sábado, 10 de julho de 2021

Memória

Havia tanta coisa para servir de tema hoje.

Não quero escrever sobre nada, nem mesmo sobre o vento que se fazia sentir na Foz.

Há cinco anos, exactamente neste dia, Portugal sagrou-se Campeão Europeu de Futebol e esse feito ninguém apagará da história. 

Para mim foi um dia inesquecível, com o coração no limite e as emoções à flor da pele.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Extrato, pequeno, da biografia de José Cardoso Pires, publicada recentemente e escrita de acordo com o malfadado novo acordo ortográfico. Apesar da minha (o)posição, a cópia abaixo respeita a ortografia constante da obra, que me tem sabido bem ler. Espero concluir em breve as 566 páginas e que o agrado actual se mantenha até ao fim.

(...) Naqueles anos, nos intervalos permitidos pelos empregos por que ia passando, tinha escrito vários contos. O grande desafio era encontrar quem os publicasse. O convívio com jovens artistas e o contacto com algumas pessoas do meio literário não eram garantia de publicação. Naquela altura, até autores consagrados tinham dificuldade em encontrar editor. Os livreiros e os responsáveis das editoras queixavam-se que o ano de 1947 tinha sido um dos piores de sempre para o setor. Em julho, a revista Vértice publicou um artigo sobre a crise do livro português com um diagnóstico sombrio. Os livros eram demasiado caros para a maioria da população que gostaria de os ler. A prioridade era pôr o pão na mesa. Alguns autores vendiam razoavelmente, mas quase todas <<ediçõezinhas de 3000 exemplares>> dormiam o <<sono eterno nas estantes das livrarias>>.

Nada ajudava. Nem a censura, com o risco de possíveis apreensões a pesarem nos cálculos dos editores, nem a elevada taxa de analfabetismo, a rondar os 45 por cento, muito superior à dos outros países europeus, nem o preço dos livros. Para que a publicação do seu livro não fosse apenas uma quimera, um aspirante a escritor precisava de um <<padrinho>>, alguém que caucionasse a qualidade da obra. Depois logo se via. Mas se mesmo com padrinho era difícil, sem padrinho era impossível. E sem livro, também. Porém, essa parte ficou resolvida em agosto, quando Cardoso Pires concluiu a primeira versão de um livro a que deu o título provisório de Areia Movediça. E já decidira a quem ia entregá-lo para uma primeira leitura.(...)

Integrado Marginal
Biografia de José Cardoso Pires
Bruno Vieira Amaral
Contraponto (2021)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Alegadamente ...

Sempre com a premissa do título, os últimos tempos têm sido pródigos em notícias envolvendo figuras conhecidas desse outro mundo que passa nas televisões e navega pelos jornais e, por arrastamento, "fauna" que é "tu cá, tu lá" com muita gente, sedenta de conhecer e dizer que conhece.

Primeiro, foi José Berardo, ou Joe Berardo ou Comendador Berardo, a ser detido, por uma chusma de crimes, que cansam qualquer um que os leia e devem ser um pesadelo para quem é disléxico e tem dificuldades com a língua. Coitado do Comendador! Ainda por cima fixaram-lhe uma caução de cinco milhões de euros, quantia que deverá obrigar a partir todos os porquinhos-mealheiro, dele e da família, e talvez até a recorrer a uma angariação de fundos através das redes sociais. E todos temos obrigação de ajudar, para evitar a prisão de um respeitável septuagenário, sob pena de ficarmos com remorsos.

Ontem foi Luís Filipe Vieira, famoso empresário self made man, que começou a trabalhar em pneus e, à custa de muito esforço e dedicação, conseguiu ser presidente do Benfica, depois de uma "licenciatura" em construção civil, completada por um "doutoramento" de presidência no Alverca. Para que a claustrofobia não o atormentasse, o Ministério Público resolveu dar-lhe a companhia do seu grande amigo José António Santos, da Valouro, que garantirá, sendo necessário, um franguinho para assar se a fome atacar. Sempre preocupados com o bem-estar duma personalidade deste nível, os investigadores garantiram ainda o convívio de um seu advogado, que acumula funções no agenciamento de futebolistas, e ainda o seu filho, que não é identificado com qualquer profissão, a não ser a de "filho de", suficiente para identificar, abrir portas e ter crédito, dirão alguns. Este trabalho do Ministério Público permite a ocupação dos tempos livres com umas boas partidas de sueca, jogo conhecido como do seu inteiro agrado.

Por tudo isto é que os Tribunais estão entupidos e demoram um tempo infinito a resolver qualquer acção que lhes é submetida. Se aos recentes juntarmos Ricardo Salgado, José Sócrates, Armando Vara, Carlos Silva, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro e muitos outros que não são, ou não eram, presença assídua nas televisões, teremos, clarinha como água suja, a razão do entupimento.

