Faz parte do álbum "Com as minhas tamanquinhas", gravado em 1976 pelo grande Zeca.
Tantos anos depois, surgem acontecimentos e ocasiões há em que as palavras são tão assertivas que parecem ter sido escolhidas propositadamente para esses momentos.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Faz parte do álbum "Com as minhas tamanquinhas", gravado em 1976 pelo grande Zeca.
Tantos anos depois, surgem acontecimentos e ocasiões há em que as palavras são tão assertivas que parecem ter sido escolhidas propositadamente para esses momentos.
Mais de um ano decorrido, vamos entrar num novo período de "estado de emergência", que os responsáveis querem e têm esperança que seja o último. Eu também ...
Há um ano, quando ainda se estava no princípio e se esperava que fosse "sol de pouca dura", divaguei aqui sobre o jardim e coloquei uma fotografia de um arbusto, que estava a evidenciar-se e a exibir-se, fanfarrão, com a esperança de ter toda a gente a apreciar a sua beleza. O tempo passou, as pessoas rarearam na rua, caíram as flores, mudou de tom, encolheu-se, perdeu as abelhas, deixou a exibição e de vedeta passou a ignorado.
Mas eis que a mãe natureza, prestimosa, não o deixou cair na amargura e trouxe-o de volta. Em dois dias, as flores surgiram, brilhantes, vaporosas, e chamaram as abelhinhas, para se deliciarem com o seu néctar. E o escovilhão, ou escova de garrafa, ou limpa-garrafas ou Callistenon voltou a exibir todo o seu esplendor e a despertar a curiosidade de quem passa na rua e o espreita, fascinado.
Cara fechada, sem quaisquer manifestações, um bom dia (mal) sussurrado, quase imperceptível. Tem aquele aspecto dos que se costumam definir como gente "a quem todos devem e ninguém paga".
Não há sorrisos, nem sequer um simples esgar. Concentração máxima, sobrolho franzido, faz o seu trabalho sem uma fala, contraído, como se estivesse a aguardar o cadafalso ou a sentença de morte.
- Precisa de alguma coisa?
- Não.
E lá vai prosseguindo a tarefa, sem esforço físico mas com um peso na "pinha", que deve ser enorme. Nem os músculos da face mexem e até a "maçã do Adão" permanece imóvel.
Terminou. Baixinho, quase em murmúrio, duas palavras seguidas:
- Boa tarde.
- Uma boa tarde também para si e obrigado.
O objectivo é "fazer aquilo que se gosta e gostar daquilo que se faz", mas há pessoas que não conseguem. É a vida!
Esta noite tive pesadelos.
Sonhei que me tinham obrigado a ler as justificações do Juiz Ivo Rosa e o livro do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Foi duro! Vi-me a braços com a fuga das folhas do Juiz, como tinha acontecido a Ricardo Araújo Pereira, no seu programa de ontem, e também com as letras muito pequeninas que, imagino, deve ter o novo livro candidato a best-seller. Tudo isto se deve à idade, acho eu, e o mais aborrecido é que os sonhos estão muito longe de ser o que eram ...
Feita a higiene da manhã, com o duche a lavar os devaneios sinistros da noite, tomado um bom pequeno almoço seguido da imprescindível "bica", um salto ao mercado semanal que, finalmente, voltou. Era preciso ir comprar uns morangueiros para "retanchar" os que não vingaram e aproveitar para "cuscar" como se estava a processar o regresso da vida ao espaço. As pessoas voltaram. Muitas. Os vendedores da zona dos produtos hortícolas estavam felizes e exibiam o sorriso correspondente. A avaliar pelo número de compradores, tudo indica que o coronavírus despertou o interesse pela agricultura em muita gente amadora.
