sábado, 14 de junho de 2025

Percepções

Por muito que se tente assobiar para o lado, sentir o vento norte a refrescar o corpo que se deslocou à praia, pela manhã, em busca do sossego contido no marulhar das ondas; ir lendo algumas páginas do livro actual, adivinhar o que é o almoço, estender o olhar em busca da Berlenga enevoada, as notícias surgem sempre em primeiro plano e sem compreensão possível, para quem não é dotado da capacidade explicativa de tanta gente que vai debitando razões que a razão desconhece.

Está (re)aberto mais um conflito, com Israel a dizer que vai destruir a capacidade nuclear do Irão e este a invocar Deus para o ajudar a eliminar do mapa os israelitas, num jogo de mísseis e drones sem contemplações nem olhos.

Parece ser lá longe, mas a distância é pouco mais que um tirinho, quando uma parte de nós está lá, a fazer fronteira com um dos beligerantes.

Vai passar ... Quando e como?

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Zé Povinho

Passam hoje 150 anos da primeira "notícia" que o Zé Povinho, nascido das mãos de Raphael Bordalo Pinheiro, produziu e publicou. Seguiram-se muitas outras, sempre em cima da actualidade e bem mordazes.

Se ainda por cá andasse, o "Zé" teria muito papagaio com que se entreter diariamente.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

A Barraca

Não tenho pena de Maria do Céu Guerra, porque ela é uma guerreira e lutará, como sempre fez, contra os energúmenos que querem o regresso a um passado reles e de má memória.

A minha solidariedade com os actores d'A Barraca pouco vale, mas eu quero continuar a ir lá ver teatro de qualidade indiscutível e, sobretudo, com a liberdade criativa que é apanágio daquela casa há meio século.

terça-feira, 10 de junho de 2025

10 de Junho

Ao ouvir, hoje, o resumo dos discursos de Lídia Jorge e Marcelo Rebelo de Sousa, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, lembrei-me de um estudo que a minha filha me ofereceu e sobre o qual falei aqui, já lá vão uns anitos.

O estudo indica que, como qualquer português, tenho raízes que vão da Ásia, passam pela África, viajam pela Europa e "aterram" aqui, neste "jardim à beira-mar plantado". 

Se, ao invés de nos preocuparmos com as origens, a cor, a religião de cada um dos que por cá habitamos, muitos em condições miseráveis e vergonhosas, procurássemos colaborar na integração de todos, sem preconceitos, ódios, invejas e aproveitamentos vis, talvez conseguíssemos um Portugal maior e mais feliz.

"Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
 A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante.
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter inveja."

Os Lusíadas
Canto X (final)
Luís de Camões

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Liga das Nações

Mais um dia grande para o futebol nacional, com a selecção principal a conquistar a Liga das Nações pela segunda vez, contra as perspectivas desenhadas pela crítica sabedora. E foi muito bonito de ver a capacidade de Nuno Mendes, numa equipa que procurou sempre, com "ganas", vencer "nuestros hermanos".

domingo, 8 de junho de 2025

Tempo ... de praia

(Re)começaram as conversas da praia, acompanhadas pela nortada "fozeira", acentuando as dificuldades de audição que vão aumentando à medida que o tempo percorre o caminho inexorável ... para o aparelhinho do Goucha.

A água, ao contrário do que acontecia há uns anos, está muito fria, o sol anda fraquinho, a camisola aconchega o tronco dos conversadores  presentes e não parece nada incomodada com isso. O banho fica para a próxima.

Ainda é cedo, que diabo. Nem sequer há banheiro ... Calma, que vai ser bom ... verão.

- E o vento, ai, o vento está bem pior que o ano passado.

Falou-se da inteligência artificial, da falta de sentido crítico, das eleições, dos apertões de Marcelo, de abortos e desmanchos, do que era e do que é, do que lá vai e do que estará para chegar, deste e daquele, disto e daquilo. Tudo tratado e nada resolvido, como sempre.

