sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

De "A" a "D"

Apesar de ser desnecessário, António confirma, no Expresso de hoje, que uma imagem vale mais que mil palavras.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Regresso ao passado?!

E se, de repente e como por magia, tudo andasse para trás 50 anos?

Dirão uns, saudosistas das capacidades físicas: Maravilha! Voltava a alegria e a loucura dos "vintes", nada fazia mal e não havia chuva que molhasse nem frio que rachasse; acrescentarão outros, mais racionais: Não havia dores, nem sono, nem pressa e tínhamos tudo "à mão de semear" ... excepto o que não tínhamos.

Cada vez são menos os que viveram há meio século e disso têm lembrança de "experiência feita". Não conseguiram, ou não quiseram, contar à geração seguinte, nascida depois de 1974, como eram aqueles tempos e como tudo se transformou. Talvez não tenham procedido da melhor maneira e a omissão esteja longe de ter sido a atitude correcta, mas aconteceu assim, na grande maioria.

E agora, espantados, ouvimos gente que subiu degraus de uma escada que não existia, deu muito trabalho a muitos e foi bem difícil de construir, apesar dos defeitos, a gritar que "dantes é que era"! E falam grosso, como quem quer comer microfones, gritando impropérios e frases sem nexo, como se os decibéis da voz fossem suficientes para terem razão e sabedoria.

"Valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés!"

domingo, 7 de janeiro de 2024

Domingo

Com frio, nota-se melhor a calma da ausência do vento, o azul da inexistência de nuvens, tudo marcado pelo chilrear dos pássaros nas margens, pelos corvos marinhos abrindo as asas para aproveitarem o quentinho ... do sol.

A beleza da Lagoa, sempre, e a gaivota, desfrutando, bem instalada, o conforto do "hotel" Coelho e Rola.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Calor em tempo frio

O tempo era, ainda, o das escrituras serem um acto solene, num Cartório Notarial estatal, com hora marcada e presença sem atrasos da parte de quem era parte, com uma única excepção - o Notário. Era ainda o tempo das escrituras manuscritas pelo próprio Notário ou dactilografadas pelo Ajudante, na máquina de escrever Messa.

Sentados à volta de uma mesa, grande, com cadeiras bem desconfortáveis e na ordem pela qual outorgavam, os intervenientes aguardavam a chegada do Notário, que iria ocupar a cadeira, maior e com almofada, situada no topo. A primeira tarefa do Notário era verificar os documentos de identificação dos intervenientes não seus conhecidos, após o que iniciava a leitura do texto, não sem antes recomendar que o interrompessem se alguma coisa não compreendessem ou estivesse incorrecta. No final, após a menção das eventuais rasuras, a ordem prévia determinada para sentar, servia para que a última folha fosse passando e recolhendo a assinatura de cada um. A assinatura do Notário encerraria, depois de inutilizar todos os espaços em branco.

Naquele dia, era mais uma escritura de compra, venda e empréstimo, estando presentes: o casal comprador, os pais, fiadores, o administrador da empresa vendedora da fracção e o representante do Banco. Estava muito calor lá fora e o ar condicionado do Cartório ainda não passava de miragem. O representante da empresa vendedora vinha atrasado, muito acalorado e ainda deve ter ficado mais quente quando se sentou, a aguardar, com o Ajudante a dar-lhe sinal do atraso. A camisa vinha aberta até ao cinto, com o peito, peludo, à mostra e um ar de machão importante, ciente de que os seus poderes até podiam criar janelas de fresquidão ...

A Notária entrou, passou os olhos por todos e nem se sentou.

- Vá vestir-se em condições. Isto não é a praia. Lá para fora!

Enfiado, saiu. Deve ter ido ao carro ou ao escritório. Regressou pouco tempo depois. A camisa vinha abotoada até acima e um casaquinho compunha o ramalhete.

A escritura fez-se sem mais comentários e o homem, pelo menos naquelas em que, a seguir, comigo participou, apresentou-se sempre de camisa, gravata e casaquinho ... abotoado, não fosse o diabo tecê-las! 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Balanço 2023

Todos os dias leio (n)um livro. É uma das tarefas que ainda vou executando, das que me dão grande prazer e que nunca me cansam, muito embora os olhos já não tenham a mesma capacidade e obriguem a apêndice.

Com mais ou menos entusiasmo, livro pegado é livro mantido até à última página, mesmo quando as expectativas são defraudadas. Quem o escreveu e o editou merece que, pelo menos, quem lhe pega lhe dê o uso para que foi concebido. Sempre até ao fim ... mesmo que, dalguns, felizmente poucos, se diga: tempo perdido!

Cumprindo a tradição, fica o registo das capas dos que me passaram pelas mãos e pelos olhos em 2023, sem quaisquer preocupações de ordem ou de destaque.

Foram lidos, pronto! E neste ano de 2024 virão muitos outros, espero eu!



domingo, 31 de dezembro de 2023

Ciclo

2023 está a despedir-se e não aparenta ter motivos para partir tranquilo e satisfeito. Não soube, não quis ou não pôde tratar da melhor forma os acontecimentos que lhe calharam em sorte. É certo que, em todos os seus antecessores, há coisas que correram menos bem, expectativas que saíram goradas, objectivos que não foram atingidos. Também muitos houve que deixaram marcas indeléveis na história, triste, deste mundo que, muitas vezes, parece uma barata tonta sem rei nem roque.