Por aqui, as framboesas circundam o jacarandá (que já ultrapassou o telhado) e estão lindas, com o verde pintalgado do branco das flores. São agora a sala de visitas das abelhas e das borboletas, como esta que por lá estava hoje, ainda a manhã não ia a meio, e que nem sequer se assustou com a presença de quem lhe invadiu a privacidade, sem respeito nem autorização.
O pesadelo que nos acompanha há mais de um ano exige resistência e capacidade para conseguir manter o equilíbrio, limitando tanto quanto possível os estragos e tentando que a cabeça se mantenha a laborar com as peças todas, com sentido crítico e discernimento para que as parangonas noticiosas não provoquem pesadelos nocturnos.
A leitura e a música têm servido de companhia constante, "companheiras de jornada" que já eram e que agora reforçaram o seu compromisso, revelando-se fundamentais e imprescindíveis.
Três intervenientes de quem gosto bastante: Cristina Branco, Mário Laginha e António Lobo Antunes. Sem qualquer preocupação de ordem de preferência, representam a companhia que me têm feito o canto, a música e a leitura.
Corria o primeiro ano da década de setenta do século passado e as rotinas eram poucas e muito circunscritas.
- Há festa em ... e hoje o baile é com o Conjunto ... Vamos lá?
Uma colecta para a gasolina rendeu os 20$00 necessários para a viagem - cada litro da normal custava 5$30 - e quatro litros chegavam para quase 50 quilómetros. Não era tão longe ...
O empregado da bomba (nessa altura havia empregados nas bombas) ouviu, a brincar e entre risota:
- Ponha 20 paus para atestar ...
E lá foram quatro mariolas, numa noite de sexta-feira, à procura de música e da bailação. Havia muita gente, barulho, leilões para ajudar nas despesas, quermesse, muito vinho, já algumas bebedeiras, apesar de pouco passar das dez da noite. A música ainda era gravada e o conjunto preparava-se, no palco, para começar a tarefa de fazer bailar toda a gente, novos e velhos, que "só há festa uma vez por ano".
As meninas sorriam, a aguardar o convite feito com discrição. As mães controlavam o par e assim que as filhas se encaminhavam para o centro do arraial, seguiam o mesmo caminho, dançando umas com as outras, bem perto, para evitar as "indecências".
De repente, qual furacão, o homem surge a espumar de raiva e dirige-se a um dos do grupo. Todos os olhos caíram sobre ele e a menina, seu par.
- Larga! A minha filha não dança com "gajos" casados.
E, palavras não eram ditas, o braço forte puxou a filha e levou-a, apartando o par, sem ouvir a explicação dada entre dentes, com alguma aflição à mistura e um rubor na cara que quase parecia a camisola do Benfica:
- Não me conhece de lado nenhum ...
- Desaparece, antes que te faça a "tromba" num bolo!
O conjunto parou de tocar. A multidão encarou os intrusos com ar de poucos amigos. A saída foi feita "de fininho", pela "esquerda baixa" e a festa deve ter continuado depois, sem valdevinos a perturbar. Já bem longe, uma paragem para recuperar o fôlego e controlar o medo e as emoções, e descobrir a origem do desacato.
- Estavas a ir longe demais? Ou a apertar muito?
- Não. Até estava a conversar, a dizer que era a primeira vez que vinha à festa e que a menina dançava muito bem.
- Mas o homem conhecia-te, de certeza.
- Nunca o tinha visto.
A entrada no café trouxe luz e mostrou a razão evidente da bronca. A aliança tinha sido escondida no bolso, mas a marca no anelar da mão esquerda traiu.
A mentira tem perna curta ... mesmo a bailar!
Quase sete anos depois, com a leitura de uma resma de folhas A4 que demorou mais de três horas, a "montanha pariu um rato".
Dir-se-á que é o tempo da justiça e o estado de direito a funcionar mas, para um leigo, ainda por cima com dificuldades no entendimento do "direitez", é triste ver o resultado, depois de todo este tempo na praça pública.
