sábado, 12 de abril de 2025

Sonhador

Sempre actual!

Que a viagem seja marcada com brevidade e a nave encha, com tarifas nos bilhetes!

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

Antes de perceber bem o que estava a acontecer - tudo o que te conto parece avançar aos saltos, eu sei, como uma pantera que desmaia e volta a falar no exato momento em que acorda -, já estava a caminhar pelas ruas estreitas daquele lugar. Os estrangeiros que nos levavam procuravam que caminhássemos o mais rapidamente possível. As ruas eram desenhadas como linhas que separavam os vizinhos uns dos outros. Muito brancas, cobertas de palha, as casas de um lado olhavam para as casas do outro lado. Era muito estranho.

Achei, além disso, as casas muito coladas umas às outras, muito diferentes das da minha aldeia, que tinham espaço entre si. Infelizmente, antes de ter tempo de as poder observar com atenção, já tinham desaparecido.

Não é bem que não tenha tido tempo. Andar com os ferros nos tornozelos custava muito, muito mesmo, e jamais me poderia habituar àquilo. Apenas conseguia dar passinhos miúdos e titubeantes. Mal avançava uma perna, ela era dolorosamente travada pelos grilhões, tinha de fazer avançar a outra, e assim por diante. Em vários momentos pensei que ia cair. É muito difícil aprender a andar presa. Além disso, de pé, os ferros marcavam-me de outra maneira, golpeavam-me os tornozelos mais do que até aí, e ainda não achara forma de suportar aquela dor nova. Retraía a perna cada vez que ela avançava um pouco, pois logo recebia a facada das grilhetas. As minhas pernas eram martelinhos tontos espetados por canivetes.

Com as nossas cabeças amarradas umas às outras por um cabo, obrigavam-nos a andar todos ao mesmo ritmo, o que na prática era impossível. Sentia medo de tropeçar a cada passo, ou que aparecesse uma pedra na qual não tinha reparado, ou um buraco onde poderia cair. Tinha de concentrar-me no chão.

- Concentra-te no chão. Concentra-te no chão. Concentra-te no chão.

O mel sem abelhas
Judite Canha Fernandes
Gradiva (2025) 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Rotinas

Saiu do emprego  e aguarda-o a tarefa diária, que lhe deve dar muito prazer e, quase de certeza, o faz mais feliz do que o dia de trabalho burocrático concluído há pouco.

Deve ter em casa um pequeno armazém de alimentos para gatos, aos quais se dedica com grande afã e carinho, mas apenas aos da rua ou aos que a frequentam. Ainda antes das seis já mudou de roupa, pegou no carrinho das compras e lá vai ele. Corre as ruas do bairro, salta muros, invade quintais, compõe cartões que servem de abrigo ao frio das noites, muda a água dos recipientes, coloca comida nova. Os bichanos conhecem-no bem e esperam, ansiosos, a sua chegada, sentados à beira dos locais onde, sabem, o benfeitor aparece.

Lá pela hora do telejornal, regressa a casa, andando bem mais devagar do que no começo, cansado. O saco está vazio, o ego vai, de certeza, bem cheio.

Amanhã repetirá a tarefa!

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Água

Em Abril, águas mil!

Amanhã, de acordo com as previsões do IPMA, haverá mais. E quão necessária ela é e sempre foi, todos o sabemos. Má, má, é a que muita gente mete ...

Era um mentiroso compulsivo. Mesmo quando a estória era verdadeira, contada pela sua língua tinha sempre um pontinho da sua lavra, inventado ao momento e debitado com o ar mais sério do mundo.

A "plateia" conhecia-o bem e sabia o que a casa gastava. Dava-lhe uns minutos de atenção, durante os quais ele esticava o peito, olhando bem lá ao fundo, no infinito, onde a paisagem lhe abria o cérebro. As estórias eram sempre corriqueiras, mas ele entusiasmava-se e ocupava o "tempo de antena" sem largar o "microfone".

- E não querem saber o que aconteceu ontem quando ...

- Já na semana passada, o Fulano tinha feito ... 