A invasão da Ucrânia está quase com dois anos e o fim não parece próximo, a não ser que, entretanto, falte a "gasolina" a um dos contendores; no Médio Oriente, aos olhos do leigo sentadinho na cátedra do sofá, tudo parece indiciar que o fim também está longe e deixará mais marcas impossíveis de esquecer em todos aqueles que conseguirem sobreviver.

Aqui, neste rectangulozinho à beira-mar desenhado, as vicissitudes do costume, ampliadas e repetidas até à saciedade por uma nova forma de fazer comunicação, massacrante, descuidada e, muitas vezes, desesperadamente estúpida. Às gémeas, coitadas, não lhe bastava o sofrimento físico e ainda as fizeram arcar com a responsabilidade de toldar as relações entre um pai, extremoso, e um filho, distraído mas muito preocupado com os outros; a senhora Procuradora Lucília Gago, a quem a tartamudez do apelido deve ter impedido a clareza e a reserva, dissolveu, na vertigem de um parágrafo, aquilo que os eleitores haviam destinado para ser consumido em quatro anos; a decisão obrigou à marcação de novo acto eleitoral e o "árbitro" marcou o "jogo" para 10 de Março (qual é a pressa?); nos Açores, as "comadres" desentenderam-se e, como mais vale cedo que tarde, o mesmo "árbitro" marcou a final do "jogo" para Fevereiro, provando que, afinal, esta coisa dos prazos é como o elástico: estica e encolhe conforme a vontade do seu detentor.

Se tudo correr dentro da normalidade, haverá, em 2024, eleições para a Assembleia da República e para o Parlamento Europeu, para além das regionais açorianas. Esperemos que os resultados não defraudam nem ensombrem a festa do meio século de Abril.

BOM ANO! 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Inverno

Noite escura, portas e janelas fechadas, lareira a crepitar, livros e música.

E ainda há quem não goste do Inverno!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Observemos um caso concreto bem documentado e que já atrás aflorámos. Em 1742, o nosso rei D. João V teve um AVC, então descrito como um <<um estupor que o privou dos sentidos e ficou teso de toda a parte esquerda, com a boca à banda>>. Enquanto o rei repousava no real leito rodeado de pagelas, de mitras, de rezas e de estatuetas de santinhos, o que faziam os seus médicos? Sangraram-no, claro, e deram-lhe, à laia de primeiros socorros, uma infusão purgante de açafrão, <<xarope áureo>> (provavelmente uma mixórdia feita à base de açúcar de cana) e <<pós cornichos>> (desconhecemos o que seja). Depois, reuniu-se uma junta médica para fazer o diagnóstico, na qual se incluíam todos os físicos e os cirurgiões do paço.

Uns diziam que a causa de tal achaque (os termos <<trombose>> ou <<AVC>> nunca são referidos) se devia ao costume que o monarca tinha de dar despacho depois de comer; outros defendiam que tal sucedera porque o rei era guloso; outros garantiam que tal fora causado pelo facto de o monarca beber água do Chafariz d'El-Rei (que era o principal chafariz de Lisboa, lembre-se); uns tantos acusaram os cirurgiões reais de serem os culpados do ataque, por cobrirem as úlceras das pernas de el-rei com unguentos à base de ouro. Por fim, a opinião dominante foi a que afirmou que o ataque fora provocado por um tratamento à base de essência de Ambarum griseum (essência de âmbar), mistela que era dada ao monarca como afrodisíaco e espevitante sexual ... 

A decisão final da junta médica foi parar a aplicação desses remédios todos e enviar o rei a banhos termais para o Hospital das Caldas da Rainha. (...)"

Sérgio Luís de Carvalho
Das tripas coração
(Saúde, Higiene e Medicina no tempo dos descobrimentos)
Minotauro (2023)

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Sorte

Uma troca ou alguma desatenção própria da época trouxe ao Oeste um livro em duplicado, deixando outro sem direito à viagem aprazível que, pela certa, adoraria fazer. O contacto telefónico resolveu a questão.

- Não tem problema. Amanhã ou depois a carrinha passa por aí e recolhe-o. Entretanto, vamos enviar o correcto de imediato.

O diálogo ainda prosseguiu com as desculpas pelo sucedido, os votos da época e o "disponha sempre" para fechar.

A programação foi cumprida. A campainha tocou e o estafeta, já conhecido, apresentou-se a recolher a encomenda, que havia entregado alguns dias antes.

- Oi, sinhô Orlando, como vai?

- Bem, obrigado. E o senhor?

- Muito cansado, muito mesmo ...

- Começou cedo?

- Saí de casa ainda não eram seis ... e só vou chegar bem perto das nove, se tudo correr bem.

Notava-se que precisava de uma pausa, para desabar, desanuviar, descansar, falar com alguém que o ouvisse.

- Todo o dia é isto ... descanso ao Domingo. Imagina quanto ganho?

- Não faço ideia e nem quero dar palpite.

- Não chega a setecentos e vinte limpos ...

- Claro que sobram dias todos os meses ...

- Vai ser só até ao final do ano. Já arranjei outra coisa. Vou continuar a trabalhar muito, mas pagam um pouco mais ...

Um sorriso aberto, talvez por o ter ouvido, ainda que de sobrolho franzido.

- No Brasil era pior. E ainda consigo, de vez em quando, mandar para lá algum ...

Sentou-se ao volante da carrinha, despediu-se com um aceno prolongado e um sorriso interminável.

- Boa sorte, foi tudo o que consegui dizer.