segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Poço da morte


Por mais contraditório que possa parecer, era a verdade: Marlene ganhava a vida no poço da morte!

- Marlene da Silva, a melhor do mundo a andar de mota. Daqui a cinco minutos! Venham ver!

Os espectadores adquiriam o bilhete, subiam a escada e arrumavam-se no varandim, bem lá no alto e o mais perto possível da grade de protecção. No fundo do poço, a mota, caída, aguardava a entrada da estrela mundial do equilíbrio em velocidade, que haveria de pôr todos de boca aberta com as suas acrobacias.

O altifalante, meio roufenho, continuava o anúncio vibrante para despertar a vontade dos passeantes.

- Arrojo, audácia, desprezo pela vida. Compre o seu bilhete. O espectáculo começa dentro de instantes.

 No fundo do poço já estava um homem junto da mota. Levanta-a, dá ao pedal, o barulho e o fumo sobem pelas paredes de madeira, chegam ao varandim e assustam toda a gente. Com a mota a trabalhar, entra a estrela, com pose de diva, sai o anónimo, cabisbaixo e meio escondido. Marlene agradece os aplausos que recebe de toda a alta plateia, sacode os longos cabelos, faz vénias em todos os sentidos, acelera a máquina sem sair do sítio. Os altifalantes, cada vez mais roufenhos, anunciam:

- Vai começar. Quem comprou, vai ver. Quem se atrasou, espere pela próxima actuação, daqui a duas horas. Mas é melhor comprar já, antes que esgote.

E começa o espectáculo, primeiro devagar, depois a velocidade vertiginosa, sempre à roda, cabelos ao vento, a mota bem apertada pelas pernas, os braços firmes no guiador. Piruetas, saltos, idas abaixo e acima.

- Arrojo, audácia, desprezo pela vida. Cuidado, Marlene! Foi assim que seu pai morreu!

A mota quase bate nos espectadores, vai mesmo até ao final da parede, a emoção toma conta de todos. A aceleração é tremenda. O barulho ensurdecedor. O fumo engasga os mais ousados. Diminui o barulho, o punho deixa de acelerar, a velocidade baixa, a força centrífuga já não produz nenhum efeito, o espectáculo termina.

A Marlene sobreviveu. E o circo, conseguirá?

domingo, 26 de dezembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Chegou na noite de Natal, já está lido e arrumado. É verdade que é apenas uma pequena novela, com pouco mais de cinquenta páginas, mas há por lá muita coisa escondida, à espera de quem decifre, recorde ou reviva. Não sei se consegui, mas valeu a pena ler, como sempre.

(...) Apesar das voltas todas que a vida nos fez dar, tantos anos depois estamos, de certo modo, onde nunca deixámos de estar, cada um a pensar no outro, separados e nunca separados.

Vai-te lixar, Sasha, vai-te lixar mais a tua literatura, não era preciso inventares uma tentação no Norte nem uma conspiração que já passou, de quem já ninguém se lembra e a quem ninguém liga nada, querem lá saber da Resistência, cada um por si, o imaginário é outro, herói é quem andou a cortar orelhas em África ou quem está disposto a matar ciganos aqui, conta a tua história nas redes sociais e vais ver os nomes que te chamam. Já foste e já vieste. E assim se foi um tempo, uma cultura, um imaginário.

Se quiseres vir ter comigo não precisas de me pôr descalça numa praia do Norte, descalça e de cabelos ao vento, que é como estava ainda há pouco e vou voltar a estar depois de terminada esta, também tenho direito às minhas metáforas e a uma praia que talvez não exista lá onde tu dizes, ao norte do Norte, para ser mais bonito. Não se refaz a vida. O tipo sobre quem disparaste afinal não morreu, como já deves saber. Teve filhos e netos que talvez gostassem de ajustar contas contigo, já que com a instituição, a PIDE, as ditas ficaram por fazer. (...)

Tentação do Norte
Manuel Alegre
D. Quixote (2021)

sábado, 25 de dezembro de 2021

Animação de Natal

O Natal de 2021 está no fim. 

Saíram as visitas, fechou-se o portão, arrumou-se a sala, baixaram-se os estores, abriu-se a porta da rotina diária, que voltará amanhã.

O Natal irá regressar no próximo ano e espera-se que tudo se tenha composto até Dezembro voltar ao nosso calendário.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Bom Natal!

Com a devida vénia e sem autorização do autor, transcrevo a crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada hoje no Público.

"Ao fazer as compras para o Natal, parei diante da garrafa do meu vinagre preferido e olhei para os outros vinagres, para aqueles que não estava a levar e, sobretudo, para aqueles que de bom grado levaria, caso não houvesse o vinagre que eu queria.

Havia dois ou três. Depois olhei para os azeites. E para os vinhos. E para os queijos. E para os pães. Estão muito melhores do que eram há 50 anos. E não são só um ou dois que é preciso perseguir - ou conhecer alguém ou pagar os olhos da cara.