Valha-nos que os "rigorosos inquéritos" não vão parar aos Tribunais. Não haveria manilhas com dimensão suficiente para assegurar o esgoto. Alegadamente ...

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Juventude

Eram cerca de duzentos. Jovens na idade em que se sabe tudo, se aguenta tudo e se quer fazer tudo. Pertenciam à mesma companhia de instrução e cumpriam a recruta do serviço militar obrigatório, "missão" conhecida por todos e adorada por muito poucos.

A guerra colonial era a realidade agitada de forma diária, com a mais que provável mobilização para a Guiné sempre presente. Isso e uma disciplina férrea eram a motivação mais do que suficiente para que todos se aplicassem o melhor que conseguiam nas provas teóricas e nas físicas. A ida à guerra era determinada pela classificação final e por algumas "cunhas", naturalmente.

A "educação física" era particularmente exigente e dura, mesmo para quem tinha pouco mais de 20 anos. A espingarda G-3 era mais um membro do corpo, que acompanhava, e estorvava, todos os movimentos. Não havia lugar a queixas e a solidariedade entre todos fazia-se sentir. Ninguém ficava para trás e qualquer desfalecimento era, de imediato, resolvido com a ajuda necessária, libertando a carga, da espingarda à mochila e, se não bastasse, oferecendo o ombro para apoio. O campo de obstáculos, situado lá bem ao fundo do quartel, era o local preferido pelo comandante da companhia para, muitas vezes amesquinhando um ou outro, tentar fortalecer o grupo, levá-lo cada vez mais longe e torná-lo cada vez mais forte.

Já se perdeu na memória o nome próprio. Recordo o apelido - Preto - e que era da zona de Mirandela. Não ia a casa de fim-de-semana por não ter carro próprio e os transportes públicos, pelas "auto-estradas" de então, demorarem uma "eternidade". Desmaiava ao ver sangue, como todos pudemos confirmar aquando do "teste do dedo". Depois da picadela e assim que apertou para que o enfermeiro pudesse recolhê-lo para a lamela, caiu do banco e pregou um susto ao oficial médico que, lá ao longe, apreciava o decorrer dos trabalhos. Para agravar, sofria de vertigens e, de acordo com o que dizia, qualquer altura lhe dava pânico. Era sempre dispensado, pelo alferes do pelotão, da subida (e corrida) ao pórtico. 

Um dia, o comandante da companhia apercebeu-se e chamou-o, questionando a razão da dispensa.

- Não consigo, meu tenente. Sempre fui assim ...

- És um maricas. Todos os camaradas sobem, e correm, e tu ficas aí ... Não tens vergonha?

A admoestação e o achincalhamento começaram. Era visível o nervoso e o desejo de, se pudesse, fugir dali. O comandante continuava a arenga, tornando-o um farrapo perante os outros. Não satisfeito com a conversa, cheia de palavrões e impropérios, colocou-lhe um tijolo à frente e mandou-o subir. Claro que os nervos o tolheram e nem isso conseguiu fazer. 

Começou a ouvir-se um sussurro, baixinho. Tornou-se mais audível. Não tardou muito e era um escarcéu. 

- Acabe com isso! Nós fazemos por ele ...

O comandante calou-se e mandou-o juntar-se a nós. O resto do dia foi violento. A solidariedade e a "rebelião", como sempre, pagaram-se com "língua de palmo".

Nunca mais o vi, porque os destinos seguintes não se cruzaram. Alguns meses depois, num encontro fortuito com outro camarada de recruta, soube que tinha sido mobilizado para a Guiné ...

terça-feira, 6 de julho de 2021

Palavras bonitas

Tanto da vida conheço
que, ao ver o mundo tão torto,
às vezes, quando adormeço,
desejava acordar morto.

Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não o ser. 


Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.

Quem canta por conta sua
quer ser, com muita razão,
antes pardal, cá na rua,
que rouxinol na prisão.

Este livro que vos deixo ...
António Aleixo
Edição do filho do autor (1975)

 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Netos

Hoje é dia de não falar em mais nada a não ser de futuro. 

O meu neto Gil faz 15 anos e eu, babado, antevejo-lhe um futuro risonho que, aliás, ele já vai fazendo por merecer.

Aluno impecável, excelente nadador - ontem obteve o sétimo TAC para os Nacionais - , jovem de personalidade e de princípios, mal seria que não o deixassem voar de acordo com os seus desejos, em busca de um mundo melhor, mais justo, mais aberto, plural e solidário.

Tenho a certeza que o meu Gil irá conseguir e eu hei-de continuar a ver, enquanto os olhos conseguirem, as suas aptidões subir, a apreciar a sua modéstia e a ter um orgulho enorme no meu neto GRANDE.

