segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Dia de Todos os Santos

Há alguém a quem passe pela cabeça ser este dia consagrado a mim e a muitos outros tão "diabinhos" quanto eu. 

domingo, 31 de outubro de 2021

Poupar e gastar

- Se tens cinco, gasta só quatro ...

Tempos houve em que a poupança era fomentada de forma enérgica, principalmente por aqueles que auferiam mais baixos salários. A certeza de que qualquer impedimento para trabalhar significava deixar de ter rendimentos, a convicção de que a necessidade de cuidados de saúde tinha subjacente dinheiro na carteira, levava a essa cultura do poupar, por muito pouco que fosse, para fazer face a um qualquer imponderável.

O desenvolvimento da sociedade de consumo, a facilidade no acesso à banca, o advento dos cartões com crédito associado, as contas ordenado e outras, criaram em todos a sensação de facilidade e a confiança de que, quaisquer que sejam os problemas, haverá sempre alguém com uma solução.

Apesar de ainda se manter a efeméride do Dia Mundial da Poupança, que hoje se comemora, falar da dita é quase pré-histórico. A máxima no poupar é que está o ganho foi substituída, com as vantagens bem visíveis para todos, por no gastar é que está o ganho. Sem isso, o PIB manter-se-á estagnado e a dívida pública aumentará em percentagem, quando com ele comparada.

Viva a sociedade de consumo! Compre agora e pague depois! Pague em suaves prestações mensais! Compre o colchão! Nós oferecemos o edredão!

sábado, 30 de outubro de 2021

A praça

- Vamos pelo meio da feira. É mais engraçado!

Para quem ouve, sendo daqui, faz alguma confusão. Nunca se utiliza mercado, muito menos feira. Ao escutar isto, logo ficamos a saber que são visitantes. Para nós é e será sempre "a praça", por vezes "praça da fruta", para distinguir da outra, a do "peixe", que ainda continua a ser assim conhecida, embora já por lá não haja peixe há vários anos.

Hoje, logo pela manhã, dois visitantes estavam indecisos entre passar pelo meio dos vendedores e clientes, ou seguirem pelas ruas laterais que delimitam a praça. Após a primeira hesitação, lá chegaram a acordo e "internaram-se" no bulício da venda, utilizando as ruelas criadas entre as bancas. Não faço ideia se gostaram, se compraram, se sentiram o pulsar da vida do sábado de manhã. Não os voltei a ver.

Enquanto assisti à conversa e à tomada de decisão, naturalmente que não fiz quaisquer comentários. Era o que faltava! Ainda podiam acusar-me de ser burro, ao chamar praça a um simples mercado ou a uma mera feira. Para quem nos visita pode ser isso tudo mas, para nós, é a "praça", assim conhecida por toda a gente e onde vão dar todos os caminhos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

José Afonso

Numa época em que tudo é e não é, onde se grita com a mesma força o isto e o seu contrário, aparecem, finalmente, resolvidos os problemas que impediam a reedição das obras de José Afonso. Assim, a obra do genial autor e intérprete terá divulgação nas plataformas digitais e o acesso, fácil, pelas novas gerações.

Cá por casa isso não vai ser necessário, uma vez que há muito tempo elas aqui residem e continuam a ser ouvidas com a regularidade e a necessidade que, muitas vezes, não as deixa esquecer. Apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre os primeiros discos, a obra permanece actual e é sempre ouvida com deleite.

Espero que o trabalho, meritório, que a família e a Associação tiveram para aqui chegar, ponha as novas gerações a curtirem bué a obra de Zeca Afonso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Primeiro dia

Hoje é o primeiro dia de um conjunto deles que hão-de levar-nos até às eleições antecipadas.

O Presidente da República, que divulgou a decisão ainda antes de ela se justificar, terá de cumprir uma série de procedimentos constitucionais até à marcação do dia em que voltaremos às urnas. Nesse dia, a maioria decidirá o que nos reservará o futuro e, goste-se ou não, façamos parte dos vencedores ou dos vencidos, esta é a grande qualidade de vivermos em democracia.

Por vezes, na vida, vale a pena cair para nos levantarmos com mais vigor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A arte do possível

O circo é uma actividade cultural e recreativa com largas tradições em Portugal e no mundo, com áreas e formas de estar e de ser as mais diversas. Dos palhaços aos músicos, dos ginastas aos bailarinos, o espectáculo é diversificado, procura chegar a todos na diversidade de propostas, nas diferenças de gosto.

