quarta-feira, 12 de junho de 2024

Síntese

Esta época de arraiais, sardinhas, noitadas, casamentos, feriados e pontes, este ano reforçada com as eleições europeias, traz sempre à memória um "retrato" fabuloso  de nós todos, da autoria de Carlos Paião.

Viveu pouco tempo, mas deixou marca indelével.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Palavras bonitas

estes poemas que chegam
do meio da escuridão
de que ficamos incertos
se têem autor ou não
poemas às vezes perto
da nossa própria razão
que nos podem fazer ver
o dentro da nossa morte
as forças fora de nós
e a matéria da voz
fabricada no mais fundo
de outro silêncio do mundo
que serão eles senão
uma imensidão de voz
que vem na terra calada
do lado da solidão
estes poemas que avançam
no meio da escuridão
até não serem mais nada
que lápis papel e mão
e esta tremenda atenção
este nada
uma cegueira que apaga
a luz por trás de outra mão
tudo o que acende e me apaga
alumiação de mais nada
que a mão parada
alumiação então
de que esta mão me conduz
por descaminhos de luz
ao centro da escuridão
que é fácil a rima em ão
difícil é ver se a luz
rima ou não rima com a mão

Poemas canhotos
Herberto Helder
Porto Editora (2015)

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Visões

Estamos em Junho e cheira a Verão. O sol brilha, o vento está tranquilo, escondido e talvez a preparar-se para as habituais visitas em Julho e Agosto. Os dias são compridos, proporcionando mais luz à borla e sem necessidade de interruptor.

Vê-se tudo ... ou talvez não. 

Não se vislumbram sinais de paz na Ucrânia ou na Palestina, ouvem-se baboseiras, muitas, na campanha para as eleições europeias, que está na última semana. Todos têm soluções para tudo. Até eu!

E só pode ser verdade. O Face trouxe, o Insta mostrou, o X comentou. A difusão tornou-se "viral" e o contraditório fica, na maior parte das vezes, reduzido ao boçal insulto. Os jornais são cada vez menos lidos. As televisões deixaram de "fazer" notícias e passaram a comentar tudo e mais um par de botas.

Estou preocupado, mas deve ser da idade. Que outras razões haveria?

Lisboa e o resto do país têm cada vez mais hotéis, pensões, residenciais, alojamentos locais. Aumenta o número de pessoas que nos visitam, em qualquer época do ano. Os trabalhos mais duros são assegurados por pessoas vindas de todo o mundo, em busca do paraíso lusitano.

E eu, meio cegueta, vejo mais gente a dormir na rua. Será por prazer?

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Celebrações

Ontem, Zelensky visitou Portugal, com brevidade mas com tempo suficiente para uma assinatura com Montenegro e um jantarinho com Marcelo. Todos exprimiram a nossa solidariedade para com o povo ucraniano, flagelado por uma guerra injusta, como são sempre as guerras, aqui, na Ucrânia, em Gaza ou na Cochinchina.

À noite, a solidariedade foi transformada em euforia pelo candidato Bugalho, que exprimiu a opinião clara e inequívoca de que essa visita era motivo de festa e de celebração. Será possível erguer taça à continuação das guerras?

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Fácil ... ou não!

O objectivo era pintar o móvel. 

Definir as tarefas e o caminho crítico para as executar, era prioritário; reunir os materiais e as ferramentas necessárias, fundamental; estudar meticulosamente a estratégia a seguir, obviamente imperioso.

Plano teórico traçado, reunido o material, definido o local, colocado o cartão para salvaguardar o soalho, procedeu-se à desmontagem necessária para que a obra fosse realizada a contento e não houvesse espaços que não adquirissem a nova cor.

- Vai ser fácil e vai ficar bonito!

As portas foram desmontadas, as prateleiras e as gavetas retiradas, e colocadas nos cavaletes que iriam facilitar o trabalho, poupar as "cruzes" e ajudar a que tudo corresse bem.

E correu! Dado o primário, tudo parecia encaminhar-se para a beleza pretendida e as duas demãos da tinta acetinada indicada pelo homem da loja culminaram a maquilhagem. O móvel parecia novo, qual boneca saída da "recauchutagem" ou boneco objecto de um lifting.

A secagem decorreu dentro da normalidade e no tempo previsto, aproveitando o dia solarengo e a ausência de humidade. Era chegada a hora de remontar tudo e dar ao móvel condições para brilhar na sua função, com uma nova cara, linda, diga-se.

As prateleiras e as gavetas não ofereceram qualquer dificuldade para se reajustarem ao local que sempre fora o delas. Com duas das três portas aconteceu o mesmo e tudo parecia encaminhar-se para um final em beleza. Mas ...

A terceira porta, teimosa, resistiu, resistiu, resistiu ainda mais uma vez e outra, outra ainda. Nova estratégia de abordar a introdução nas peças e o aparafusamento. Nada! Sempre torta! 

- Está quase!

