VARIAÇÕES SOBRE "O JOGADOR DO PIÃO"
Faz rodar o pião redondo tudo em voltaAtira a primavera e recupera o verãoTerras e tempos - tudo assume esse piãoque rodopia e rouba o chão à folha soltaRasga o espaço num gesto ríspido de vidaReergue o braço a prumo arrisca - nessa rodapossível da maçã ao muro - a infância todaTudo é redondo e torna ao ponto de partidaO sol a sombra a cal os pássaros os péso adro a pedra o frio os plátanos ... Quem és?Voltas? rodas? regressas? rodopias? - NadaMão do breve pião, levanta ao céu a enxadaPassa o proprietário e já não reconhecetalvez o operário inútil sob a messeTodos os PoemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 4 de abril de 2023
Palavras bonitas
segunda-feira, 3 de abril de 2023
Homofonia
Há muito que a senhora professora queria desafiar os seus alunos e levá-los à descoberta de situações específicas da língua portuguesa, que a tornam tão rica.
Naquele dia resolveu seguir o conselho do inspector do concelho com quem, na semana anterior, tinha trocado umas ideias sobre o que lhe ia na cabeça e sentido um apoio incondicional à ousadia, sem nenhuma objecção.
Depois de permitir que os meninos saltassem a barreira de buxo existente no recreio, aguardou que enchessem o bucho com o lanche da manhã e voltassem a entrar na sala de aula.
Já com todos refastelados nos respectivos assentos, dirigiu-se ao quadro negro e, pegando no giz, nele inscreveu a palavra VITÓRIA, não olvidando o necessário acento, fundamental para lhe dar o sentido pretendido. Disse-lhes que aquela era a palavra que serviria para premiar o aluno que, sem qualquer ajuda, conseguisse citar o maior número de palavras homófonas.
A sua voz foi clara quando proclamou:
- Sois vós que deveis tentar descobrir o maior número delas, num máximo de seis. A vitória será da turma, se todos conseguirem chegar ao resultado pretendido.
Os alunos sentiram que o desafio era enorme, tão grande como a hera que subia pelas paredes da escola e quase a cobria.
- Tenham bom senso em todas as respostas e tenham presente que eu farei o censo de todas elas com a maior atenção e informarei o inspector concelhio.
Os alunos mostraram grande excitação pelo desafio, que se apresentava muito diferente do que era habitual.
- As respostas devem ser escritas num papel, com o nome de cada um, e dobrado em quatro partes. Deverão colocar os papelinhos no cesto que se encontra na secretária e, ao sexto papel, a prova acaba. O objectivo é que todos respondam, pensando muito bem nas respostas que darão e tentando apenas utilizar as certezas que tenham.
O Carlinhos estava delirante. Lembrou-se logo que o paço do seu vizinho era uma construção enorme, com jardim e tudo, e que ele costumava sair de casa, logo pela manhã, em passo acelerado. Escrito e dobrado o primeiro papel, a tarefa tornou-se mais difícil e o Carlinhos segurou a cabeça com a mão esquerda, esperando que o lápis lhe desse outras hipóteses.
Pensou, coçou a testa, mudou a mão que segurava a cabeça e esta negava-lhe resposta. Com apenas um papelinho, ficaria entre os últimos, ele cuja ambição era sempre ganhar. Pensou, meditou e, de repente:
- A minha mãe esteve ontem a coser as minhas calças, enquanto, no fogão, o peixe estava a cozer para o jantar. Mais duas ... Faltam outras tantas.
Lá fora, o cavalo passou a galope. O cavaleiro ia bem sentado na sua sela, evidenciando o seu garbo equestre. Todos os alunos levantaram os olhos e invejaram o seu porte, a sua elegância e destreza, a liberdade de que usufruía. Só a professora conheceu o cavaleiro e sabia que ele tinha estado encerrado numa cela da prisão, de onde tinha saído nessa manhã.
Não disse nada. A tarefa foi concluída por todos mas nenhum conseguiu as seis palavras!
domingo, 2 de abril de 2023
Já era ...
O mundo está cada vez mais efémero. Não há tempo para digerir acontecimentos, opiniões ou imagens. Tudo chega num instante e parte no outro.
Ler jornais era, em tempos, saber mais. Já não é. Quando o jornal chega às bancas, as novidades já deixaram de o ser há muito. Tudo foi ultrapassado, analisado, desmentido, arrumado na gaveta mais funda que esteja disponível ou no canto mais recôndito que surja, sempre com a perspectiva de aparecer um espaço amplo que receba a novidade e esteja preparado para a abandonar de imediato.
O Dr. Google, a Wikipédia, os Influencers, Youtubers e quejandos têm, na ponta do dedo, a resposta para todos os problemas, questões, dúvidas, sendo essa resposta instantânea, certeira e sem margem para quaisquer discussões.
