terça-feira, 20 de abril de 2021

Palavras bonitas

 MANIAS

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz - hoje uma ossada -
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa
Concedia-lhe o braço, com preguiça
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa
O livro com que a amante ia ouvir missa!

(Lisboa1874)
O livro de Cesário Verde
Cesário Verde
Editorial Minerva

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Educação ou a falta dela

Por vezes parece que estamos mais rudes, menos educados, mais porcos. 

O novo MacDonald's da cidade tem sempre clientes, de manhã à noite, até ontem em regime de take-away e, a partir de hoje, em funcionamento normal, com restrições de número, como qualquer outro restaurante. Os clientes são muitos, sinal de que gostam da comida e são bem atendidos. Não posso fazer outra coisa que não seja conjecturar, por ainda lá não ter entrado e, aqui para nós, dificilmente isso irá acontecer. Mas não tenho nenhum preconceito. Não gosto, pronto.

A caminhada da manhã mostrou como há quem permaneça insensível ao espaço que o rodeia e faça lixo para outrem limpar. Em todo o estacionamento eram visíveis os restos de domingo e, num espaço em particular, havia restos de comida, embalagens e até fraldas de bebé.

Na volta, lá andava a empregada do restaurante, vassoura numa mão, pá na outra e saco às costas, a limpar a porcaria que um ou mais energúmenos, clientes da sua entidade patronal, tinham feito.

Nunca mais lá chegamos ...


domingo, 18 de abril de 2021

Incêndio

aqui falei dele. É um homem pequenino, tem pouco mais de 50 anos e uma dinâmica e uma agilidade que não é vulgar ver-se. Fala bastante, muitas vezes com ele próprio, tem sempre uma piada na ponta da língua e fuma muito, dizendo que vai deixar os cigarros porque o filho lhe pede.

Executa várias tarefas e, quando eu chego, brinca, dizendo:

- Hoje está cá o estucador ...

ou

- O pedreiro chegou agora. À tarde, vem o ladrilhador. Carpinteiro só na semana que vem. Tem muito trabalho. 

Um dia desta semana, questionou-me, com um olhar malandro,  como quem sabe a resposta que vai obter.

- Conhece a Igreja de S. Domingos, em Lisboa?

- Por acaso conheço bem.

- Sabe que a igreja, há muitos anos, foi destruída por um fogo?

- Tenho ideia disso, sim. Acho que ouvi ou li sobre o incêndio. (aconteceu em 13.08.1959)

- E sabe porquê?

- Não faço ideia ...

- Havia lá um padre que deitava as beatas no chão ...

Riu-se ... e acendeu um cigarro.

sábado, 17 de abril de 2021

Urgências

Há dias assim. Plenos de actividade, sem tempo para pausas, ocupação ininterrupta e, no fim, afinal que fiz eu? 

No tempo do trabalho (já lá vão quatro longos anos ociosos), havia um tableau de bord, escrito ou mental, que ia servindo de orientação e de lembrança. Assuntos urgentes, tarefas importantes, temas prioritários, tudo pensado de véspera para que o dia fosse o mais produtivo possível. Uma grande parte das vezes, o planeado ficava no tableau, adiado (se eu fosse moderno diria procrastinado) para o dia seguinte ou eliminado por, entretanto, ter perdido actualidade. O desconforto surgia com a vontade de mandar o planeamento "às malvas", deixar que tudo acontecesse e depois se veria.

Agora é muito mais fácil! Não fiz nada do que tinha pensado para hoje? E depois? Qual é o problema? E, como diria o outro, qual é a pressa?

Não há nenhuma urgência que não possa esperar 24 horas e só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros que nem o tempo consegue resolver.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

E ainda ...

O Oeste não vai à capital há "séculos", mas Lisboa desce à província e, atempadamente, graças ao serviço de entregas dos CTT, faz-me chegar o último álbum de Carlos do Carmo, posto à venda exactamente hoje. Sem pagamento nem filas, chegou, completo, numa caixa bem bonita e já foi ouvido na totalidade. Falta apenas ver o DVD que acompanha os dois CD's, mas isso acontecerá mais tarde, talvez à noite.

Para que a sua voz fique gravada na nossa memória e o seu gosto eternizado, Carlos do Carmo deixa-nos no seu último disco as palavras de Vasco Graça Moura, Hélia Correia, Jorge Palma, Herberto Helder, Júlio Pomar, José Saramago e Sophia de  Mello Breyner Andresen. Se outras razões não houvera, e há, bastavam estes nomes para se justificar a audição.

Um grande trabalho e uma grande recordação, para ficar em lugar de destaque, como é devido.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Canalhices

Faz parte do álbum "Com as minhas tamanquinhas", gravado em 1976 pelo grande Zeca.