Não estava nem esteve. A teimosia de uns leva à desistência de outros. Foi o que aconteceu. Já foi pedida a ajuda de quem sabe da "poda" e que, na certa, coloca a teimosa porta em "menos de um fósforo"

"Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?" 

domingo, 26 de maio de 2024

Trabalho

Hoje é Domingo.

Para uns, a faina está prestes a terminar ...

enquanto que, para outros, a coluna vertebral ainda se continuará a dobrar!

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Quanto mais sei, maior é a minha ignorância, "gritava" um professor que tive no ISCAL, há muitos, muitos anos. Quase todos os dias (para não dizer todos) confirmo esta grande verdade. E, neste livro de Martim Sousa Tavares, confirmei-o uma vez mais, como se isso fosse necessário.

"(...) Para analisar a cultura e aprender sobre ela, é preciso fazer como fazem os cientistas: colher uma amostra, isolá-la e estudá-la separadamente, avaliando depois o ambiente de onde foi retirada e integrando o mosaico do seu contexto alargado.

Aos jovens é frequentemente dito que são uma geração desprovida de cultura, quando na verdade não há nada de mais errado. Nunca existiu uma geração sem cultura e, se alguma houvesse, não seria certamente a de quem é jovem nos dias de hoje. Aquilo que há são portas por abrir e pontes por construir. Existem, de facto, muitos jovens que são alheios a aspectos da cultura que as gerações mais velhas consideram fundamentais, tal como existem cada vez mais pessoas envelhecidas que não compreendem nem se relacionam com a cultura dos jovens. A equação funciona para os dois lados e nenhum tem maior culpa. Simplesmente é como é. A vertigem de um mundo em permanente digitalização vai fazendo com que, mais do que nunca, se rompam laços entre quem fica dentro e quem fica de fora, quem vai à frente e quem fica para trás.

No fundo, o que importa é não perder o ânimo: aproximar e misturar culturas, e promover a permeabilidade da nossa superfície social. Não negar a ninguém o direito à auto-representação, mas também não esconder que seria bom que mais pessoas tivessem a capacidade de ler com sentido crítico, ouvir com uma escuta atenta e respeitar o silêncio nos momentos certos. Todos temos cultura, sim, mas melhor do que isso é sair de casa e ser participante activo na vida cultural da nossa comunidade. Todos temos cultura, sim, mas ninguém a tem em quantidades tais que se possa dar por satisfeito e fechar as portas ao mundo. (...)"

Falar piano e tocar francês
Martim Sousa Tavares
ZigurateZigurate (2024)

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Dureza

Pesa quase quarenta quilos, de acordo com as especificações técnicas que o acompanham, num panfleto em várias línguas, para servir toda a gente. A embalagem deve dar-lhe, pelo menos, mais cinco quilitos. O destino é um primeiro andar, alto, cujo acesso se faz subindo quatro lances de escada ou utilizando um dos elevadores.

A campainha toca. 

- Venho entrêgá o forno!

O trinco eléctrico cumpre a sua função e abre a porta. O vídeo mostra um homem maduro - talvez quarentão - a colocar qualquer coisa que a impeça de fechar. Sai do ângulo de visão. Regressa daí a pouco, alcachinado, com uma caixa, enorme, às costas. Não ouço o elevador e desconfio. Será que vem pelas escadas, penso. E veio mesmo. Sem qualquer ajuda. Chega exausto.

- Me ajude só a equilibrar o forno. Vou-me abaixando, divagar. Lhe agradeço.

- Podia ter vindo no elevador.

- Pois ... mas era difícil tirar o forno das costas sozinho. E pensava ser um só lance ... custou pra caramba!

Forno colocado no sítio, a assinatura e a despedida, com pressa, que há muitas entregas e a tarde só agora começou. Simpático, como são (quase) todos os brasileiros, desejou saúde e agradeceu.

Se tivesse um ordenado proporcional ao esforço, ganharia uma fortuna ... Talvez seja um daqueles que ainda não conseguiu obter o papel da AIMA. Não perguntei. Não deu tempo para conversa de "chacha". Ainda assim, estava lá bem claro "um sorriso de orelha a orelha"!

sábado, 18 de maio de 2024

Futuro?!

A Assembleia da República está a descer de nível e a subir de interesse ... graças às "brilhantes" intervenções que, todos os dias, fazem lembrar as tabernas de antigamente, quando já muito vinho tinha sido consumido.

O interventor-mor tem as câmaras sempre em cima e a companhia de quase meia centena de seres dotados de sapiência sem limites nem comparação. A maior parte deles faz lembrar o bonequinho chinês a acenar a cabecinha ou, melhor, a cabeçorra.

Já não são apenas os ciganos, os pretos e os homossexuais que precisam de ensinamentos de quem sabe. A preocupação com o "mundo" é tal que até os turcos já são destinatários das loas do predestinado.

Eça de Queiroz referenciava os "deputados de cu"; se fosse vivo, decerto não olvidaria os "deputados-bonecos".