sábado, 25 de março de 2023

Lirismo

"Numa sociedade democrática, as leis têm de ser cegas, claras e iguais para todos. A nossa obrigação é tentar fazer com que isso aconteça."

Há quase meio século que aprendi esta formulação, sempre presente nas palavras do consultor jurídico a quem, na altura, dava apoio. Era um lírico, digo sem receio de o ofender, por já cá não estar e porque, hoje, encontrar uma lei clara, concisa e sem segundas intenções é quase tão difícil como achar a agulha num palheiro.

Era o tempo do voluntarismo, da pressa de resolver, da tentativa de criar a sociedade mais justa e mais feliz para todos. Hoje, todos esses sonhos se eclipsaram, e as influências, as cunhas, os interesses, voltaram em força, fazem parte do dia a dia dos actualizados e fecham portas aos que, líricos, pensaram um dia que o homem se transformaria e que o elevador estaria disponível para todos os que pretendessem a ele aceder.

Dois exemplos:

1. Com pompa e circunstância, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, visitou uma residência para estudantes, construída pelo esforço e empenhamento de privados, talvez com um pequeno apoio de moedas públicas, que pratica rendas entre os 700 e os 1.000 Euros mensais a cada um que para lá vá morar. Está bem de ver que, com estes preços, só não estuda quem é burro...

2. O arrastamento da decisão sobre o hipotético julgamento de José Sócrates, que evolui há quase uma dezena de anos, demonstra bem que os interesses, as habilidades, os jogos, e mais uma infinidade de vírgulas e pontos finais, conduzem a uma situação vergonhosa para a sociedade e para o acusado. 

Haja meios que o tempo vai conseguir resolver tudo e toda a gente ficará amplamente satisfeita e orgulhosa por viver num estado de direito, igual e acessível a todos.

sexta-feira, 24 de março de 2023

"Férias"

Tudo calmo, sem gritos nem ralhos. Ouvem-se os sons dos ecrãs controladores, onde são mostrados permanentemente vários indicadores, da tensão arterial ao ritmo cardíaco, passando por mais três ou quatro, de entendimento apenas acessível a quem sabe do ofício.

A diferença para o dia de ontem é enorme. Dos oito "convivas", três estavam baralhados, descompensados, sem saber onde estavam nem o que queriam, desconhecendo o dia da semana, o mês e também o ano. Tudo limpo, como se tivesse sido feito o reset. Gritavam, ralhavam, barafustavam, asneiravam, com todo o vernáculo conhecido há muito ... e a culpa era de quem os tentava ajudar.

A ciência e a persistência controlaram dois. O terceiro perdeu o controlo completo e partiu para a viagem que, de acordo com a versão de uma profissional sempre bem disposta e a quem as agruras pareciam não afectar, se acede com a Via Verde to the sky.

Em todas as experiências há dois lados, como acontece nas moedas: a cara, feliz, de quem começa a perceber que o dia vai ficar mais azul e terminará, ali, antes de o sol se pôr; a coroa, para os que tiveram acesso obrigatório à tal Via Verde, que garante transporte gratuito, sem identificador ou bilhete. Há uma terceira via, instável, que acolhe os que (ainda) estão na corda bamba e sem certezas para a direcção da queda. 

Ainda bem que correram comigo e regressei ao cantinho da Costa Mota, antes que as atenções que tive me alimentassem o sonho de por lá ficar.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Intervalo

Nem sempre as canetas escrevem, umas por falta de tinta, outras por terem tinta a mais. Com as novas tecnologias acontece a mesma coisa e a culpa é delas.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Palavras bonitas

Quem me ensinou a ler e a escrever e, por isso, eterna responsável pelas minhas irresponsabilidades nesses campos, de quando em vez lembra-se de espalhar as suas capacidades, agora utilizando esse grande rio de conhecimento que são as redes ditas sociais.