E toda a gente (eu incluído) manda bitaites, na busca incessante do protagonismo e do degrau que lhe permita subir, por pouco que seja, na escada da fama.
Por mais estapafúrdia, incoerente, mentirosa, falsa, estúpida ou parva que seja uma afirmação, haverá sempre quem, exibindo uma ignorância imensa mascarada de verdadeira eloquência, diga, afirme, escreva e teime que
- Tenho a certeza que é assim. Vi na Net!
sábado, 1 de abril de 2023
Mentira
Para não correr o risco de por aqui deixar algo em que ninguém acredita, o melhor é não escrever nada e muito menos opinar sobre algo do muito que por aí vai acontecendo.
Hoje é Dia das Mentiras, repetindo-se uma tradição velha e relha, com muitos anos a contar factos que o não são, acontecimentos que não se deram, propostas que nunca serão realidade. Não deve tardar muito que esta palavra também seja eliminada do léxico do comum dos mortais e que os novos cultores da língua a substituam por outra mais charmosa e menos agressiva, como, por exemplo, dia das inverdades.
sexta-feira, 31 de março de 2023
Cumprimento
Cidadão sempre atento às notícias, obtive informação de que a entrega do IRS já estava disponível, ainda que o prazo determinado só se inicie amanhã. Nestes tempos de fake news e de incertezas, o melhor é verificar se é verdade ou não passa de uma atoarda para entreter papalvos e encher chouriços.
Fui ver, não a neve que caía do azul cinzento dos céus como dizia o poeta, mas se o sistema se abria à minha identificação fiscal e me proporcionava o acesso publicitado. Apareceu a informação. Era uma (des)agradável surpresa, ainda que eu estivesse prevenido para ela. Enfim, malhas que o império tece, de novo parafraseando outro poeta.
Executei os procedimentos indicados e confirmei. Já lá mora e, agora, basta esperar calmamente que me indiquem qual o prazo que tenho para largar o pilim. Se fosse dependente da minha vontade, não me importava de assumir o compromisso de pagar daqui a 20 anos. Assinava papel e tudo ...
Longe vão os tempos de preenchimentos manuais, papel químico, fila na repartição, conferência de facturas, etc., etc.
A tecnologia simplifica tudo. Sem espinhas!
quinta-feira, 30 de março de 2023
Partida
Um, dois, três, quatro ... cinco minutos de Jazz!
Acabou! José Duarte partiu hoje e o jazz perdeu um dos seus grandes divulgadores e conhecedores. Em apenas cinco minutos, era tanto o que se ouvia e aprendia! Em sua memória, ficam cá por casa 4 CD's editados em 2006, aquando dos 40 anos do programa de rádio que o celebrizou e que era o mais antigo no ar. É uma recolha meticulosa, como o era o seu autor.
Fica ainda uma colectânea de poesia com referências à música de jazz, organizada em parceria com Ricardo António Alves, da qual "saltou" esta pequena amostra.
INCONFIDÊNCIA MINEIRA
Tem dois escravos Padre Toledo:José Mina, que toca trompa,Antônio Angola, rabecão.O padre mete-se no rocamboleda insurreição.A Real Justiça levanta o braçoda repressão.Engaiola o padre na fortalezade São Julião.Confisca os músicos, confisca a trompae o rabecão.Música-gente, crioula músicaduas vezesna escravidão.Carlos Drummond de AndradePoezz - Jazz na poesia em língua portuguesaAlmedina (2004)
quarta-feira, 29 de março de 2023
Embirrações
Há coisas que me fazem fernicoques e com as quais embirro solenemente. Não sou infalível, longe disso, mas o descuido, a falta de rigor, o desleixo, os erros ortográficos, fazem-me pele de galinha e dão-me vontade de abanar os colarinhos dos responsáveis ... apenas durante alguns segundos, claro.
Nos noticiários de ontem e de hoje, várias vezes escutei que o navio NRP Mondego foi rebocado, em consequência de uma avaria tida quando se deslocava, em missão, para as Ilhas Selvagens. Acontece que a palavra navio está a mais no texto e quem escreveu a notícia não cuidou de ser rigoroso. As iniciais NRP são comuns à designação de todos os navios da Armada e significam Navio da República Portuguesa, dispensando, por isso, a repetição. Quem leu também tem alguma culpa, mas enfim ...
Para ajudar a "azia", dirigi-me hoje à entrada de um grande espaço comercial e, numa das portas, estava este mimo:
"Agradeçemos que utilizem outra porta, porque esta está avariada"
O corrector ortográfico estava desatento, quem mandou escrever não verificou, quem escreveu estava distraído.
