melhor e o Carnaval também é muito divertido por lá. Não, Carnaval a sério é em Torres Vedras e até é perto e bom caminho. Tantas hipóteses e, afinal, todo o planeamento foi por água abaixo. Não há Carnaval ... em lado nenhum.

A Foz é sempre uma caixinha de surpresas, de Verão ou de Inverno, com sol ou nevoeiro, com vírus ou sem ele (para quando?). Violando um pouco as regras, a voltinha higiénica foi até lá, com máscara, pela borda da Lagoa, sem encontros pessoais ou policiais, mas com uma descoberta: o dono do barco será, pelo menos, sexagenário. Não lhe perguntei por não o ter visto, mas é fácil adivinhar. Só gente dessa idade se lembrará da artista, alguns ainda dela recordarão canções e poucos se lembrarão das sardas. Hoje, septuagenária, talvez já as não tenha, que a maquilhagem faz milagres e os anos, acentuando muitas coisas, disfarçam outras. A música, essa, já quase ninguém ouve, mas o nome ainda domina a pesca na Lagoa.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Sonhos

Cada vez convivo mais com sonhos. Não aqueles que se têm acordado - esses são de tempos passados - mas os que fazem companhia ao descanso, criando cenários inverosímeis, tarefas incongruentes, viagens fantasmagóricas. Quando acordo, normalmente lembro-me do que aconteceu, verifico o que a mente me mostra e fico perante uma chusma de disparates, sem qualquer nexo, ordem ou razoabilidade. Fui procurar saber os contactos e a morada de Sigmund Freud mas, até ao momento, nem Google, nem Facebook nem Instagram me deram quaisquer notícias  de como lhe chegar, muito embora todos o conheçam e sobre ele falem muito. Vou persistindo e talvez a sorte um dia me chegue, mesmo que aconteça daqui a muitos anos. É sempre tempo de aprender e de ouvir explicações, por mais irracional que pareça o tema.

Nesta noite sonhei que tinha ido à Medicina no Trabalho. Que coisa mais estúpida! A Medicina está toda dedicada ao Corona e o Trabalho já não me perturba nem me tira o sono. Estava a trabalhar , vejam bem, na Baixa de Lisboa e a consulta era no Largo do Calhariz. Dei por mim no carro, a subir a Rua do Alecrim. Em branco ficou o sítio onde a viatura estaria estacionada e o percurso feito até ali. Não cortei à esquerda, para a Rua do Loreto, nem olhei para o Camões e muito menos para o Chiado, vi de relance o cauteleiro da Misericórdia, e cheguei ao Príncipe Real. Parei junto ao pequeno mercado que por lá se faz aos sábados, de manhã, mas não consegui lugar para estacionar.  Os legumes biológicos ficaram para os clientes reais, até porque só era sábado no sonho. Percorri a Rua da Escola Politécnica, devagar e com alguns sobressaltos, e cheguei ao Rato. Virei à esquerda e, num abrir e fechar de olhos, já estava no Jardim da Estrela. 

De novo uma branca no caminho e eis que me apanho estacionado no Largo do Calhariz, onde é proibido parar, quanto mais estacionar. Mas foi lá que estacionei o carrinho, fechei a porta e depois me dirigi ao edifício alaranjado, enorme, onde iniciei, há muitos, muitos anos, a minha actividade na banca. As grandes portas estavam abertas e havia um segurança sentado à secretária, com um computador virado de costas para mim. Identifiquei-me, disse ao que vinha, aguardei o tempo da consulta no computador e ouvi:

- Tem aqui 250,00 € de multa para pagar. Devia ter vindo de manhã, para fazer o electrocardiograma e as análises.

- Mas ninguém me disse ...

- E era preciso? Não está farto de fazer isto? Tem de pagar e pronto!

- Olhe, vá receber ao Totta, retorqui de imediato e ... acordei!

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Lascarino

Era "rodas baixas", de olhos azuis, felinos. Nunca parava quieto e o seu lugar era sempre o pior, sendo o melhor o do outro. Ninguém lhe reconhecia o valor e esse valor era imenso. Irrequieto, perguntava tudo a todos, para não perder nada e impedir que alguma coisa lhe escapasse, por ínfima que fosse. 