Num pequeno poema que publicou na sua página do Facebook, fazendo jus à sua capacidade de acompanhamento das novas tecnologias, a minha irmã mostrou que, quando quer, debita palavras assertivas e actuais e que o criador será, neste caso concreto, muito superior à criatura.

Dia da Poesia, diz a gente,
Outros mais, de hipocrisia
E de infâmia, mais certo,
Já que a "bomba inteligente"
Com sucesso (diz quem manda)
Varre as portas da Ucrânia
Aqui tão perto,
E mais além, noutra banda.

Dia da Poesia, utopia
Sem ter sorrisos nem Esperança
Crescendo, vendo só guerra,
Vivendo a dor que ela encerra
Nos olhos de uma criança.

Lurdes Sousa Santos
21.03.2023 

terça-feira, 21 de março de 2023

Saxofone

Hoje é dia de ouvir saxofone, aqui para criar ambiente, e lá fora, num dos espaços museológicos da sempre linda vila de Óbidos, para usufruir de algumas borboletas na barriga, postas a descoberto pela emoção que aparece sempre, mesmo sem ser convidada.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Sabedoria

De acordo com o que diz quem sabe, a Primavera chega hoje, lá pela boquinha da noite, talvez para não dar muito nas vistas ou sujeitar-se a algum assalto maquiavélico de uma série de mãos empunhando um microfone, ainda que protegido por um cálice de espuma.

Ainda quem sabe também disserta sobre a crise bancária que não irá acontecer salvo se ... acontecer. O Credit Suisse já foi absorvido pela UBS, faliram meia dúzia de "banquecas" nos States, mas certo, certo, é que nada disso afectará a restante banca europeia, como, aliás, se tem verificado em outras ocasiões.

Faleceu Rui Nabeiro e continuando a ouvir quem sabe, foi um empresário extraordinário que, de uma empresa quase nula fez um grande império, de acordo com o presidente da CIP, que nos inunda com a sua enorme sabedoria e experiência.

Rui Nabeiro dizia que os seus trabalhadores eram a essência das suas empresas. Na sua longa vida, deu-lhes formação, tranquilidade, apoio, confiança e, fundamental, disponibilizou-lhes os seus ouvidos atentos, sempre que foi necessário. Se todos reconhecem este mérito, poder-se-á perguntar a razão pela qual a grande maioria não imita.

Agora que Rui Nabeiro já não pode transmitir, de viva voz, o segredo, talvez fosse útil a muitos que fizessem uma leitura do "Almoço de Domingo", que José Luís Peixoto escreveu, deixando no papel e para a posteridade, um testemunho enorme de inteligência e humildade.

Abram-se as portas à Primavera, para que a Prima Vera e todos os seus pares que por aqui vivem, deixem de vegetar e sintam que, ao menos, uma florzinha a abrir-se e a dar-lhes esperança de aparecer melhor fruto.

domingo, 19 de março de 2023

Dia do Pai

Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.

FOLHINHA

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano, 
Outra flor, 
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outro flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Gráfica de Coimbra (1992)

sábado, 18 de março de 2023

Lembranças

A carreira de tiro estava situada a cerca de cinco quilómetros do quartel e a ela se chegava a pé, após um percurso deliberadamente escolhido, bem sinuoso e por caminhos que nem as cabras utilizavam. Se, nessa época, já existissem estas modernices dos relógios que contam passos e dão distâncias, surgiriam caminhadas de, pelo menos, o dobro.

Naquele dia, o treino era de tiro de G-3, individual e deitado. Dez garbosos recrutas deitavam-se frente aos alvos e, à voz de comando, puxavam o gatilho. No final, cada alvo era analisado e pontuado, contribuindo para a classificação final que iria determinar a ordem de mobilização para a guerra colonial, presente todos os dias como destino. Ao segundo tiro, a G-3 encravou e a bala não saiu. A aflição foi grande e o braço levantado pediu ajuda ao Tenente que comandava a instrução de tiro, conhecido como muito rígido, talvez por passar todo o dia fechado naquela espelunca onde só se disparava. Com a pressa de resolver o problema, o corpo rodou e a G-3 deixou de estar  apontada ao alvo e acompanhou o movimento.