Ficará para a história o falhanço da acusação e, como sempre, a culpa será apenas da interpretação e nunca da incompetência. O Ministério Público, depois deste atestado, vai por certo recorrer e procurar salvar a face com esse recurso. O Juiz teve o seu "tempo de antena", leu o "romance" de muitas centenas de páginas, que agora será escalpelizado e analisado por Departamentos superiores.
Veremos os desenvolvimentos futuros, com muitas dúvidas de que tudo se concluirá ainda na vida dos intervenientes.
A morada era um carro, velho, coberto por uns panos grandes, seguros por elásticos, que se encontrava estacionado junto a um, também velho, pinheiro manso.
Vieram as obras de requalificação das ruas e aquela foi uma das contempladas, decerto por fazer parte do plano previsto, reforçado agora por ter passado a ser um dos principais acessos ao enorme restaurante Mcdonalds, que por ali se instalou recentemente.
Abandonou o poiso e acomodou-se a algumas centenas de metros, agora numa carrinha grande, mais nova e mais discreta. Mesmo assim, havia um pano por cima para assegurar, julgo, algum conforto, e fazer de cortina ao "quarto", protegendo as intimidades. Aqui, ainda mantinha a vista para o restaurante e, de lá, também era visível.
Partiu de novo, obrigado ou convidado a sair. Não o descortinei durante alguns dias e pensei que alguém lhe tinha resolvido o problema e arranjado um espaço para habitar. Surgiu-me hoje, de novo, num outro local, sem vista para o restaurante mas com porta para a rua e para o trânsito.
A carrinha está bem estacionada, não podendo ser legalmente removida nem multada. O "inquilino" por lá vive, sem quaisquer condições de salubridade e higiene.
Será teimosia do próprio ou toda a gente assobia para o lado, como eu?
O "grupo" voltou hoje às caminhadas, com as cautelas devidas, "mascarados", a distância determinada mas não medida, as vozes bem altas, para nos fazermos ouvir.
A conversa fluiu e os cinco quilómetros foram percorridos sem esforço e quase sem se dar por eles. O barulho dos carros, tão incomodativo no passado, passou hoje despercebido, tal a ansiedade do reencontro e a satisfação pelo regresso dos hábitos, bem sumidos pelo tempo decorrido sem quilómetros calcorreados em conjunto.
As notícias parecem ser animadoras, muito embora isso já tivesse acontecido noutros tempos e, depois, tudo regrediu e obrigou a reduzir o espaço de liberdade e a circunscrevê-lo à "casinha" e pouco mais.
O tempo ajuda e o azul do céu reforça o efeito da esperança, como se verde fosse.
Talvez consigamos, desta vez, colocar o "bicho" em sentido e obrigá-lo a depor as armas.
Há muitos anos, num colóquio sobre rádio, ouvi um conselho de Joaquim Furtado, dirigido a todos aqueles que faziam ou pretendiam fazer rádio:
"Se não tem nada para dizer ou não sabe o que há-de dizer, cale-se. Ponha música!"
Quase todos os dias isto me vem à lembrança quando vejo os telejornais das várias televisões, os quais, na maior parte do tempo, poderiam ser substituídos por música, que toda a gente ficava a ganhar e eram reduzidas as exibições de braços com agulhas.
Hoje vou seguir o conselho, embora o blogue não seja rádio, não tenha a pretensão de dar notícias e quem "rabisca" as palavras não pretenda ser outra coisa que não um "diaristazito", que tenta escrever sem erros. As imagens abaixo são da ópera La Traviata, representada em Março de 1958 no Teatro de S. Carlos, tendo Maria Callas como primeira figura. Claro que não recordo nada disto (nessa altura nem sonhava que havia S. Carlos quanto mais ópera), mas tenho uma vaga ideia das eleições de Humberto Delgado, que aconteceram em Junho do mesmo ano e deram a vitória ao candidato que ficou em segundo lugar.