sexta-feira, 13 de julho de 2012

Palavras bonitas

O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

domingo, 8 de julho de 2012

Carta aberta ao Ministro Miguel Relvas

Senhor Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares
Excelência

De acordo com as notícias desta semana, verifiquei que V. Exª. contribuiu para que as estatísticas do nosso Portugal nos apresentassem condignamente junto dos países que nos fazem companhia na União Europeia.

Já lá vai o tempo em que éramos conhecidos pelo analfabetismo e pelas limitações culturais endémicas. Agora, somos um país com uma população desenvolta, determinada, culta e com habilitações ao nível dos melhores.

O referido anteriormente é apenas a constatação de factos e isso, por si só, não justificaria que me dirigisse a V. Exª.. A razão que me leva a abusar do seu precioso e ocupado tempo surgiu-me por me parecer que, figurando nós já em belíssimo lugar, poderemos ser ainda melhores e, quiçá, atingirmos o primeiro lugar nas estatísticas do nível académico. Para isso, basta que V. Exª. emita uma "cartita" para cada um dos trabalhadores portugueses com um currículo pelo menos idêntico ao que permitiu a V. Exª. a obtenção duma licenciatura, grau académico tão importante quão necessário (para as estatísticas, mas não só ...), transmitindo-lhes como conseguirão ultrapassar a burocracia e a necessidade, mesquinha, de estudar para poder aprender e prestar provas, mostrando aquilo que se sabe.

Para que as coisas possam ser feitas com o rigor que se impõe, V. Exª. poderá exigir a todos os interessados na "cartita", que respondam a um breve questionário destinado a aquilatar o nível de conhecimentos de cada um e o curso mais adequado ao seu perfil.

Naturalmente que, vindo de V. Exª., esperar-se-á um questionário exigente, selectivo e verdadeiro... mas os trabalhadores portugueses estão bastante habituados a dificuldades.

Estou certo que a sugestão lhe agradará e lhe trará o reconhecimento de muitos milhares de portugueses, que deixarão de o assobiar e que irão votar em si, mal a oportunidade se lhes depare.
Fico aguardando que uma pausa nos seus inúmeros afazeres lhe permita analisar e aceitar a minha sugestão, disponibilizando-me para ajudar na redacção da "cartita", se a mesma for escrita de acordo com o antigo acordo ortográfico.

Para o questionário, sugiro que contacte o jornal "Público", com quem V. Exª. mantém excelentes relações, e obtenha dele um daqueles inquéritos de Verão, que satisfará plenamente o fim em vista.

Para garantir que as cartas serão entregues aos destinatários e que não haverá aproveitamentos indevidos em todo o processo, talvez seja conveniente a nomeação de um grupo de trabalho chefiado por aquele seu amigo das secretas, que me parece estar sem emprego e que deve ter o perfil adequado para tal.

domingo, 24 de junho de 2012

Netos

O Duarte chegou!

Calmamente, como se esperava, o meu terceiro neto aguardou que o avião trouxesse o pai de regresso, permitiu que o avô saboreasse um almoço na sua futura casa, deixou os pais darem um passeiozito à Foz para descomprimir e, ao cair da noite, ei-lo neste mundo para fazer a felicidade de todos nós.

Veio no dia de S. João, sem arquinhos nem balões, mas com a festa a que tem direito e merece.

No final de um dia cheio de emoções, que amanheceu com a filha no hospital e o filho no avião, sabe bem receber uma notícia destas ... e o coração aguenta!


terça-feira, 19 de junho de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Não conhecia, nem sequer de nome.

Na visita à Feira do Livro deste ano, uma pequena nota na capa despertou-me a curiosidade: "Sem dúvida o maior romancista vivo de Espanha - António Lobo Antunes".

A sinopse da contracapa confirmou o impulso e comprei Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé.

Li, fascinado, uma estória atribulada, passada nos finais dos anos quarenta, com o fim da 2ª. Grande Guerra ainda fresco e a ditadura de Franco em pleno.

Um adolescente imaginativo, travesso e artista, um bebé a reflectir no útero de uma mãe bela e ruiva, um polícia casmurro e apaixonado, um cão velho, rabos de lagartixa com propriedades terapêuticas, um pai anarquista, perseguido, idealista e metafórico e muito, muito mais.

"(...) no meio da circulação inclinada e pesarosa das pessoas, aquela menina que parece ter-se apropriado de todas as cores e fulgores do dia pára um momento e consulta o seu relogiozinho de celulóide com números amarelos e ponteiros de purpurina. O mostrador é celeste e a pulseira que lhe cinge o pulso é de cor violeta transparente com franjas amarelas. Porque olhas para ele, irmão, se sabes que os números mentem e os ponteiros são pintados e marcam sempre a mesma hora, uma menos um quarto? Consultas o teu relógio de pacotilha para fingir que és uma pessoa ocupada, alguém com certa pressa de chegar a um encontro importante?(...)"

