quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Conversa fiada

Esta é uma crónica de um fictício debate, que não ocorreu mas podia ter acontecido numa qualquer televisão onde a actualidade assume o protagonismo, a primazia e a importância. Neste acontecimento não acontecido estão presentes o apresentador, a quem cabe fazer as honras da casa e dirigir a conversa, e três distintas damas que vêm fazendo furor nestes últimos tempos, a saber: a Senhora Doutora Guerra, ilustre gestora de conflitos, com influência conhecida e reconhecida em todos os cantos do mundo e, mais recentemente, na disputa entre a Ucrânia e a Rússia ou vice-versa, ou na invasão da primeira pela segunda, ou o que lhes aprouver; a Professora Doutora Inflação, com excelentes serviços prestados em vários países da América do Sul, e que resolveu regressar à Europa, para que os povos ditos e reditos como os mais bem instalados do planeta possam usufruir da sua larga e valiosa experiência; finalmente, a Desembargadora Taxa de Juro, única com direito à referência ao apelido de família, não apenas pela sua antiguidade mas, fundamentalmente, pela importância que detém na liderança das relações financeiras mundiais.

O apresentador dá as boas-vindas às presentes, agradecendo-lhes a disponibilidade para participarem numa discussão tão importante quanto necessária, e alerta para a necessidade imperiosa de as intervenções serem curtas e claras.

- O tempo, em televisão, é sempre curto e, por isso, partimos de imediato para o que aqui nos trouxe. Doutora Guerra, o que acha da situação que, actualmente, todos vivemos?

Antes de responder à sua pergunta, que agradeço, permita-me que cumprimente as ilustres participantes no painel e bem assim como a si e a todos os espectadores e espectadoras que nos seguem lá em casa, decerto com toda a atenção e interesse. Uma saudação especial para os animais de companhia, que não entenderão o que aqui vai acontecer, mas estarão atentos e deitadinhos no colo ou aos pés dos seus donos e donas. Quanto à situação actual no mundo, é difícil fazer uma avaliação pormenorizada, por ainda não ser possível conhecer todos os dados do problema, quais os interesses em jogo e o que poderá surgir de novo, com a evolução que já aconteceu e a que, por certo, irá surgir a breve trecho.

 - Muito obrigado, Doutora Guerra, pela clareza e pela capacidade de síntese da sua exposição tão clara. Dirijo-me, agora, à Professora Doutora Inflação, a quem questiono sobre se acha que o aumento de todos os bens veio para ficar ou é passageiro?

- Permita-me, em primeiro lugar, que saúde as minhas colegas de painel e faça minhas as doutas palavras proferidas pela Doutora Guerra, enfatizando, também, a saudação a todos os bichos e bichas que, em casa, estarão bem atentos e muito preocupados com o que, infelizmente, não vão ouvir esta noite. Em relação à sua pergunta, é claro para todos e todas que o aumento do custo dos bens, especialmente os essenciais, é preocupante e que o bom senso nos avisa para não se criarem alarmismos, que ainda viriam agravar mais a situação em que vivemos.

- Fico-lhe grato pela clareza e, como o nosso tempo está quase a chegar ao fim, apelo à capacidade de síntese que é, aliás, sempre seu apanágio, da Desembargadora Taxa de Juro, para que esclareça, a mim e principalmente aos nossos telespectadores: é ou não verdade que a Senhora pode vir a atingir valores nunca antes alcançados?

- Vou procurar ser sensível ao apelo para ser sintética, característica por si reconhecida e elogiada, o que muito agradeço, mas não posso nem quero deixar de prestar as minhas homenagens à qualidade científica e pessoal das minhas colegas de debate, de as cumprimentar efusivamente e a todos os telespectadores. Gostaria, ainda, de deixar expresso quanto me honra e apraz a participação neste debate, com assunto tão importante e gente tão ilustre. Quanto à sua pergunta, que agradeço e me permite prestar alguns esclarecimentos providenciais, devo dizer-lhe que ainda é muito cedo para alvitrar hipóteses, que seriam meras suposições carecidas de evidência científica e, por isso, pouco esclarecedoras. Como bem sabe, o mundo sofre alterações de minuto a minuto e a evolução do meu valor nunca foi constante nem linear, desde há muitos anos.

- E foi o debate possível. O nosso tempo chegou ao fim. Agradeço às insignes participantes o incómodo causado pela deslocação a este estúdio e também, e fundamentalmente, os brilhantes e esclarecedores contributos dados sobre temas que tanto nos preocupam hoje. Voltaremos na próxima semana!

E pronto. Com esclarecimentos deste nível, só não dorme quem é tolo!

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

República

 

Comemoram-se hoje 112 anos da implantação da República, embora durante este tempo houvesse uma parte, de quase meio século, em que o comando esteve nas mãos de um "monarca" sem pergaminhos nem sangue azul, e com tormentos que bem marcaram todos e todas, como agora se deve dizer.

