A bandeira simboliza a identidade da Europa, com o círculo das estrelas a representar a unidade, solidariedade e harmonia entre os povos, e o número delas - 12 - a ser o símbolo da perfeição e da plenitude.
Apesar disso, a guerra continua ...
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
A bandeira simboliza a identidade da Europa, com o círculo das estrelas a representar a unidade, solidariedade e harmonia entre os povos, e o número delas - 12 - a ser o símbolo da perfeição e da plenitude.
Apesar disso, a guerra continua ...
Hoje é o dia da minha mãe! Faria 99 anos e por cá continua a fazer companhia a todos os que foram seus.
Três anos passados, regresso do almoço da Escola, com a presença de mais de cento e cinquenta antigos alunos. A pandemia impediu que este grande evento fosse realizado nos últimos dois anos e condicionou o deste, ainda que todos fizessem os possíveis para tudo parecer normal.
O optimista dizia:
- Até que enfim, bolas. Tanto tempo a aguardar isto. Vamos divertir-nos. Comer, beber, dançar, conversar, recordar. Hoje é festa!
O pessimista respondia:
- Esperamos que tudo corra bem e que a próxima semana não nos traga notícias azedas. Aquele malfadado que nos tem acompanhado não deve ter vindo, julgamos nós, mas ...
O optimista interrompe:
- Não chames a desgraça. O "gajo" não pagou a inscrição, por isso, não entra!
A aula, talvez devido ao defeito físico do professor, que lhe trazia complexos, e à sua prepotente personalidade, decorria sempre debaixo de disciplina férrea. Nenhum dos alunos podia expressar-se sem ser questionado pelo mestre, não eram admitidas conversas entre eles, um simples olhar para o lado era reprimido de imediato. Carlinhos era um dos que estavam sempre debaixo da mira do docente e a admoestação surgia de imediato e de forma brusca.
- Vamos lá para o suplício do coxo ...
A atenção e a aprendizagem eram constantemente testadas pelo professor, com perguntas feitas de surpresa a todos os alunos, sem excepção nem aviso prévio. O Carlinhos vivia o pesadelo diário de ser um dos contemplados. Sabia bem que a sua desatenção habitual e a pouca apetência para a matéria o tornavam um dos alvos preferenciais. Valia-lhe o sussurro da Isabelinha, sentada nas suas costas e sempre disponível para lhe tentar colmatar as insuficiências.
- Carlos, diga lá como se chamam os ossos da perna.
- Tíbia e perónio, sussurou a Isabelinha.
- Tíbia e perónio, professor António, respondeu bem alto o Carlinhos, rindo-se para dentro da rima surpresa e ouvindo um risinho contido dos seus colegas.
O professor não ficou muito convencido do saber do Carlinhos e, nem cinco minutos passados, voltou à carga:
- Menino Carlos, quais são as partes em que se dividem os membros inferiores?
- Anca, coxa, perna e pé, disse muito baixinho a Isabelinha.
O Carlinhos ficou calado, fingindo alinhar ideias. A Isabelinha repetiu, mais perto e um pouco mais alto.
- Anca, coxa, perna e pé.
- Anda, coxo, põe-te em pé.
- Rua!
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Língua Portuguesa, com ou sem Acordo Ortográfico, pouco importa. O importante é que mais de 250 milhões de pessoas se expressam na mesma língua de base e produzem tanta coisa tão diferente e tão rica na diferença.
(...) felizmente que as avencas lhe cobriam a voz- Obrigado avencase o meu pai entretido a desenhar-me um relógio no pulso
- Se não páras quieta não consigo Marina
uma janelinha para o fim do mês
- Hoje não são dezoito são doze
- Faz de conta que são dezoito pronto
e envelheci uma semana, embora tivesse aferrolhado o ar pedi às avencas que me ajudassem dado que um dos cavalheiros
- Não há cá um gira-discos para as garotas dançarem? (...)
(...) O Cabo não se convenceu, levantou uma das pálpebras de Budião, que estavam fechadas, deu-lhe dois tapas no rosto, um pontapé de leve na canela.
- Não se mexe. Há quanto tempo ele está aí?
- Desde que chegou. Mas tem comido. A corrente do braço é calculada para ele poder segurar o prato e comer, eu mesmo calculei. Ontem comeu feijão com pé de porco, comeu tudo. Hoje foi que ainda não comeu, também ainda é cedo. Hoje eu ...
- Solte ele, desamarre. (...)
(...) Foi um dia de grandes trabalhos para Lídia. Trouxera uma bata, que vestira, atou e cobriu os cabelos com um lenço, e, arregaçando as mangas, lançou-se à lida com alegria, esquivando-se a brincadeiras de mãos que Ricardo Reis, à passagem, sentia dever usar com ela, erro seu, falta de experiência e de psicologia, que esta mulher não quer agora outro prazer que este de limpar, lavar e varrer, nem o esforço lhe custa, de tão habituada que está, e por isso canta, em voz baixa para que a vizinhança não estranhe a liberdade da mulher a dias, logo à primeira vez que veio trabalhar a casa do senhor doutor. (...)
(...) Simplesmente, Bambo não era um anfíbio qualquer. Embora modesto na escala animal, tinha a sua personalidade. Precatado, discreto, negava-se a cair nos braços do primeiro que lhe desse a salvação.
- Ora viva quem também anda acordado a estas horas!
Não respondeu.
- Na boa da conquista, está-se mesmo a ver! ...
Moita. Nunca dera troco a brincadeiras tolas. De resto, não andava às gatas, como o outro insinuava. Amores, só na primavera e na ribeira de Arcã. (...)