A paciência começava a esgotar-se nos ouvintes. Todos sabiam que ele exultava com aqueles discursos e, tirando isso, não era "mau diabo", mas ... já chegava. Um, mais descarado, começava a arregaçar as calças e a exibir as canelas nuas.

- 'Tás a gozar? Não acreditas? Olha qu'eu não minto ...

- Todos sabemos que, mais ponto menos traço, tu dizes sempre a verdade. Porém, "cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém". E, assim, a água que estás a meter só me molha os sapatos e as meias!!! 

domingo, 6 de abril de 2025

Realidade ?!

Com o mundo "tarifado" pelo homem da popa, vamo-nos entretendo com os preâmbulos da campanha eleitoral que, a 18 de Maio, há-de determinar quem assumirá o poder nos próximos quatro anos, se ...

Há sondagens para todos os gostos e opções, opiniões muito bem fundamentadas com o enorme saber de todos e de cada um, comentários a esmo, certezas absolutas sem hipóteses de serem contrariadas. No tal dia, a noite trará a tradução da vontade dos que se derem ao trabalho de ir fazer a cruzinha. Apesar da manipulação a que está sujeita, será determinante e a única que vale ... por enquanto.

Nessa noite, alguns comentadores "sabões" meterão a "viola no saco", outros exultarão com a alegria de terem acertado na opinião espremida e exprimida antes, o que lhes garantirá a respeitabilidade futura e a continuação da "cátedra".

Desaparecerão o Bolhão e o betão, o abono de família e o IRS, as rendas de casa, os trabalhadores e o povo, até que a nova Assembleia se instale nas cadeiras de S. Bento e se regresse à rotina.

Qual o futuro Governo? Ver-se-á depois! Prognósticos, como dizia o outro, "só no fim do jogo" ...

sábado, 5 de abril de 2025

Palavras bonitas

ELDORADO

Galhardo e galante,
    Um cavaleiro andante,
Ora ao Sol, ora ensombrado,
    Há longo tempo seguia,
    Em alegre cantoria,
Procurando o Eldorado.

    Porém, velho se faz
    Cavaleiro tão audaz -
E o seu coração, pesado,
    Se tolda - pois não achou
    Terreno por onde andou
Que parecesse o Eldorado.

    E quando então, finalmente,
    Se depara, já descrente,
Com um peregrino vulto -
    Lhe pergunta: <<Ó sombra errante, 
    Diz-me tu, onde se oculta
O Eldorado distante?>>

    <<Sobre as Montanhas
    da Lua,
Descendo o Vale Ensombrado,
    Vai, galopa com bravura>>,
    Lhe responde a sombra escura,
<<Se procuras o Eldorado.>> 

Obra Poética Completa
Edgar Allan Poe
Tinta da China (MMXXV)

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Cores

O horizonte a provar que "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe".


quarta-feira, 2 de abril de 2025

Regresso

De regresso à base, tudo como dantes, até o quartel em Abrantes ... e a chuva, que parece ter ido de férias na mesma altura, voltou hoje. Invejosa!

Afinal, decorridos estes (poucos) dias de ausência, o problema de Montenegro mantém-se por esclarecer; Marcelo continua a comentar tudo e a pedir a paz entre a Federação de Futebol e o Comité Olímpico, cujos "comandantes" estão a dar lições de desportivismo sério e exemplar; o homem da popa amarela lá vai "tarifando" e "ordenando" o fim da guerra e dos livros de que não gosta.

Mas houve mudanças bem agradáveis: o jardim está mais florido, anunciando a chegada da Primavera; nas ginjeiras vão surgindo muitas folhinhas verdes; apareceram morangos bem vermelhinhos. Confirma-se, uma vez mais que, pelo menos em parte,  "o mundo é composto de mudança".

sábado, 29 de março de 2025

sexta-feira, 28 de março de 2025

Arte

O corvo visita todos os lugares e acompanha as visitas. À falta de melhor, até as mãos erguidas em prece pela mão, brilhante, do artista, servem para descansar um pouco e apreciar uma grande paisagem museológica.