Marcelo Rebelo de Sousa entendeu que era um bom momento para dar uma aula de História, assumindo a sua qualidade de conselheiro e de porteiro de portas que se irão abrir daqui a algum tempo, em função da alternância que a democracia encerra. Tem esperança que isso ainda aconteça no seu mandato, o que, decerto, lhe daria grande prazer.

Hoje, ao contrário do que aconteceu há alguns anos, o Presidente da República içou a bandeira nacional na posição correcta, talvez por ter presente o erro do seu antecessor e este não ter por lá aparecido, seguramente por estar preocupado com os bitaites que sente dever mandar, em vez de se deleitar com uns bons banhos na Praia da Coelha, com os cuidados devidos que a idade já aconselha.

VIVA A REPÚBLICA!

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Semelhanças

A senhora professora andava preocupada com o comportamento do Carlinhos. Há já muito tempo que não participava nos debates da aula, não emitia opiniões, não contava estórias, não dizia asneiras, e só respondia, apenas por monossílabos, quando directamente questionado. Estava muito diferente do Carlinhos anteriormente interventivo, muitas vezes inconveniente, crítico dos colegas, comentador verrinoso, falador pelos cotovelos.

Por isso, a senhora professora achou que daquele dia não passava e iria directa ao assunto, para resolver o problema de vez.

- O menino Carlinhos tem algum problema que, eu ou os seus colegas, possamos ajudar a resolver?

 - Não, senhora professora, respondeu secamente.

- Então porque não participa nas aulas como fazia antes?

O Carlinhos hesitou durante alguns segundos. Os olhos da professora fitavam os seus, acusadores e acutilantes. Aqueles olhos mantiveram-no quieto e sem hipóteses de fuga à pergunta.

- Cansei-me, senhora professora. A senhora sabe tudo, ensina tudo, tem razão sobre tudo, até sobre a necessidade de usar sobretudo no Inverno, veja lá. Como posso eu participar se a minha ignorância é imensa e, na grande maioria das discussões, qualquer frase que eu diga é mal entendida, gozada pelos meus colegas e por si recriminada.

A professora embatucou e precisou de algum tempo para se recompor. Não lhe ocorria nada que servisse para quebrar aquele ruidoso silêncio que se instalou. Foi o Carlinhos que deu a volta à situação:

- A senhora professora sabe a semelhança entre uma sapataria e o forno da minha avó?

A vontade da professora era calá-lo de imediato mas, depois de tudo o que tinha dito, não seria pedagógico. Rendeu-se.

- Eu não, mas o menino vai ensinar-me, claro.

- Na sapataria, há sapatos. No forno, a minha avó assa patos.

A professora corou e, de imediato, continuou a explicar a gramática, enfatizando que o grito "Não à guerra" é muito diferente da afirmativa "Não há guerra", embora se pronunciem da mesma forma.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Os pressupostos e as consequências da guerra pouco diferem ao longo do tempo. Quando este livro foi publicado (2017), "apenas" havia sido anexada a Crimeia, balão de ensaio para o que agora se assiste e não se sabe quando irá parar. A menos que ... 

"(...) Em 1972, fui mobilizado para Angola, para uma guerra que se arrastava penosamente desde Fevereiro de 1961. Um conflito que infectava o corpo do país como doença insidiosa. No silêncio do seu pus, traiçoeira, a enfermidade gangrenava as soluções futuras.

Apesar de todos os avisos da História, os políticos da ditadura esqueceram-se que as guerras devem ser ganhas rapidamente, antes que os militares se cansem e o seu entusiasmo se torne rotineiro, a sua paixão em enfado. E, quando tal acontece, aquilo que parece ser uma vitória óbvia acaba por empurrar os exércitos para inevitável derrota. Derrota que nem sempre é um revés militar mas a prostração moral que mina vontades e torna a vitória um destino nebuloso, indesejável pelo sacrifício a que obriga. A ilusão dos primeiros instantes transforma-se em penosa realidade. Às marchas heróicas sucedem-se hinos fúnebres, aos discursos laudatórios seguem-se orações de encomendação, os risos transformam-se em choro, os passos de dança em arrastar de pés atrás de urnas, a esperança em desespero, a energia em cansaço, o amor e a canção em soluço, o desejo em repugnância, as cores garridas dos vestidos das mulheres em panos de luto.

É o tempo da fuga e da revolta.

Paradoxalmente, a guerra é o pior inimigo daqueles que querem conservar os povos subjugados, o mundo imutável. Os que governam o planeta esquecem-se disso, parecem ignorar que este é composto de mudança, como cantou o vate, e que os conflitos apressam a transformação, acrisolam o corpo social. Despojada do conforto, a sociedade deixará de ser a besta aquietada para se tornar no monstro que escarnece do bom senso e se regenera pelo excesso. (...)"

Coleccionadores de sonhos
António Oliveira e Castro
Gradiva (2017)

domingo, 2 de outubro de 2022

Patos

Todos os patinhos sabem bem nadar ...

... nas águas calmas da Lagoa, com a gaivota a vigiar.