E, com maior ou menor dificuldade, lá vai conseguindo manter a tenda a funcionar, para gáudio de muitos, críticas de alguns e rejeição de outros. Para isso, todos os intervenientes, do mais importante ao mais humilde, tentam contribuir, procurando as melhores soluções para que o espectáculo seja o melhor e agrade à grande maioria.

Todos os artistas têm a convicção de que o óptimo é inimigo do bom e muito difícil de alcançar, principalmente se, no espectáculo, houver quem fuja às responsabilidades ou se balde ao trabalho. Todavia, no circo, o horizonte mantém-se e a força de o conquistar renova-se.

A queda de um equilibrista, a ausência da risada na piada que falhou, não impedem que o esforço continue, se possível se intensifique.

Se os princípios do circo passassem por S. Bento, talvez não tivéssemos espectáculo tão deprimente e conseguíssemos fazer um país melhor.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Lembro-me de que ainda antes de eu propriamente dar entrada nas instalações prisionais, nós ainda no gabinete do juiz que se preparava para me fazer as perguntas da praxe com vista à legalização da minha prisão, tinha entrado um ansioso procurador da República com a novidade de que a rádio acabava de anunciar que, por decisão do Governo, transmitida pelo Ministro da Cultura e das Artes Cénicas, o escritor Lopes Macieira ia ser homenageado com os célebres funerais de Estado, aquela paródia em que, depois de algumas leviandades pelo meio, como, por exemplo, missa de corpo presente, o caixão dirige-se ao cemitério ladeado por tropas de arma aperrada como se estivessem a defender o defunto de algum ataque iminente com vista a impedir que seja enterrado ... Ambos riram dessa maneira pouco canónica e algo descortês de falar, mas eu sequer sorri. No entanto, lembro-me realmente de logo ter pensado, Ele fica a dever-me esta honra! E como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, o procurador olhou para mim, sorriu e quase sem transição disse, Olhe, ele fica a dever-lhe essa grande honra, até hoje a muito poucos concedida!

Desta vez fiz uma espécie de um leve sorriso e apeteceu-me comentar que era uma grande verdade o que ele acabava de dizer, o Macieira ficar a dever-me essa honraria sem talvez a merecer, mas considerei que estávamos no meio de uma audiência judicial, ainda que no gabinete do juiz, e não seria de bom tom diminuir ainda mais a pouca solenidade do momento. O jovem que estava sentado ao meu lado, mandado chamar pelo juiz para me servir como meu defensor oficioso embora ainda não tivesse aberto a boca para coisa alguma, sequer para me cumprimentar quando entrou, é que disse quase a medo, O único escritor cabo-verdiano que até hoje teve direito a funerais de Estado foi Eugénio Tavares, que morreu em 1927.(...)

A confissão e a culpa
Germano Almeida
Caminho (2021)

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Aparências

Há despesas que não constam do orçamento familiar e, por isso, não se podem efectuar. A legalidade orçamental tem de ser cumprida, para que não haja surpresas e o défice não aconteça. Estão no grupo das coisas onde não se gasta dinheiro, as recuperações de algumas peças de madeira, que vão escurecendo com o tempo, ao contrário dos cabelos, que vão branqueando.

- Gostava de recuperar aquelas cadeiras. Torná-las mais claras. Ainda estão muito boas e ficavam mais bonitas.

A tarde estava agradável, sem muito calor nem vento, havia lixa e lixadora em condições, mãos à obra. Calmamente, que não há prazos a cumprir nem se corre o risco de o governo cair. Isso é lá para a capital, para as altas esferas e grandes cabeças. Necessário é que o trabalho fique bem feito e a contento.

Junto às grades do portão estava um dos quatro ou cinco emigrantes da Guiné, que vivem nos anexos da casa do vizinho da frente. Parecem ser gente pacata, bem disposta, sempre com um sorriso na cara e um andar bamboleante que extravasa musicalidade. No grupo há duas crianças que frequentam a escola, embora ainda tenham dificuldade em dominar a língua portuguesa. O rapaz, mais novo, traz sempre a bola para a rua e lá vai chutando e fazendo habilidades sozinho. As crianças que por aqui habitaram, há muito que saíram e, agora, só os netos e apenas de visita breve. A miúda deverá ter 11 ou 12 anos, cumprimenta sempre com um sorriso bem rasgado e lá segue, de viola às costas, a caminho da escola.

- Boa tarde, Não quero incomodar, mas o senhor também arranja portas?