Preocupava-se se o chefe não dizia nada, ralava-se se chamava a atenção, comentava "entre dentes" se falava para todos. "Cusco", como convém aos "leva e traz", era descarado a perguntar e conciso na pergunta. A resposta, ele se encarregaria de apimentar e de florear, acrescentando na transmissão a sua verve, o seu parecer, sempre acompanhado do seu pedido ao interlocutor para que não dissesse nada a ninguém. "É segredo!".

Sabia tudo e, quando não sabia, inventava. A única coisa que, verdadeiramente, o preocupava, era a certeza de que os outros o consideravam a única fonte do conhecimento dos bastidores, das cusquices, dos enredos, do que aí vinha, do que já não viria, de tudo e de nada.

A sua propensão para transportar e transmitir era utilizada por quem, antes de tomar decisões, queria saber o que pensavam os destinatários. E ele fazia-o na perfeição, saltando e correndo para que não houvesse ninguém fora do inquérito, sem nunca se esquecer de referir o carácter secreto da pergunta e o arquivamento tumular da resposta.

Um lascarino, diria a minha mãe.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O Largo

Não há ninguém sentado nos bancos. Todos têm uma fita vermelha e branca, para marcar a proibição e a impossibilidade de, sequer, descansar as pernas. Passam despercebidos ou já ninguém lhes liga, nem sequer os dois ou três cães que por ali vagueiam.

A churrasqueira terá dez/doze clientes a aguardar o franguinho, dispersos, com a distância social e a máscara (ou máscaras) bem colocada. Quem chega, retira a senha do dispensador e aguarda que, através da instalação sonora, gritem o número que possui. No silêncio, o som do chamamento soa mal, roufenho, perturba. Leva a outras paragens, imaginadas, de feiras e romarias, de cobertores e peúgas, de carrosséis e pistas, do poço da morte ao circo. É uma boa maneira de manter os clientes afastados uns dos outros e os chicos-espertos longe. As conversas não acontecem. Cada um vive consigo e quanto mais longe, melhor.

Dos três cafés, apenas um está aberto e só até às 13 horas. Não vende a bebida que lhe dá o nome nem outra qualquer. Vende pão, sopa, jornais, tabaco, raspadinhas e toda a parafernália de jogos da Santa Casa. Tem a fila tradicional, com apenas duas pessoas a aguardar o gong que indica a permissão de entrar. Apenas uma pessoa no estabelecimento, lê-se no cartaz da montra, que também indica o uso obrigatório de máscara. Dos quatro empregados, apenas um está ao serviço e acompanha o dono, no (pouco) trabalho que há para fazer. Apenas, apenas, a penas que não se vêem ...

- É só para manter a chama. Não dá para a luz.

Trago a sopa, encomendada a meio da manhã quando fui buscar o Expresso e trouxe pão. Para manter a chama do óptimo café que lá bebia.

Quando voltará?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Escrita de ouro, que exige redobrada atenção e ... dicionário à mão.

(...) Hipólita herdara bem aquele orgulho da humildade, que se repercutia em toda a sua corte de caseiras e mulheres de recados para quem uma blusa nova era má recomendação, a não ser que se tratasse de festa pascal ou dia de noivado. No Domingo de Páscoa, Hipólita contemplava as suas afilhadas, que eram numerosas, com cortes de chita para que elas próprias executassem blusas, e não esquecia nunca de elogiar o feio resultado, uma espécie de camisões floridos copiados de modas antiquadas.

É certo que em casas como a de Arnaldo Conceição, por exemplo, ninguém se vestia por padrões modernos; e quando suas tias, ainda mulheres novas, apareciam na missa, parecia que o circo estava na aldeia, tanto elas se mostravam completamente ridículas com os seus "corsages" de Verão de organdi com fitas de veludo preto e que tinham sido elegantes quarenta anos atrás. Mas mesmo Rosamaria tinha com ela essa desenvoltura patronal que convida a imitar o que se tem por virtude, incluindo o que a virtude tem de belicoso. As coisas só eram um pouco diferentes com o ramo da família que se aparentara com estrangeiros, com o conde de Wiesel mais exactamente, e que produzira uma geração de gente elegante, "blasée", como Camila Wiesel e César, e Alice, todos estranhos às origens da Casa de Cales. Tinham propriedades bastante importantes que conservavam por uma espécie de humor veneziano ou florentino e que mantinham a peso de ouro. Esses Wiesel eram vistos como exemplo de desordem, mas, ao todo, concediam-lhes um mérito heráldico substancial, porque todo o grande nome tem necessidade da sua excentricidade e mesmo da sua mancha, para assegurar a grandeza que nem só a boa reputação fomenta.

