terça-feira, 3 de agosto de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Não falou do gatinho nem de qualquer outro tema. Nem se lembrou da mica, nem do artigo. Não era ninguém. Não encontrava palavras e ele parecia feliz por não ter de conversar. Quando acabou, Nino recostou-se na cadeira, oferecendo o peito pressentido na camiseta justa ao olhar de quem estivesse. O pescoço é que era mais curto. Depois agradeceu com os floreados habituais o guisado perfeito, nunca provara nada melhor. E lançou-se numa peroração pós-prandial, que dizia mais ou menos isto:

- Um fantasma não tem de ser necessariamente irreal. Pode ser tão real como tu ou eu. Eles têm é diversos graus de realidade, de densidade, cara Anna, e eu diria que, em média, o seu grau de realidade depende sobretudo da densidade que cada um de nós consegue atribuir-lhe. Há quem consiga criar fantasmas do nada, mas o melhor, penso eu, é ter uma base, uma espécie de primário, como na pintura. Se houver um primário, uma cor unida, que nos empape a tela, a partir daí é mais fácil criar uma imagem. Ela é segura, é duradoura. Há quem considere que ver fantasmas é sinal de loucura. Mas na verdade todos somos fantasmas uns dos outros.

Anna calou-se, percebeu que tinha ali pano para mangas, no fundo pareceu-lhe banal o que ele dizia, no que precisou de sofisticação para aceitar ideias muito batidas pelo tempo - apenas porque vinham dele. De tudo o que dissera, ela escolheu sentir-se como alvo de uma crítica à sua devoção. Nino subtraía-se, mais uma vez, ao sentimento falso que nela imaginava com tanto empenho uma verdade qualquer, uma <<relação>>. Do ponto de vista estritamente filosófico, a teoria do fantasma não era convencional.(...)

Afastar-se
Luísa Costa Gomes
D.Quixote (2021)

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Bolas de Berlim

O "São Pedro" que tem a seu cargo a gestão climática do Oeste deve ter-se distraído com a abertura decretada e não cumpriu a determinação "primeiro de Agosto, primeiro de Inverno". Porém, rapidamente se apercebeu do lapso e mandou chover na noite e na manhã do dia 2, ainda a tempo de que a grande maioria dos veraneantes desta região não se apercebesse da imperdoável falha e não o recriminasse como é costume. Marques Mendes não o irá, assim, incluir no seu comentário semanal, por "três razões" fundamentais, que afinal, contando bem, até são quatro.

Vazia, a praia. Até o vento quis estar ausente. A chuva da noite e do início da manhã abandonou a região, com o "rabinho entre as pernas", que ninguém brinca com  o Oeste. Mas o objectivo tinha sido conseguido. A "fauna" da manhã ficou em casa, a tratar das limpezas ou a recuperar do sono adiado.

Havia pescadores. Mas estes são determinados pelas marés e nunca pelo tempo.

- Ainda era escuro quando cheguei. Mas não dá nada ... tenho ali uma douradita e é um pau! Daqui a pouco começa a vazar, acabou.

- Mas não há peixe?, pergunta o "nabo" que, dele, só percebe no prato, e pouco.

- A Lagoa não vaza bem, a porcaria do fundo não chega ao mar e o peixe não vem à costa, anda lá longe.

Explicação aprendida e apreendida, caminhada de regresso à cadeira, livro nas mãos. Já não faltará muito para o regresso a casa, dando lugar à "fauna" da tarde.

A menina das "bolinhas" aparece, um pouco atrasada em relação à hora habitual.

- Fui "fazer" as unhas. (exibe um verde azulado ou um azul esverdeado, não sei bem). Ainda não vendi uma ...

Vendeu, claro. São óptimas. Até as que vieram para casa já marcharam, não fosse azedarem...

sábado, 31 de julho de 2021

As férias

E Julho chega ao fim, com muito vento e algumas nuvens, como aconteceu em quase todos os seus dias. Não deixa saudades e, se justiça houver, vai ser castigado: só voltará para o ano!

Cumprindo o calendário gregoriano, amanhã inicia-se Agosto, mês em que qualquer português que se preze vai ou diz que vai de férias. Ninguém compreenderia que, após tudo aquilo que nos condicionou durante este ano e meio, se ficasse em casa, por opção ou incapacidade do porta-moedas, recipiente já caído em desuso e substituído com todas as vantagens pelo contact less.

É hora de fazer fotografias, para mostrar as nossas capacidades, agora que todos somos fotógrafos de alto gabarito, armados de telemóvel, mostrando os nossos corpos e as paisagens por onde andamos ou gostaríamos de andar, colocando nas redes sociais e à disposição dos "imensos amigos" as viagens do nosso sonho, as praias das nossas emoções, os restaurantes das nossas perdições, o rosto das nossas comoções e até, quem sabe, o sumo dos nossos limões.