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Inventários

Passar por uma livraria é cada vez mais raro, dada a imensidão e facilidade com que se fazem compras por via informática. Porém, sempre que isso sucede, a tentação de entrar é enorme e a vontade faz o resto.

- Queria o livro ... e não o consegui encontrar.

Após uma consulta, a afirmação peremptória:

- Queria, não, quer! Temos dois e estão lá de certeza.

O equipamento consultado mantém o inventário actualizado e, por isso, seriam os meus olhos, velhos, a não vislumbrarem o que estaria à vista.

A menina, simpática, dirigiu-se ao sítio já por mim vasculhado e teve a mesma sorte. Não era dos meus olhos ...

- Ó F..., o computador diz que há dois ... e não estão ali.

- Vê na gaveta lá do fundo. Se não estiverem lá, estão no armazém.

Mais uns minutos e o regresso de mãos a abanar.

- Nós temos ... aguarde só mais uns minutos que eu já volto. Desculpe.

Fui lendo o outro livro que tinha escolhido (o que faltava era para oferta) e, claro, perdi a noção do tempo. Não faço ideia se foram cinco ou dez minutos. O relógio já me abandonou há tempos e o telemóvel estava, escurinho, no bolso.

- Peço-lhe muita desculpa mas, afinal, não temos. Alguém se esqueceu de dar baixa. Desculpe, mais uma vez, ainda por cima fartou-se de esperar.

Paguei o livro que estava nas minhas mãos já com várias páginas lidas, e saí. Meditei: o inventário não devia ser actualizado de forma automática? Se calhar não. Estou velho e não percebo nada destas modernices.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

A Tinta da China promoveu, no ano passado, um "Clube" de leitores do qual faço parte desde o início. Mensalmente, recebo um livro novo, ainda antes de esse livro ter entrado no circuito comercial, o qual circuito, diga-se, me parece ser cada vez mais restrito em qualidade e alargado em quantidade. A abertura da caixa que traz o livro, sempre acompanhado por uma "graça" de utilidade, cria alguma ansiedade, uma vez que não faço a mais pequena ideia do que irá surgir e estou (ainda) habituado a folhear quase todos os livros antes de os adquirir. Até aqui, têm sido sempre excelentes surpresas, que bem justificam a decisão tomada.

Há três dias recebi o exemplar deste mês. Nele,  António Mega Ferreira faz um roteiro por palavras perdidas no tempo, ordenando-as alfabeticamente, debruçando-se sobre a sua origem e divagando sobre as razões que as levaram ao desuso. O autor refere, no preâmbulo, que apenas utilizou 80 das 250 palavras que inventariou. Dei por mim a confirmar que o meu "computador" já colocou no seu "lixo" tantas palavras bonitas ...

"(...) FINEZA - Há mais de meio século era corrente ouvir, em qualquer loja da Baixa, pedir a fineza de, solicitar um obséquio, reclamar a bondade de. Eram tudo formas mais ou menos preciosas (estas eram mesmo preciosas) de pedir um favor, demandar um serviço, chamar a atenção. No tabuleiro dos rituais de interação social, tanto como as formas de tratamento ("você é estrebaria" era a condenação comum de uma forma que agora se tornou corrente, tal como há 50 anos previa Luís Filipe Lindley Cintra, no seu ainda hoje fundamental estudo Sobre Formas de Tratamento na Língua Portuguesa, publicado em 1972), as saudações e fórmulas de cortesia tinham uma gradação exigente, cuja valorização social classista sempre espreitava por trás da expressão utilizada. Aliás, Cintra sublinhava que a relativa maior complexidade das formas de tratamento no português europeu (o que é usado em Portugal) refletia uma hierarquia social muito rígida, definida e gradativa. Quando em 1974 se abriram as comportas do discurso e da interação, tudo isso foi varrido no lapso de uma geração. Antigamente, a fineza e o obséquio eram um suplemento de cortesia que mascarava um mal-estar social, uma espécie de insegurança no relacionamento com os outros. Normalmente, o seu emprego era desproporcionado em relação ao favor que se pedia. (...)"

Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas
António Mega Ferreira

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Rugas

Foi há 48 anos, tantos quantos durou a ditadura, que alguns quiseram que a primavera de Abril de 1974 voltasse ao Inverno do Maio de 1926. Felizmente, não conseguiram. A maioria não era silenciosa e fez barulho suficiente para que se encolhessem. 

Com outros paninhos, outras conversas mas, ainda assim, de dedo em riste, estão a (res)surgir alguns com saudades daquilo que, na sua maior parte, não viveram. E, por vezes, parece que têm alguma audiência ...

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Opções

Há muitos anos, quase no tempo em que os animais falavam, participei num colóquio, dirigido pelo jornalista Joaquim Furtado, sobre formas de fazer (ou não fazer) rádio. Era a época da ascensão das "rádios pirata" e, a dada altura, o jornalista deu a sua ideia sobre a condução de uma emissão de rádio e da manutenção do microfone aberto. Nunca mais esqueci o conselho.

- É simples. Se não tem nada para dizer, ponha música, de preferência boa.

Estou nessa situação. Por isso, música, se possível boa.