Rabos de lagartixa
Juan Marsé
D. Quixote (2011)

terça-feira, 12 de junho de 2012

E o futuro é hoje ...

Porque vale a pena preservar, para memória futura, quando a história julgar os "vendilhões do templo" e os vindouros verificarem que, apesar de tudo, houve alguns dos nossos melhores que não calaram, não foram subservientes nem politicamente correctos, e usaram a liberdade, clamando de forma clara que o rei deste neoliberalismo que nos entra pela casa dentro todos os dias afinal vai nu e que só conseguiremos sair deste atavismo se valorizarmos e utilizarmos o conhecimento, a educação, a cultura, a ciência, para seguirmos em frente.

Que grande aula deu o Professor Nóvoa para a nossa história e para que os meus netos não tenham vergonha do país onde nasceram.



"(...)Mesmo na noite mais triste, em tempos de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não(...)" (Manuel Alegre - Trova do Vento que passa)

sábado, 2 de junho de 2012

Troika

As referências que por aqui tenho deixado sobre Miguel Sousa Tavares (que não conheço nem sequer de uma pequena festa de anos, como o outro) demonstram o meu apreço pelo escritor, pelo jornalista, pela forma como escreve, pelo desassombro com que assume as suas opiniões e pela intransigência que mantém na defesa da liberdade e da justiça.

Na semana em que, finalmente, a lenta justiça lhe reconheceu razão no processo movido contra uns energúmenos que panfletaram "notícias" segundo as quais haveria partes plagiadas no Equador, MST publica mais uma excelente crónica no Expresso, da qual respigo dois parágrafos:

"(...) Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção em matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República.

(...) Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever."

domingo, 27 de maio de 2012

FCP Campeão Europeu 1987

Passam hoje 25 anos sobre a vitória do Futebol Clube do Porto na Taça dos Clubes Campeões Europeus de futebol, a que assisti após mais de 4.000 Km de uma viagem cheia de aventuras e de peripécias, sem GPS nem moeda única, com passaporte e revista, demorada e bem inquirida, em todas as fronteiras.
Com um mapa sobre o qual tinha sido marcado o percurso que parecia mais adequado, oito "malucos" partiram à aventura, com 3 tendas, mantimentos, vontade e pouco dinheiro, compraram os bilhetes para o jogo já em Viena, foram gozados pelos alemães antes do mesmo, assistiram ao silêncio de muitos milhares aquando do calcanhar do Madjer e ao barulho ensurdecedor de meia dúzia de centenas de "portugas", cá dos confins do "sul mandrião", após o golo de Juary e até ao final da festa. Foi bonito!
Os adeptos do Bayern, que nos cumprimentaram na estrada e nos acessos ao estádio com gestos de dedos, uns referindo o número de golos que iriam marcar e outros aquele sinal, igual em todo o mundo, dos dois dedos encolhidos para um esticado, renderam-se à evidência de que "vale mais quem quer que quem pode", guardaram a arrogância no bolso e regressaram ao seu país com um "melão" bem maior do que aquele que, este ano, lhes voltou a calhar, com a diferença que, agora, a viagem ainda foi mais curta.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Cheguei ao fim!

São 1054 páginas de um português adjectivado, substantivo, recheado de belíssimos e desusados vocábulos, num romance sobre a história da Marquesa de Alorna, poetisa, neta de Leonor de Távora.

Ao longo da viagem histórica e romanceada, visita-se e reflecte-se sobre o despotismo de Pombal, as intrigas da corte, o papel das mulheres, o luxo, a superficialidade, os amores, as traições, os casamentos de conveniência, a "loucura" da Rainha e o oportunismo do Príncipe, as baixezas de Pina Manique, a revolução francesa, os interesses dos Estados, a política (só para homens), a poesia e os poetas, numa descrição cativante e empolgante, que faz ressaltar sempre a ânsia do saber, os livros, os ideais, as ideias, as Luzes que comandam, mesmo que, aos olhos da grande maioria, surjam descabidas, sem nexo, sem interesse, importância ou justificação.

Um grande livro!

As luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2011)



terça-feira, 15 de maio de 2012

Quotidiano ... em férias

Embora não seja (ainda) sexagenário, o computador parece já ser da "idade da pedra lascada" e lá me vai pregando partidas, não funcionando quando deve, muito menos quando eu quero, mas quando lhe apetece ou lhe dá na real gana.
Tinha alinhavado meia dúzia de linhas sobre o fim de semana que, entretanto, perderam oportunidade e actualidade.
Fica apenas a referência a (mais) um grande concerto de Bethânia no Coliseu e uma lição de história no CCC, com muitas "estórias" à mistura, as quais, tudo o indica, irão surgir em mais um livro do Juiz Carlos Querido.
Ontem cumpriu-se o ritual, assistindo-se ao concerto do 15 de Maio, fraquinho na qualidade e fortíssimo nos decibéis (será da idade?).
Uma ida à Foz, o corte das pernadas dos pessegueiros que não aguentaram o peso da idade e dos frutos e ... dois dias já lá vão!

sábado, 12 de maio de 2012

Bernardo Sassetti

Já só figura na memória e na estante dos discos.
Partiu um grande, um extraordinário músico.
Fica a obra do génio e a afabilidade, simpatia e humildade de um homem com quem tive o privilégio de privar, em três ocasiões distintas, nas quais me demonstrou (como se eu não soubesse) que não é preciso dizer ou fazer constar que se é bom: está à vista!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alma mater

A luz, tão intensa quanto a dos teus olhos, as nuvens, que muitas vezes te trouxeram tempestades, a música, que não me trauteaste ao ouvido.
Fazias (fazes) hoje 89 anos.
Obrigado, mãe.

sábado, 28 de abril de 2012

Palavras bonitas

HORA DE PONTA


Olhos rasos de mágoa
trazem perda nos sentidos
e um andar que não recua
sem nunca ir mais além.
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém

Nada está escrito
Manuel Alegre
D. Quixote (2012)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Percurso


No exercício de hoje
Pra relembrar tempos idos
Tento colocar os sentidos
Alerta,
Na matemática.

Contei seguido e aos pares
Saltei como o caranguejo
E que vejo:
No dia da liberdade fiz
A capicua de dois,
Algarismo que serviu,
Depois,
Para completar duas dúzias.
Vejam só a ambição
De ver o tempo correr
Que doze meses passados
Já cá tinha um quarteirão.

Na época da ilusão
Tudo parecia real
O mundo estava a mudar,
(os filhos já a chegar)
Não havia volta a dar!
Acabara a escuridão,
O horizonte era vasto.
(como o pensar era casto)
O futuro já nos sorria
Na janela bem aberta,
De um país que pulsava,
Sentia, vivia, sonhava,
E, sobretudo,
Acreditava!

Os anos foram passando …
Os alcatruzes da nora
Já não trazem água fresca.
Está turva, que bem se nota.
A janela está fechada
Por culpa de quem a fez
(não cuidou bem da madeira)
E deixou que o caruncho
Sulcasse, de novo, a cama
E lhe apagasse a chama!

E eu, que só queria provar
Ser capaz de me contar
Por formas mui variadas:
Doze lustres, cinco dúzias,
Seis dezenas, quatro arrobas,
Dei uma volta na vida
E encontrei um cenário
Triste e tão pesaroso.
Hoje, já sou idoso,
Cordato, sexagenário!

domingo, 15 de abril de 2012

Madredeus

Ontem foi noite de concerto no CCC, que ainda permanece frio, à espera que a austeridade desapareça ou que o verão surja, quentinho.
Os Madredeus escolheram as Caldas para apresentarem ao vivo o novo disco - Essência - recentemente editado e que assinala os 25 anos do grupo. O trabalho é uma visita a alguns dos muitos êxitos que, ao longo deste quarto de século, nos habituamos a ouvir, a ver e a apreciar, e que surgem como uma roupagem nova, mais cheia e mais lenta.
Do anterior agrupamento restam Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres de Magalhães, surgindo um violoncelo a brilhar nas mãos de Luís Clode (foi professor no Conservatório de Caldas), dois violinos, Jorge Varrecoso e António Figueiredo, e a voz de Beatriz Nunes, a procurar fazer esquecer Teresa Salgueiro.
A primeira parte não foi brilhante, com a música a sobrepor-se demasiado à voz, algo tensa, de Beatriz Nunes, que parecia adivinhar as comparações que se faziam na plateia.
Na segunda parte, Beatriz Nunes surgiu mais tranquila e mais segura, resultando um excelente concerto, onde ressaltou a qualidade dos novos arranjos e o virtuosismo dos músicos.
Já passava da meia-noite quando se ouviu a última música dos "encores", com uma interpretação excelente, que nada ficou a dever à que abaixo se reproduz.
Uma pequena nota final: ao consultar a página dos Madredeus verifiquei que o primeiro concerto do grupo a que assisti aconteceu em 20 de Maio de 1994, no Mosteiro da Batalha. Já lá vão quase 20 anos!