Se for gente mesmo, mesmo importante, surgirão fotos em jornal ou revista, respostas a questionários "profundos" e "certeiros", uma roda de muitos amigos com câmara de televisão por perto, uma participação via Skype em directo, com luz suficiente para se constatar o "bronze", despejando um comentário oportuno, determinante e, se possível, supérfluo.

E não vale a pena tentar tratar do que quer que seja. Agosto é mesmo mês de férias e quem pensar o contrário anda distraído e tem o passo trocado.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Olga Prats

Partiu hoje, aos 82 anos. Fica, para ser lembrado, um pouco do muito que fez pela música.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Igualdade

O Conselho de Ministros de hoje determinou que as limitações impostas pela pandemia passem a vigorar em todo o país, acabando, assim, com a hierarquia dos concelhos e aplicando as regras a toda a população, independentemente do sítio onde as pessoas vivam ou estejam. Esta decisão merece destaque e aplauso, por indiciar que estamos no bom caminho e acabar com distinções que levaram a alguns pensamentos mais ou menos fracturantes.

Ainda que os números se mantenham elevados, tudo indica que, finalmente, nos encaminhamos para um regresso à normalidade, mesmo que essa normalidade necessite de aspas e seja diferente do que tínhamos.

Não é aqui o sítio próprio para pregações e muito menos há competências do "pregador" para tal. Continuemos a confiar em quem sabe e a fazer os "impossíveis" para cumprir, pela nossa liberdade e pela de todos os outros, sem a qual a nossa é perfeitamente irrelevante.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Memória

Não havia ninguém ao balcão e o tempo que mediava até chegar o próximo cliente era aproveitado para, na secretária, ir adiantando as contabilizações, os registos, as tarefas necessárias ao encerramento do dia que, naqueles tempos, era bem demorado e trabalhoso.

O casal aproximou-se do balcão, de braço dado e, mal levantei os olhos, tive a certeza de conhecer o homem, ainda que as dúvidas me assaltassem face à companhia. O atendimento esclareceu tudo.

- Venho pagar a prestação do nosso empréstimo e ... estou a conhecê-lo. Andou na escola das Caldas?

- Andei, sim, já há uns anitos ...

O aviso de pagamento já tinha confirmado o nome.

- Fui teu professor, não fui?, perguntou com um largo sorriso. 

- Foi sim ...

- Já não sou Padre. Agora dou aulas no Liceu Camões.

Ainda bem que esclareceu a dúvida que me tinha feito titubear na conversa. A partir daí, atendi-o sempre que lá se deslocava. Enquanto por lá estive, nunca quis ser atendido por outro, mesmo que isso implicasse algum tempo de espera. As conversas caíam invariavelmente nas recordações de ambos, mas a contabilização era sempre a favor dele.

O chefe, por vezes, arranjava forma de interromper, com medo que o trabalho "azedasse".

terça-feira, 27 de julho de 2021

Ventos

As férias de Julho estão quase no fim. Esta é a última semana e, como é costume, passará a correr e nem dará tempo ao Sol para se habituar a este ambiente oestino, quanto mais a instalar-se por cá. Para agravar a situação, o vento não preencheu em devido tempo o mapa previsto para as férias e, por isso, a escolha dos dias ficou na sua gestão directa, sem que ninguém tenha força para o impedir de aborrecer quem quer calma, paz, sossego, descanso e bom trato. Um regabofe ...

Conclui-se facilmente que já não há respeito pela legalidade, seja ela de direito ou consuetudinária. A Autoridade para as Condições de Trabalho também nada pode fazer para evitar a situação, por não ter meios suficientes e não ter actuação clarificada para, neste domínio, exercer o seu poder. É um vazio semelhante ao que tem acontecido em várias situações, das algemas do SEF aos mails das manifestações, do impedimento do DDT ir ao Tribunal, legalmente previsto, mas que não contempla a Sardenha, às exibições de filmes com os "homens sérios" como protagonistas. 

E tudo isto impede que o "sagrado" direito a férias de um trabalhador reformado seja exercido na plenitude, e o faz ser agredido por uma nortada apressada e fria, a qual, de acordo com quem sabe, se manterá pelo menos mais três dias.

À cautela e para prevenir qualquer incompreensão e um eventual despedimento sem justa causa nem causa justa, invoquei os motivos de força maior descritos (e também a intensidade) para solicitar o prolongamento das férias.

Está decidido. Vou por cá continuar em Agosto, quer o vento goste quer não!

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Livros

Não comungo do pessimismo evidenciado no filme que o meu amigo ADS fez o favor de me enviar. Todavia, tenho consciência de que o livro cada vez se senta a menos mesas e que, nalgumas, se instala apenas para ser visto, como bibelot sem préstimo ou utilidade.

Sina(i)s dos tempos ...

domingo, 25 de julho de 2021

O negro e o verde



Morreu hoje Otelo Saraiva de Carvalho (1939-2021), o homem que comandou as operações em 25 de Abril de 1974.