(...) Zana me deu a farda do filho; ficou frouxa no meu corpo e provocou risadas. Engoli as risadas; e devolvi a roupa antes de ser engolido pelos olhos de Zana, incapaz de ver a farda em outro corpo. E, graças a Halim, ingressei no Galinheiro dos Vândalos.
No liceu havia vestígios do Caçula: ex-namoradas, histórias de algazarra, de cenas heroicas, duelos, desafios. Nas paredes do banheiro havia inscrições de sua autoria. Por onde passava, deixava um gesto ousado, de valentia, ou um epigrama qualquer, palavras de humor e ironia. Eu cheguei a terminar o curso que ele havia abandonado no último ano. Na verdade, o Caçula não terminou nada, jamais frequentaria uma faculdade, desprezava um diploma universitário, ignorava tudo o que não lhe desse um prazer intenso, fortíssimo, de caçador de aventuras sem fim.
Halim e Zana pensavam que o filho doutor ia corrigi-lo, que cedo ou tarde a vida dura em S. Paulo podia domá-lo. (...)
(...) As mulheres conseguiram se safar, ou os caíngas não se interessaram por elas. Mas dois jovens foram encurralados e os polícias discutiam com eles, negociando certamente qual a parte dos telemóveis e relógios mudaria de mãos, para pagar a multa informal. Só viu os caíngas meterem coisas nos bolsos e virarem costas. Quando estavam a mais de vinte metros, os jovens espoliados gritaram, vocês é que são os ladrões, vão bardamerda, vamos votar contra vocês, esperem só pra ver, o vosso partido vai ser bassulado, viva a oposição radical, ao que os policiais nem ripostaram, apenas encolhendo os ombros. Entregaram um objecto a cada um dos fiscais municipais. Todos felizes, iriam transformar os produtos roubados em cerveja, sobretudo. Heitor sentiu, devia ter gritado como alguns populares fizeram, deixem lá os moços em paz, estão só a ganhar a vida deles, não estão a roubar nem a matar. Devia, sim, gritar e se indignar, já era altura de terminar essa pouca vergonha de polícias e fiscais corruptos.
Quatro anos é um pedaço de tempo muito pequeno. E, olhado de longe, parece relativamente homogéneo. Poderia dizer que foram sempre dias felizes, e de algum modo relativamente iguais.
Mas não estaria a ser exacto. Um dia, no terceiro ano, aconteceu algo diferente. Estava na mezzanine, embrenhado no trabalho, e não me apercebi de nada.
Só quando desci a escada, horas mais tarde, verifiquei que alguma coisa se alterara: enrolado num pano, em cima da tua saia, havia um gato muito pequeno. (...)
- Os fetos estão cada vez maiores. Podemos apanhá-los e ir fazer a cama às batatas.
Era assim: apanhavam-se os fetos, sempre os maiores, e fazia-se a "cama" para as batatas no espaço da casa que pudesse estar desocupado dois ou três meses. O soalho era coberto com os fetos e, por cima, colocavam-se as batatas novas, bem espalhadas para que não ficassem sobrepostas, cobrindo-se com uma nova camada de fetos. As portadas eram fechadas, para que a luz do sol não entrasse. O objectivo era impedir que as batatas grelassem para, assim, durarem o tempo necessário a serem consumidas. Eram retiradas, à medida das necessidades, com cuidado, para que os fetos não destapassem as que ainda ficavam a aguardar a sua vez de serem consumidas. Não havia, nem podia haver, desperdício. Com a comida não se brinca ...
Os velhos lembram-se de cada coisa. Alguém, com dez réis de testa actualizados, conversa a ligar fetos a batatas, a grelos e ao desperdício. Gente tonta. Qual é a necessidade? Está tudo ali, com saquinho, na primeira prateleira. É só puxar e pagar na caixa. Com cartão, claro!
Apesar de mais de dois anos passados em pandemia, complementada, nos últimos dois meses, pela entrada, no nosso quotidiano, da invasão da Rússia à Ucrânia, o calendário cumpriu-se e o mês de Maio chegou na altura devida. Abriu as portas ao regresso, tão esperado, do Verão, que nos há-de trazer vitamina D e bons mergulhos para aclarar as ideias, disso tão necessitadas.
Desde o início da pandemia que tem havido, diariamente, qualquer coisa por aqui, na maior parte das vezes insignificante, noutras talvez com algum interesse.
Não vou deixar que "postar" passe a ser uma obrigação, um dever, um objectivo. Já não tenho idade para isso, nem para encarar a vida como um cumprimento de ordens, situação a que nunca me submeti com agrado, embora tivesse acontecido muitas vezes. Agora já é tarde e nada a isso me obriga. Até me pagam o ordenado sem pedirem, muito menos exigirem, nada em troca.
A porta do "diário" vai continuar aberta, vou copiar os Diários, de Miguel Torga - que presunção!!! - e escrever sempre que me apeteça, quando me aprouver, desde que queira, agora ou logo, já ou amanhã, nesta semana ou na outra, sem obrigações, horários, vínculos ou rotinas.
Teimoso, como sempre, inteiro, como convém.
"Sempre no mês do trigo se cantará"
Para que a borracha não apague o passado nem o deixemos voltar, mesmo pretensamente actualizado.
A VAGA
Como toiro arremeteMas sacode a crinaComo cavalgadaSeu próprio cavaloComo cavaleiroForça e chicoteiaPorém é mulherDeitada na areiaOu é bailarinaQue sem pés passeiaMarSophia de Mello Breyner AndresenCaminho (Abril/2001)