domingo, 8 de abril de 2012

Cão de ... rocha

Foz do Arelho, manhã de hoje.
O cão, que o tempo esculpiu na rocha, medita no modo como o mar tirou a areia que cobria as rochas e a transportou para a aberta, sem uma única máquina, camião ou draga.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quotidiano

Lapso (Adjectivo) - Erro, falta que se comete, falando ou escrevendo, por inadvertência, descuido ou falha de memória (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).
Na semana da Páscoa, o Ministro Gaspar explicou, pausadamente como é seu timbre, que o ano de 2015 será o consecutivo do ano 2014 e que os subsídios de Natal e de férias voltarão aos bolsos dos funcionários públicos, de forma gradual, nesse ano e não em 2014, como, por mero lapso, havia referido anteriormente. 
Ainda bem que o Ministro Gaspar explicou tão direitinho aquilo do ano consecutivo. Esta angustiante ignorância de não saber que o ano de 2015 era o consecutivo de 2014 estava a aumentar-me perigosamente os níveis de ansiedade. Ficou tudo claro e vou passar a dormir mais tranquilo, à espera que 2016 seja o consecutivo de 2015 e que um senhor Fulano de Tal qualquer surja como consecutivo do Ministro Gaspar, muito antes disso.
Já não há pachorra para aturar aquele ar de sapiência infinita e aquela voz monocórdica de suprema clareza.
Tranquilo com a sequência dos anos, estou agora ansioso para não perder o momento em que o porta-voz do Conselho de Ministros virá explicar o lapso de se ter esquecido de nos informar que tinham aprovado a suspensão das reformas antecipadas, coisita de somenos, uma vez que se trata da gestão do dinheiro dos nossos descontos.
Entretanto também estou a aguardar que Cavaco Silva explique na sua página do Facebook como conseguiu promulgar o diploma tão rapidamente. Não o terá lido? Terá sido lapso?
Durmamos descansados, que há sempre alguém inteligente que vela por nós e pelo nosso bem-estar.
Devemos, por isso, voltar a ser "cidadãos atentos, veneradores e obrigados, a bem da nação", como antigamente, lembram-se?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Portugal ... pequenino

António Lobo Antunes é um dos escritores preferidos cá de casa e a sua obra literária (completa) tem lugar de destaque na memória e na estante.
Para além dos livros que o mantêm sempre por aqui, quinzenalmente faz-nos a visita nas crónicas da Visão, já por várias vezes aqui destacadas.
Esta semana, com um humor irónico de alto nível e a qualidade habitual da escrita, Lobo Antunes espraia-se pelas figurinhas e pelos figurões desta "nação valente e imortal" e termina assim: 
"... Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes."

domingo, 1 de abril de 2012

A cabana do pescador



Numa manhã cinzenta, com alguns pingos a convidarem a ficar em casa, cumpriu-se o ritual do Domingo, com uma ida à Foz para mirar as obras intermináveis da dragagem e procurar que o ar do mar limpe o nariz que os pólens teimam em manter congestionado.
O pisar difícil da areia e o mar a provocar lembranças dos mergulhos que irão chegar dentro em pouco, despertam, lembram, fazem reflectir naquilo que somos, no que queremos ser, no que não somos, naquilo a que damos importância.
Há cerca de uma semana, num movimento voluntário a nível nacional e com a devida divulgação, houve uma acção de limpeza por variadíssimos locais públicos, que recolheu muitas toneladas de lixo.
Ontem, de acordo com as notícias, cerca de 50.000 portugueses manifestaram-se em Lisboa contra a diminuição do número de freguesias e ouviram discursos inflamados de autarcas preocupados com o bem estar das "suas" populações e com a eventual extinção dos serviços que as "suas" autarquias a elas prestam, tais como, cito, "abrir conta no Banco".
A cabana do pescador ilustra, com eloquência, a falta de civismo, de educação e de respeito pelo que é público e de todos. O pescador que, se lhe for perguntado, dirá que ama a natureza e principalmente o mar, deu-se ao luxo de construir uma barraca para se proteger e ainda deixou um montão de lixo que levou e que alguém há-de limpar.
A autarquia, lá para os finais de Junho, acudirá, pressurosa, a limpar a praia, com grande sacrifício financeiro, só justificado pela preocupação, conhecida, com o bem estar dos veraneantes.
As fotos são apenas uma pequena ilustração do muito lixo que a Foz contém.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia Mundial do Teatro

Apesar de o teatro da vida nos reservar surpresas onde menos se esperam, regista-se a comemoração do dia salientando o excelente trabalho que o Teatro da Rainha, remando muito, vai realizando nesta terra.

Na sua página pode-se espreitar o que vai acontecer ... com a possibilidade de, um dia, poder ver teatro na sala que (ainda) é projecto.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1922)

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

O Sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

O sal da língua
Eugénio de Andrade
APEL (2001)