- Começou a chegar a "fauna" da tarde. Está na hora de a "Cacilda" ir tratar do almoço. Até amanhã ... se o tempo quiser!

sábado, 7 de junho de 2025

Palavras bonitas

No desvario
Do sonho me socorro
E nele percorro
O denso frio
Da distância,
Os delirantes lugares da demência,
A delicada fragância,
A seda e o brocado
Desenhando o fulgor e a fluorescência
Do teu corpo semeado
De azul e maresia ...
Meu castelo de vento,
Meu portento, Meu mar sulcado
E para sempre arado
De louca fantasia! ...

Pequena elegia em busca de Moad
Lino Sebastião
cordel d' prata (2025)

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Paz e lirismo

E se, de repente, começasse a surgir alguma coisa com nexo daquela cabecinha amarelada que comanda os destinos americanos, gritaríamos todos:

- Milagre!

Desenganem-se. Não vai acontecer, por muito desejável que seja e muitas rezas ocorram. Continuaremos a ouvir muitas "bacoradas" e um sem número de alarvidades que trazem à memória a frase do antigo seleccionador nacional de futebol Luiz Filipe Scolari:

- E o burro, sou eu?

A guerra, que tinha o destino traçado, terminaria mal ele sentasse os glúteos no sofá da Sala Oval e nunca teria começado se ele se tivesse mantido como chefe da nação naquele acto eleitoral tão festejado no Capitólio, afinal continua, agravada, e sem fim à vista. A faixa de Gaza está quase em condições de serem iniciadas as obras do resort de luxo, faltando apenas acabar com os palestinianos.

Entretanto, o cavalheiro holandês que apelidou os portugueses de gastadores e boémios, pede encarecidamente que todos os países aumentem a sua contribuição para a NATO e, ao que tudo indica, o nosso já está a escarafunchar no mealheiro para lhe fazer a vontade.

Como toda a gente sabe e a história confirma, a solução é aumentar o esforço militar e deixar que essa coisa da paz se mantenha como uma miragem dos líricos.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

Biblioteca acima das possibilidades de leitura

Uma biblioteca cheia de livros que não foram lidos - sabendo que muitos deles nunca o serão - é uma biblioteca enorme, porque contém em si a semente da possibilidade. É imensa porque inclui desejo. Quem a criou tinha um desejo acima das suas possibilidades, e isso define o leitor: a sua ambição. Nunca concretizaremos plenamente os nossos desejos, mas o tamanho da biblioteca pode evidenciar o tamanho da ambição e, por reflexo, o tamanho do leitor. Um leitor tímido terá um ou dois livros por ler, um leitor ambicioso terá logicamente mais. Em japonês, existe uma palavra para a pilha de livros por ler: tsundoku.

Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros por ler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta.

Children's afternoon at Wargemont, 1884 - PIERRE AUGUSTE RENOIR
O vício dos livros II
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2025)

domingo, 1 de junho de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por norma, a leitura não tem uma gratificação imediata e contraria as nossas características gregárias, isolando-nos dos outros e do mundo, impondo algum silêncio, exigindo atenção, concentração e, como se tal não bastasse, obriga ao esforço da descodificação. Ao contrário de outras formas de arte, como a música, a pintura ou o cinema, a leitura não se oferece directamente à sensorialidade - exige um processo cognitivo, converter letras em cenários mentais, converter letras em vozes, rostos, emoções e paisagens. Ler dá trabalho. Essa exigência torna a leitura uma arte activa, mais próxima da tradução do que da fruição imediata, e, talvez por isso, quando funciona, seja tão poderosa: porque é o leitor quem completa a obra. A leitura é uma arte de co-autoria.

Sendo difícil ultrapassar os primeiros obstáculos que a própria leitura impõe aos seus possíveis futuros amantes, as medidas para aumentar o número de leitores têm resultados tíbios. Repare-se que esse número deveria ter aumentado estrondosamente com a diminuição da iliteracia, mas tal não se verificou. Nunca houve um entusiasmo esfuziante com a leitura; pelo contrário, sempre foi um fenómeno sóbrio, que vai tendo mais leitores, é certo, mas de forma lenta, ou muito lenta. De todos os que foram alfabetizados, poucos se tornaram leitores assíduos. (...)"

O vício dos livros II
Afonso Cruz  
Companhia das Letras (2025)