Parabéns, Gil. 

domingo, 4 de julho de 2021

Devaneios

Vivemos tempos difíceis. Quando se esperava que a evolução da pandemia fosse no sentido descendente ou, como diria qualquer economista esclarecido, que tivesse um crescimento negativo, os números ressurgiram para preocupar os mais atentos, que gostavam de (ainda) ver isto ter um fim.

Voltou o recolher obrigatório para a população de um significativo número de concelhos, continuam a ser "proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados", como dizia um polícia dos tempos da "outra senhora", já se ouvem advertências sobre a ocupação preocupante das Unidades de Cuidados Intensivos, o "delta" dos infectados tem subido diariamente sem, felizmente, chegar aos números preocupantes verificados no pico do início do ano.

E surgem os opinativos a dizerem de sua justiça, com uma justeza e uma certeza de espantar a mente mais atenta, dando largas à sua sabedoria e tornando os outros, os que padecem do dia a dia da subsistência, uns meros bonecos estúpidos e aparvalhados, que não se adaptam, não cooperam, infringem sistematicamente a lei e os bons costumes, não se governam nem se deixam governar, como disseram os outros, há muitos séculos atrás.

Valha-nos o folhetim Cabrita, a telenovela Berardo, o Rio que corre para o mar e nem Oliveira o acompanha, o Costa que não remodela, o Jerónimo que vai perdendo o vocabulário, a Catarina que, não sendo a Grande, esforça-se por o parecer, o Chicão que está quase Chiquinho, e o Marcelo, que nunca compreende a razão, quando não lhe passam cartão.

"Malhas que o império tece ...". A esperança em dias com mais sol (como hoje) não desvanece e a Foz do Arelho agradece.

sábado, 3 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)"A emigração da rapaziada do lugar, à qual se associa um ocasional homem maduro, suspensa entretanto pelas expectativas desencadeadas pelos cravos, prossegue a inalterado ritmo. Justificando-se a saída, já não com a ausência de horizontes, mas com a imprecisão destes, abalam agarrados ao princípio que adoptaram, e que se sintetiza na constatação em voga, <<Aqui há confusão a mais!>> Não partem tão futricas como antigamente, e rebocando uma mala fechada, com cordas traçadas, mas de calça e casaco de jeans, e com uma sacola de bom couro ao ombro. Ontem pôs-se na alheta um irmão da rapariga, e uma semana antes viera despedir-se um sobrinho da idosa. Acabaram-se os adeuses dramáticos, calando-se choros e gritos, e selando-se em definitivo as bolsas lacrimais, ao estabelecer-se a absoluta certeza de que <<na nossa era desaparecerem as distâncias.>>

O meio da tarde, alcançado ao termo de um esparso convívio com os livros, reestrutura-se-me à chegada da merenda, tisana de hortelã e pão com manteiga. Recebo a bandeja sem me erguer da poltrona, e com o monte de manuscritos a meu lado, cobertos de pó, e picados pelas faúlhas libertadas da lareira. A manta que me tapa as pernas cheira que tresanda ao óleo da salamandra que acendo, sempre que o calor da lenha se mostra insuficiente. Mastigo como posso, emborco com cautelosa demora aquilo que me põem à frente, e regresso às recordações da mulher no tempo em que ela habitava a Casa."(...)

Embora eu seja um velho errante
Mário Cláudio
D. Quixote(2021)

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Verão

Sol, céu azul, mar verde esmeralda e sem ondas, vento ausente. A Foz, hoje, mais parecia uma praia das Caraíbas ou daqueles destinos paradisíacos tão vendidos por aí. Claro que a água estava fria, mas nada é perfeito e ainda bem.

Como dizia um dos acompanhantes das várias vezes que se experimentou a temperatura, na esperança de que estivesse só um pouquinho melhor,

"Na Foz é assim. Quando surge um dia bom, é mesmo muito bom!"

E os mergulhos sucederam-se até que as mãos começaram a doer e todos achámos melhor não abusar.

Hoje a Foz fez jus ao Verão de António Vivaldi. Amanhã, ver-se-á.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Dúvidas

Afazeres e compromissos impediram que hoje trilhasse o caminho da Foz, mesmo que fosse apenas para sentir o vento a resfriar o corpo e a refrescar as ideias.

Afinal, parece que o S. Pedro me fez mais uma provocação, contrariando todas as previsões metereológicas e o que tem acontecido nos últimos dias. A avaliar pela foto, enviada por mão amiga (C.P.) para fazer inveja e evidenciar que sou eu o "transportador" do mau tempo, hoje foi um dia de "estalo".

Amanhã lá estarei, mesmo que seja só para uma "visitinha de médico". Quero confirmar se o S. Pedro não gosta mesmo de mim ...