Não se sabe até que ponto a pomposa honestidade dos Alba Pereira se tornou para José uma causa de íntima exasperação. Quando Rosamaria lhe escrevia (cartas que ele adivinhava serem ditadas por qualquer dos amigos comuns, dissidentes da primeira aura política), ele sentia uma extraordinária revolta. Como se uma espécie de traição fosse visível naquele estilo epistolar um pouco balofo e, sobretudo, desusado em Rosamaria. Parecia que ela compunha aquelas cartas como se fosse música sinfónica, orquestrando uma peça musical para um número certo de violas e contrabaixos.

- Para que me escreve ela? - perguntava José, irado. - Parece uma carpideira que deixa à porta da câmara-ardente os sapatos e o coração.

Os meninos de ouro
Agustina Bessa-Luís
Relógio d'Água 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

E se?

E se chove? E se está muito trânsito? E se chegamos atrasados? E se está muita gente? E se não há bilhetes? E se ... E se ..., só desculpas de mau pagador, como diria o outro.

O "malvado" reflexo condiciona tudo e todos e é cada vez mais utilizado para salvaguardar as imponderabilidades que sempre acontecem e as incertezas que, cada vez mais, se acentuam. Também serve para salvaguardar a incompetência ou a pouca atenção dada a um assunto. Isto só não acontecerá se surgir algum imprevisto ...

A economia portuguesa vai crescer este ano menos do que estava previsto. O cenário pode agravar-se se a pandemia continuar, se o turismo não regressar, se o investimento público não acontecer, se ...

E se não se fizessem previsões? Viria mal ao mundo? Fariam falta? Claro que sim! É importante pensar sobre o futuro, sobre o que acontecerá se as premissas de hoje se mantiverem, se não houver nada que altere a situação actual. Mas apresentar previsões como verdades absolutas que depois são desmentidas, não parece racional. E, na maior parte das vezes, com aquele ar enfático de certezas tão evidentes e tão óbvias que, se não acontecer assim, foi por alguma coisa do outro mundo o ter impedido e nunca por deficiente análise de quem debitou o arrazoado. 

São sempre as circunstâncias que, variando, alteraram aquilo que era um trabalho de ciência certa, não passível de discussão nem de dúvida. Se alguém adivinhasse que ia acontecer, outro galo cantaria ...

"O programa pode ser alterado por qualquer motivo imprevisto"

ou, adaptando, talvez seja melhor dizer que "O imprevisto pode ser programa por qualquer motivo alterado".

E se chove?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Passeio confinado

Ainda voltaremos a ter uma cidade agradável, apetecível, espaçosa, arrumada e aberta? 

As obras nas ruas circundantes continuam e parecem trazer alguma coisa mais do que a simples substituição das canalizações. Um pouco mais abaixo, começou a ser delineado o que irá ser um espaço de lazer, que ligará a zona habitacional à zona desportiva, sem "arranha-céus" pelo meio, permitindo que toda a gente possa por ali andar, correr, brincar, desfrutar.

Por enquanto ainda está só no início, lento como convém, e pouco mais tem que os caminhos principais abertos e cobertos de saibro. Já convida a passear e, nesta altura em que as saídas se devem circunscrever aos espaços em volta do local da habitação, sabe bem poder passear por perto e em espaço agradável.

Veremos se fica concluído antes das autárquicas ...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A seringa e a agulha

Vivem as duas, bem juntinhas, naquele minúsculo "apartamento" de vácuo, que ocupam desde a saída da fábrica, sem pagar qualquer renda. A seringa exibe um largo sorriso de boa disposição e contentamento, enquanto a agulha está sisuda, com cara de poucos amigos, mostrando aquele ar aterrador de que todos lhe devem e ninguém lhe paga.