- Não. Isto é só para me entreter. Não é a minha profissão ... 

- Desculpe. É que tenho a fechadura da minha porta avariada ...

- Tenho pena, mas não o consigo ajudar. De fechaduras não percebo mesmo nada.

Lá foi, à procura da solução que quem estava ali e parecia tê-la, afinal não lha deu. E ele que, na sua boa fé, pensou estar na presença de um operário especializado.  As aparências iludem ...

domingo, 24 de outubro de 2021

Mercearia e fanqueiro

A loja era enorme, pelo menos aos olhos de quem era pequeno. Vendia tudo e tinha, escrito a letras douradas num vidro preto que encimava os armários, o nome da firma e o seu negócio: mercearia e fanqueiro.

À entrada, do lado esquerdo, as tulhas da aveia, das sêmeas, do milho, e o corredor de lata, utilizado para encher o saco dos clientes. O balcão, de madeira trabalhada e envernizada, ocupava toda a largura da loja. Era altíssimo. Tão alto que os olhos só conseguiam ver o lado de lá se o curioso se pusesse em bicos de pés. O tampo também era de madeira, mas só até mais ou menos ao meio. Mudava para mármore no sítio onde estava a balança Avery, que pesava tudo, do grão ao feijão, da manteiga ao toucinho, dos rebuçados ao sabão, azul e branco, está bem de ver. A seguir, aparecia a medidora do azeite e, mesmo no fim, a faca, enorme, de cortar o bacalhau.

Tudo era embrulhado e nada embalado. Meia quarta de café, num pacotinho de papel pardo, dobrado na perfeição, para não se perder pitada. A mesma meia quarta, mas de banha, era colocada pela espátula de madeira no quadrado de papel vegetal e nele embrulhada, para receber depois uma capa do tal papel pardo e ser acabado o embrulho, dobrado com o requinte de quem sabe e o faz com gosto. O azeite era colocado na garrafa do cliente, e podia ir da meia dúzia de centilitros ao litro, sendo esta medida apenas acessível a quem já tinha uma carteira com alguma dimensão ou uma folha do livro com razoável extensão.

Na parede do fundo, em armários com portas de vidro, estavam guardados os tecidos e o material congénere, do cotim à sarja, da chita à flanela, os vários tipos de ganga, os botões, as meias de "fio de escócia", o elástico a metro e as linhas, em carrinho ou em bobina. Os tecidos eram vendidos a metro e, para isso, lá estava o metro de madeira envernizada, quadrado, com a marcação de cada centímetro a traço gravado e, a cada dez, um traço mais fundo e forte, com a indicação do respectivo número - 10, 20, 30, etc..

Numa outra divisão, contígua, havia a balança decimal, a medidora do petróleo, os sacos de batatas, as sacas de adubo e a tulha do enxofre, tudo convivendo com a recente cabina telefónica pública, que permitia as ligações para fora, pagando o preço dos impulsos registados no marcador instalado no lado de dentro do balcão, claro.

Ainda era assim há pouco mais de cinquenta anos. Já nada disto existe e ainda bem ...

sábado, 23 de outubro de 2021

Calhamaços

Terminei ontem as 511 páginas de "Águas passadas", mais um thriller de João Tordo, do qual não gostei tanto como havia acontecido com "A noite em que o Verão acabou", que tinha mais cerca de 150, concretamente 667, e que li há quase dois anos. Como o tempo passa num instante!

Neste momento, o livro "oficial" é o último de Germano Almeida - A confissão e a culpa -, que tem "apenas" 245 páginas e terá de ser lido, por compromissos que agora não importam, até ao próximo dia 3 de Novembro. Assim acontecerá, nem que, para isso, lhe tenha de dar exclusividade absoluta.

Num qualquer canto da casa, sempre acessíveis, estacionam as 999 páginas das "Memórias", de Francisco Pinto Balsemão e as 623 de "As Crónicas", de António Lobo Antunes. São dois livros que permitem a leitura de momentos, o primeiro por não ser difícil apanhar o ritmo em qualquer altura, o segundo por as crónicas já terem sido lidas em tempos idos e a leitura recordatória ser mais fácil, apesar de escritos por quem escreve de forma única, mesmo cronicando.

E, num salto de despedida do F(o)lio - termina amanhã - lá vieram mais uns quantos, que já se perfilaram na ordem e aguardam, calmamente, a sua vez.

Há gente muito tonta, que não tem mais nada para fazer nem outros sítios onde gastar o dinheirinho ...