sábado, 17 de setembro de 2022

Números e jogos

Os jogos de cartas são, sempre o foram e continuarão a ser, inúmeros e variados. De meros divertimentos sociais aos de batota, que faziam os mais distraídos ou menos hábeis perderem dinheirinho, havia, e há, de tudo.

Jogar à bisca lambida, à sueca, à canasta ou ao king fazia parte da actividade lúdica e era pretexto para encontros e conversas que se prolongavam pela noite dentro. Atravessavam todas as classes, ainda que a bisca lambida não fosse presença num serão de canasta. 

A lerpa, o montinho, o sete e meio, a bogalhinha ou a vermelhinha exigiam discrição e muito cuidado, não fossem as autoridades aparecer e estragarem a diversão, com a calma que lhes era habitual ...

Estas lembranças não serão alheias à escolha do número de porta abaixo "azulejado", por não parecer credível que a autarquia tivesse atribuído "meio" número a uma habitação. Nunca se sabe ... na mesma rua, há dois números "6" e não se vislumbrou ninguém que estranhasse o facto, a não ser um mero viajante sem mais nada com que se preocupar.




sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Evolução


A porta, também envidraçada, era, porém, estreita e dava acesso à oficina, também ela exígua. Estava sempre aberta e proporcionava uma vista "larga" para o conteúdo. O banco de trabalho era um pequeno tripé de madeira, onde o senhor D. se sentava, pressuroso, a cuidar das encomendas. Usava um bigode grosso, já bem mesclado de branco. Era bonacheirão e bem nutrido ou, como se diria hoje, com algumas adiposidades.

Com excepção dos breves instantes que demorava a deslocação à tasca, onde saciava a sede com um copinho tinto, dos pequenos, já se vê, estava sempre lá.

Ele e a sovela, a forma com três medidas, a cera, a linha, a faca sempre afiada. Fossem gáspeas ou meias-solas, protectores de biqueira ou brochas para proteger as solas, numa carreirinha toda à volta, tudo ele fazia ou consertava.

O senhor D. era sapateiro. Com a evolução que determina ser preciso mudar alguma coisa ainda que tudo fique na mesma, hoje seria reparador de calçado ou, com estudos, técnico superior de reparação de calcantes.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Sinalização

Expressiva e, tudo o indica, deveras eficiente, como é raro ver-se no país.

Não havia sinais odoríferos ou outros, evidenciando que alguém houvesse prevaricado e infringido o determinado por mão popular preocupada.

O sinal será candidato à nova versão do Código da Estrada.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Exercício...

... fundamental e garantidamente melhor quando enquadrado por profissional dedicado e competente.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Aulas

As minhas aulas sempre começaram no dia 7 de Outubro, após três meses de férias grandes, acessíveis apenas a alguns, anote-se. Outros aproveitavam-nas para irem treinando o trabalho que não tardaria a reclamar a sua presença em definitivo.

Esta invenção de diminuir as merecidas férias e dar início à estopada das aulas ainda Setembro não vai a meio, é muito recente e não se afigura de grande efeito. Basta ver e ouvir as notícias para perceber que há muitos alunos sem professor e muitos professores sem alunos, em resultado das doenças que os afectaram nos últimos dias.

Tudo isto acarreta dificuldades que não aconteciam no meu tempo, época em que os alunos eram "meia dúzia de gatos pingados", que gozavam bem as grandes férias ou conseguiam, mesmo não as gozando, atravessar os atalhos sinuosos que davam acesso à nesgazinha da porta de acesso à escada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Transformações

"... nada se perde, nada se cria, tudo se transforma."

O azul passa a cinzento e o verde a amarelo. Quem diria ...

domingo, 11 de setembro de 2022

Diversidade

Crianças choram ao colo,
Riem, nos jogos, miúdos.
Os velhos pisam o solo,
Na borda, peixes graúdos.

sábado, 10 de setembro de 2022

Surpresa

Aguarde só um momento!
Não vai poder passar!
Acontece casamento
E a testemunha é o mar!

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Escuridão

Os estores estão sempre corridos, as portas e as janelas fechadas. Vivem enclausurados em casa e passam dias sem dela saírem. Os contactos resumem-se a um meneio de cabeça, com um sussurro de saudação.

O "chefe", logo pela manhã, vai comprar o pão. Rapidamente regressa ao "paraíso", onde tudo se encontra blindado. A porta abre-se. Fecha num instante, não permitindo indiscrições internas. Se o carteiro ou alguém toca a campainha, abre-se uma nesga para ouvir o que o visitante tem para contar ou entregar. Tudo extremamente rápido, que há muito para fazer internamente.

À noite, o "chefe" pega no carro e vai dar uma volta, normalmente sozinho. Não demora muito! As luzes são apagadas ainda antes de o carro estar devidamente arrumado no quintal. Raramente a família sai em conjunto e, quando isso acontece, é uma aventura digna de registo. O chefe instala-se ao volante; uma das filhas traz um saquinho, que coloca na mala; a outra surge daí a pouco, com outro saquinho, que vai para o banco de trás; a mãe é a última a chegar, movendo-se com alguma dificuldade e trazendo mais um saquinho.

Com toda a gente instalada, o "chefe" põe o motor a trabalhar. Alto! Falta qualquer coisa! A mãe sai e o motor continua a fazer barulho. Por pouco tempo. O "chefe" acha a demora muita e a gasolina está cara. Desliga-o. A mãe regressa, sem nada nas mãos. Instala-se no "lugar do morto". Sai a filha mais velha. Não demora quase nada e traz mais um saquinho. Finalmente, estão reunidas as condições para a viagem e a marcha inicia-se. 

Regressarão à noite, já no sossego e com a reserva de que tanto gostam. 

A conta da luz deve ser enorme ou serão corujas?

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Palavras bonitas

   CRUELDADES

Sou da condição
do voo
vivo no gume da faca

na própria ferida
da ferida
se o poema desacata

E se as palavras invento
visto-as com os punhais
e os espinhos do pensamento

Evito silvas e frestas
as crueldades fatais
retiro o selo do lacre

Misturo o muito e o mais

Paixão
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2021)