Tantos anos depois, surgem acontecimentos e ocasiões há em que as palavras são tão assertivas que parecem ter sido escolhidas propositadamente para esses momentos.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Natureza

Mais de um ano decorrido, vamos entrar num novo período de "estado de emergência", que os responsáveis querem e têm esperança que seja o último. Eu também ...

Há um ano, quando ainda se estava no princípio e se esperava que fosse "sol de pouca dura", divaguei aqui sobre o jardim e coloquei uma fotografia de um arbusto, que estava a evidenciar-se e a exibir-se, fanfarrão, com a esperança de ter toda a gente a apreciar a sua beleza. O tempo passou, as pessoas rarearam na rua, caíram as flores, mudou de tom, encolheu-se, perdeu as abelhas, deixou a exibição e de vedeta passou a ignorado.

Mas eis que a mãe natureza, prestimosa, não o deixou cair na amargura e trouxe-o de volta. Em dois dias, as flores surgiram, brilhantes, vaporosas, e chamaram as abelhinhas, para se deliciarem com o seu néctar. E o escovilhão, ou escova de garrafa, ou limpa-garrafas ou Callistenon voltou a exibir todo o seu esplendor e a despertar a curiosidade de quem passa na rua e o espreita, fascinado.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Cara de pau

Cara fechada, sem quaisquer manifestações, um bom dia (mal) sussurrado, quase imperceptível. Tem aquele aspecto dos que se costumam definir como gente "a quem todos devem e ninguém paga". 

Não há sorrisos, nem sequer um simples esgar. Concentração máxima, sobrolho franzido, faz o seu trabalho sem uma fala, contraído, como se estivesse a aguardar o cadafalso ou a sentença de morte.

- Precisa de alguma coisa?

- Não.

E lá vai prosseguindo a tarefa, sem esforço físico mas com um peso na "pinha", que deve ser enorme. Nem os músculos da face mexem e até a "maçã do Adão" permanece imóvel.

Terminou. Baixinho, quase em murmúrio, duas palavras seguidas:

- Boa tarde.

- Uma boa tarde também para si e obrigado.

O objectivo é "fazer aquilo que se gosta e gostar daquilo que se faz", mas há pessoas que não conseguem. É a vida!

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Sonhos

Esta noite tive pesadelos.

Sonhei que me tinham obrigado a ler as justificações do Juiz Ivo Rosa e o livro do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Foi duro! Vi-me a braços com a fuga das folhas do Juiz, como tinha acontecido a Ricardo Araújo Pereira, no seu programa de ontem, e também com as letras muito pequeninas que, imagino, deve ter o novo livro candidato a best-seller. Tudo isto se deve à idade, acho eu, e o mais aborrecido é que os sonhos estão muito longe de ser o que eram ...

Feita a higiene da manhã, com o duche a lavar os devaneios sinistros da noite, tomado um bom pequeno almoço seguido da imprescindível "bica", um salto ao mercado semanal que, finalmente, voltou. Era preciso ir comprar uns morangueiros para "retanchar" os que não vingaram e aproveitar para "cuscar" como se estava a processar o regresso da vida ao espaço. As pessoas voltaram. Muitas. Os vendedores da zona dos produtos hortícolas estavam felizes e exibiam o sorriso correspondente. A avaliar pelo número de compradores, tudo indica que o coronavírus despertou o interesse pela agricultura em muita gente amadora.

Por aqui, as framboesas circundam o jacarandá (que já ultrapassou o telhado) e estão lindas, com o verde pintalgado do branco das flores. São agora a sala de visitas das abelhas e das borboletas, como esta que por lá estava hoje, ainda a manhã não ia a meio, e que nem sequer se assustou com a presença de quem lhe invadiu a privacidade, sem respeito nem autorização.

domingo, 11 de abril de 2021

Vícios ou ajudas

O pesadelo que nos acompanha há mais de um ano exige resistência e capacidade para conseguir manter o equilíbrio, limitando tanto quanto possível os estragos e tentando que a cabeça se mantenha a laborar com as peças todas, com sentido crítico e discernimento para que as parangonas noticiosas não provoquem pesadelos nocturnos.

A leitura e a música têm servido de companhia constante, "companheiras de jornada" que já eram e que agora reforçaram o seu compromisso, revelando-se fundamentais e imprescindíveis.

Três intervenientes de quem gosto bastante: Cristina Branco, Mário Laginha e António Lobo Antunes. Sem qualquer preocupação de ordem de preferência, representam a companhia que me têm feito o canto, a música e a leitura.


E, no fim, fica sempre a sensação de que, se gostássemos um pouco mais de nós, talvez conseguíssemos ser mais felizes e contrariar a "sina".