- Não tens outra cara? Eu, só de pensar que vou à televisão, nem consigo dormir! Que excitação!

- Qual é o interesse? As minha antepassadas ensinaram-me que devia ser discreta, segura, que estava destinada a salvar uma vida ou, pelo menos, a contribuir para isso. Já não é como no tempo delas, que eram fervidas a cada utilização e duravam imenso. Agora, somos descartáveis e, à primeira utilização, lixo. Mas, ainda assim, prefiro a discrição ao exibicionismo.

- Tens de ver o lado positivo. Agora temos protagonismo, notícias, fotografias, televisões, a toda a hora. Somos vedetas, mais do que artistas, colocam-nos à frente de quem fala, várias vezes, para que sejamos bem vistas. Se eu fosse invejosa, que não sou, dir-te-ia que ocupas o espaço quase todo, sempre a entrar nos braços deste e daquele, do Presidente ao mais humilde idoso, nome que agora é dado aos velhos, enquanto eu apenas apareço de forma fugaz e sempre atrás de ti.

- Não concordo nada contigo. Qual é o interesse que tem essa exibição? Acaso cumprimos melhor a nossa função? Porque razão a agulha há-de ser notícia exibicional? E o acto de picar? Mostrado, filmado, fotografado, para quê? O que adianta?

 - Assim, toda a gente nos vê e nos aprecia a elegância. Gostava tanto de ser agulha, para ter a câmara a mostrar-me todinha ...

Encolheram-se sem chegar a acordo. O saco estava a ser aberto, iam ser retiradas e utilizadas, mas não havia luzes à volta.

Azar! Logo havia de ser hoje, que a televisão não veio!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Nada

A música francesa fez parte da minha adolescência, quando tudo vinha de Paris, até os meninos.

De Adamo a Aznavour, nessa época mais Bécaud do que Brel, passando por Françoise Hardy, Sylvie Vartan ou Mireille Mathieu, o romantismo a marcar os passos de dança e os outros. Em meados dos anos sessenta, os quatro de Liverpool chegaram e cilindraram tudo, até o corte de cabelo. Uma nova ordem de gosto, moderna e contestatária, acentuou o conflito de gerações, com divergências profundas e observações (im)pertinentes, como a de um professor de História que, com a desfaçatez própria de quem tudo sabe, comentava sobre os Beatles: "músicos eléctricos, desliga-se a ficha e pronto" .

O encanto pela música francesa, mesmo assim, manteve-se, e a diva Edith Piaf ainda hoje se ouve com muito agrado e actualidade.

Rien de Rien ...

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Tempo

Janeiro fora, cresce uma hora. E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Nem o tempo ajuda!

Fevereiro já cumpriu um quarto do seu reinado, mais curto do que o dos seus onze irmãos e, neste ano, apenas com vinte e oito dias de vida, porque bissexto foi em 2020 e só volta a ser em 2024. Se dúvidas houver sobre a certeza desta verdade insofismável, é só consultar o Borda d'Água ou a Wikipédia. Está lá tudo!

De manhã, ainda deu para a voltinha higiénica - porque há-de chamar-se higiénica se nos faz transpirar -, que desentorpece os músculos e permite sentir o vento, fraco, na cara e a luz, cinzenta, nos olhos. Pessoas, muito poucas, mascaradas, com a pressa de andar, a desconfiança do olhar e a certeza do dever de afastar. Longe, longe, é a preocupação actual, não vá o diabo tecê-las. Quem vê caras não vê corações e muito menos o bicho, e cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Acordada da sesta, parece que a ventania está a regressar e a ameaça da chuva mantém-se, para que o encerramento confinado não se torne tão arrasador e a obrigatoriedade "legal" seja esquecida ou, pelo menos, menosprezada.

Os dias estão cada vez maiores. De acordo com os especialistas e os números dos últimos dias, parece que o tempo está a melhorar. Oxalá não haja enganos nem retrocessos, e a Primavera traga um sol radioso, para nos deliciar e fortalecer, que bem precisamos.