A culpa é dos telemóveis. Emitem notícias sem parar e a grande maioria das pessoas dobram o pescoço para mirarem as novas e nem reparam no que se passa à sua volta. Só os picuinhas se exasperam com estas minudências ...
terça-feira, 28 de março de 2023
Consciência
A experiência de vida ensina que, por muito má que a atitude se mostre, deverá pôr-se em equação a hipótese da existência de alguma coisa que traga, não a justificação, mas o motivo para que a perda das estribeiras aconteça.
E quem, por muito ponderado que seja e bem educado que tenha sido, pode atirar a primeira pedra?
Os que estudam, conhecem e entendem o comportamento humano - não é o meu caso, humilde ser sem atrevimentos nesse ramo do saber - conseguem explicar os motivos que levam um qualquer ser humano a perder a noção do certo e do errado, do bem e do mal e a comportar-se de forma tão violenta que culmina na morte do outro.
Não há nenhuma justificação para um indivíduo matar duas pessoas e ferir mais algumas, como hoje aconteceu no Centro Ismaelita de Lisboa. A primeira reacção, perante a notícia, é de condenação clara, com a esperança de que a Justiça, não ressuscitando os mortos, castigue exemplarmente o criminoso. Daí a pouco, alguns pormenores vão acordando outros pensamentos e abrindo caminhos para outras avenidas de culpa, que podem ter contribuído para a criação do cenário que levou à desgraça.
O assassino é um refugiado afegão, que fugiu da guerra no seu país, acompanhado da mulher e de três filhos menores. Na caminhada que o trouxe até à beira do Atlântico, perdeu a mulher na Grécia. Chegou a um país distante, desconhecido, com cultura e língua completamente diferente, onde foi instalado e passou a viver, com os filhos, do apoio que lhe era concedido.
Não justifica o acto, mas deve deixar muita gente de consciência intranquila e a pensar que não deverá ser pelo aumento das capacidades militares que se resolvem os problemas no mundo.
segunda-feira, 27 de março de 2023
Teatro
Comemora-se hoje, em todo o mundo, o Dia Mundial do Teatro.
O Teatro da Rainha, como sempre, assinala a data, repondo, no pequeno auditório do CCC, a peça "Discurso sobre o filho-da-puta", de Alberto Pimenta. Pelo país fora, há muitos outros espectáculos, com toda a gente que intervém, trabalha e gosta de teatro, a tentar cativar cada vez mais espectadores para esta actividade cultural antiquíssima, fundamental para o crescimento, o saber e a diversão de todos nós.
O ano de 2023 ficará para a história das comemorações bem sucedidas e com uma divulgação adequada, feita por ilustres representantes da nação, além-fronteiras e com três dias de antecedência.
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa deslocaram-se à República Dominicana, onde participaram na 28ª Cimeira Ibero-Americana. No intervalo dos trabalhos e de alguns mergulhos nas águas cálidas caribenhas, resolveram antecipar as comemorações e levar à cena uma peça que bem podia ter como título "Cenas da vida conjugal", sem necessidade de aquisição de bilhetes e disponível para todo o mundo que tinha, naqueles momentos, a televisão ligada. Os que não estavam disponíveis ainda poderão ter acesso, graças às novas tecnologias play.
E foi bonito de ver como o teatro faz milagres, não com o "simples vestido preto" da saudosa Ivone Silva, mas sim com as camisinhas brancas e compridas, distribuídas pela organização da cimeira. A encenação foi impecável, os dois actores estiveram muito convictos do papel que desempenharam, o texto era adequado e assertivo.
As palmas batidas no mundo inteiro não puderam ser ouvidas pelos dois actores em cena, circunstância que os deve ter deixado um pouco tristes, sabendo-se que essa é a grande recompensa de quem pisa um palco.
domingo, 26 de março de 2023
Flores
Convive, de perto, com as roseiras, as hortênsias, uma fileira de framboesas, alguns jarros e meia dúzia de sardinheiras. A ginjeira, mais afastada, ocupa um espaço que já foi seu, dominando a parte final da "álea". Marca bem a sua qualidade de "habitante" mais antiga do jardim e, como a antiguidade é um posto, controla toda a área, exibindo a sua autoridade sem peias nem cedências.
Faz questão de florir antes de todas as outras que lhe fazem companhia, e já vai dando possibilidades às abelhas de recolherem a matéria-prima que há-de ser transformada em mel e ir adoçar a boca a muita gente. E cada vez há mais gente a precisar de ter a boca doce ...
Chama-se glicínia. Por aqui vive há mais de três dezenas de anos e, de novo, já exibe os seus cachos bonitos e bem cheirosos, provando que a Primavera está instalada e a praia quase a chegar.
É muito bonita a minha glicínia!