A vardascada foi lesta e o correctivo verbal, recheado de vernáculo e bem alto, para todos ouvirem, soou de imediato.

- Ninguém aqui se pode esquecer que a nossa arma só faz fogo em frente ... Cada um de nós é parte de um todo e tem de ter isso presente em cada momento. Levanta o braço mas mantém a posição. Não esquecer isto, seus ...

As forças militares têm regras próprias e os "plenários" devem fazer-se antes da aprovação da ordem de operações. Depois, é executar o melhor possível e de forma a que corra bem para todos. Na operação não há discussão. 

Acabado o serviço militar obrigatório de triste memória para os que o tiveram de suportar, quem não quer, não pode ou não sabe ser assim, tem a porta da rua que é a serventia da casa, podendo escolher ser canoísta do Mondego ou mariscador de berbigão, mas não mais membro da tripulação de um NRP.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Carapaus

A vizinha tinha entrado sem ser convidada, como era costume. Os seus olhos não saíam da frigideira e o nariz parecia extasiado, se é que o apêndice que nos divide a face também tem emoções.

- Ora viva! Gosta de carapauzinhos fritos, de um dia para o outro?

A pergunta foi oportuna e surtiu um efeito trapalhão na resposta.

- Adivinhou. Adoro carapauzinhos fritos, sempre. Quanto mais pequenos, melhor, e bem fritinhos, para ser possível comer tudo, espinhas incluídas.

A compostura foi recuperada num ápice e os olhos riram-se, diante da perspectiva do petisco adorado e ainda por cima de borla.

- Ainda bem. Passe por cá amanhã, que eu estou a fritá-los agora.

A mulher fritava os carapaus adquiridos logo pela manhã. A peixeira, que percorria a aldeia com a canastra na cabeça sempre coberta pelo lenço enorme e bem ornamentado de cores e flores diversas, raramente trazia os carapauzinhos indicados para fritar. Era claro que o peixe comprado era pouco para a prole e, por isso, não era muito indicada a hospitalidade e a partilha. A prole era grande, adorava aqueles peixinhos pequenos, acompanhados de um arroz de tomate saboroso, como sempre.

A habilidade da linguagem transmitiu o recado, sem hostilizar nem criar qualquer sentimento de recusa. Como todos sabem, os carapaus fritos ainda podem ficar melhores no dia seguinte ... quando sobram.

O problema é que nunca sobram ... são tão pequeninos e óptimos.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Partidas e chegadas

Passam hoje 49 anos sobre a partida dos militares do (então) Regimento de Infantaria 5 em direcção a Lisboa, numa viagem que não concretizaria os objectivos, culminaria com a prisão de todos os envolvidos, mas ficaria como prólogo do 25 de Abril, que surgiria daí a pouco mais de um mês.

Também hoje se registam os 30 anos da partida de Natália Correia, escritora de quem me habituei a gostar há muitos anos e cuja irreverência e forma de estar sempre apreciei, e muito.

Ao registo das duas partidas teria sempre de corresponder, pelo menos, uma chegada. E assim aconteceu. Não esperava que o rigor da editora fosse tanto, mas hoje, pouco antes da hora do almoço, o carteiro (não o que toca duas vezes, que este conhece os cantos à casa e sabe bem o que deve fazer quando, ao simples toque na campainha, não lhe aparece ninguém) tocou e, em conjunto com a Visão e a Gazeta, entregou o embrulho registado, esperado e mesmo a tempo de ser hoje começado.

O Dever de deslumbrar - Biografia de Natália Correia, é um livro escrito por Filipa Martins, que traz o dever de deslumbrar os seus leitores e transportar muitos detalhes de uma vida cheia que a grande escritora teve. Pena ter sido tão curta. São "só" 695 páginas que irão ser lidas, creio, num ápice e sempre com deleite.