Uma das desvantagens de se ser conservador é que se atrai uma catrefa de reaccionários, que querem companhia para cantar o fado do "antigamente é que era bom".

Mas o que é que era bom antigamente? A saúde? A educação? A liberdade? O prestígio de Portugal no mundo? A fome?

Não é só a escolha de vinhos. Mesmo os vinhos piores, se fossem comparados com os piores de antigamente, seriam bons. Os piores vinhos de agora podem não ter qualidades, mas, em contrapartida, quase não têm defeitos.

Nos vinhos e nos azeites, tal como nas casas de banho em geral, há uma limpeza e uma higiene que antes não havia. E essa higiene não é só uma questão de produtos químicos e de dinheiro: está cada vez mais nas atitudes de cada um.

É Natal. No meio dos discursos interesseiros da catástrofe e do mal-a-pior lembre-se de todas as coisas que melhoraram.

Até para os pobres. Até para os ricos.

É verdade que, sem queixas, ameaças e catastrofismos, nada melhora, nada teria melhorado. Mas bem que podíamos fazer um intervalo, quando deitamos o azeite sobre o bacalhau, puxamos de um bocado de pão e damos um golo de vinho.

Ainda falta muito? Claro que falta. Mas também não convém termos pressa para termos tudo.

O que interessa - e encoraja - é que já faltou mais.

Bom Natal!"

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Presépio

Havia sido decidido pelos mais velhos que o presépio seria o maior de sempre.

- Ali, junto ao altar, aproveitando a reentrância da parede.

O Prior concordou e incentivou os jovens adolescentes a fazerem o trabalho com toda a dedicação.

- Vai ser o maior e o mais bonito, tenho a certeza. Vocês são impecáveis.

Atribuíram-se as tarefas, decidiu-se a quem cabia ir apanhar o musgo, quem fazia a caminha do Menino Jesus, quem arranjava o papel de lustro para recortar a estrela que iluminaria o caminho dos Reis Magos. O acidentado do "terreno" ficaria a cargo do carpinteiro, não o de Belém, claro, mas um outro que tinha muito jeito para montagens e já se havia disponibilizado para a tarefa.

Os elementos a utilizar na decoração são os que fazem parte do espólio da igreja, talvez com o reforço de mais uns quantos prometidos por alguns fiéis. O espelho que garantirá a ilusão do lago também já está assegurado e é proporcional à dimensão de toda a estrutura. Os patinhos farão sucesso, reflectidos na "água".

Tudo planeado. Mãos à obra. Um projecto "profissional" executado por "artistas" dotados. Sucesso garantido. Mas, não há bela sem senão ...

Ao ser colocada na gruta, a lâmpada ficava a ver-se, por ser grande, quando o que se pretendia era que ela apenas iluminasse e não fosse vista.

- Tenho lá em casa uma pequena, com o mesmo casquilho. Vou buscar.

A nova lâmpada não deu luz.

- Não está fundida. Lá em casa dava. Deve ser do casquilho ...

 A chave busca pólos estava ali à mão. Foi só pegar-lhe e tentar levantar a patilha do fundo do casquilho. Um estrondo, fumo e todas as luzes apagadas.

- Queimaram-se os fusíveis. Um curto-circuito. Isto não é trabalho que se faça com a luz ligada. São novos ...

O mal estava feito. Alguém foi chamar o electricista para substituir os fusíveis e o casquilho, e tudo se resolveu. O presépio foi o maior e o mais bonito, como era previsível, dada a qualidade dos "artistas".

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Alternativas

A altura não é favorável a grandes dissertações, nem a pequenas, quanto mais a insignificantes. Não adianta escrevinhar sobre isto, aquilo ou aqueloutro, sobre senhorios ou pinhos, fugas ou prisões, coronas, vacinas, testes ou confinamentos. 

É muito melhor ouvir música, da boa, de preferência.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Esperança

A época natalícia convida à paz, à solidariedade, ao entendimento, à diminuição das diferenças, à procura da sociedade mais justa e, se fosse possível, perfeita. Afinam sempre por este diapasão os votos que todos formulamos, com maior ou menor sinceridade. 

Infelizmente, os votos acabam por nunca se concretizar, mas nada impede, antes obriga, que mantenhamos viva a esperança de que um dia irá surgir a possibilidade de todos poderem fazer festas de Natal à sua escolha e em paz.


Carlos do Carmo faria hoje 82 anos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

BOAS FESTAS

Ainda não vai ser neste Natal que regressaremos à normalidade. Permanece viva a esperança de poder acontecer para o ano e isso, por si só, dar-nos-á a força para suportar a desdita que nos martiriza há quase dois anos.

Boas Festas a todos!

domingo, 19 de dezembro de 2021

sábado, 18 de dezembro de 2021

Pontaria

Para não fugir à normalidade, o cartoon de António no Expresso de hoje é mais eficaz e elucidativo do que um qualquer artigo ou comentário televisivo.

É muito feio ser invejoso, mas eu adoraria ter apenas um pequeníssimo jeito para desenhar e, nabo me confesso, nem de um risco direito sou capaz.