quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Vai um, chega outro

Como sempre - já lá vão tantos que se tornou rotina - está a chegar ao fim mais um ano que, como todos os outros, teve 52 semanas, doze meses e "só" 365 dias. 

Comidas as doze passas, surgirá o neófito, de imediato laureado com taças, vivas, tampas a bater, abraços, beijinhos, votos exacerbados, foguetes e fogo de artifício, rogos de melhores dias, apelos sentidos para a vinda da paz em todo o mundo.

Apesar de tudo ser efémero, vale a pena manter não só as tradições como os votos que sempre nos alertam para a necessária melhoria que, muitas vezes, parece tão distante ...

domingo, 28 de dezembro de 2025

Coisas da idade

Com menos frio, céu quase azul e sem vento, o último domingo de 2025 prepara-se para encerrar a semana natalícia, sem alterações à rotineira, cíclica e repetitiva jornada dos dias que se sucedem, como sempre.

A evidência do parágrafo anterior é tal que será muito difícil encontrar um único ser humano neste mundo globalizado que a não pudesse ter escrito, registando a patente nos anais das máximas de "encher chouriços". E por lá ficaria muito bem, fazendo parelha com as muitas que, todos os dias, os nossos ouvidos apanham, mesmo não o querendo e muito menos desejando.

Vem a propósito, ou talvez não, essa moda nova de atender e falar ao telemóvel em alta voz, divulgando aos quatro ventos conversas que, em princípio, pareceriam merecedoras de alguma reserva ou, até, de conteúdo altamente privado.

Não bastava ouvir, em qualquer lado, o "nosso" companheiro de caminho, de sala de espera, de restaurante ou, por vezes, até de sala de espectáculo, quanto mais agora ter passado a ser chiquérrimo gramar o seu interlocutor, respondendo ou questionando, num diálogo aberto, barulhento, incomodativo e, sempre, sem qualquer interesse para quem nem sequer foi ouvido sobre a participação no acto em si.

- Ouve-se bem melhor assim!

Pois ... não seria melhor comprarem o aparelhinho do Goucha?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Desilusão

Nem o Pai Natal, que percorreu o mundo carregado de prendas para toda a gente, se lembrou de mandar entregar umas toneladas de areia na Foz do Arelho, com o objectivo de a recolocar nas condições devidas e exigidas por quem dela gosta.

E, convenhamos, nem deveria ser muito difícil. Talvez um contacto com a Casa Branca e o homem da melena, sempre prestável como guardião do mundo, teria arranjado uma solução imediata, que lhe valeria o Nobel do veraneio e satisfaria os anseios de todos os que adoram a Foz e estão muito preocupados com a situação.

A aberta está ali a dois passos, o que inviabiliza os rotineiros e adorados passeios até lá, colocando a conversa em dia e espairecendo as vistas; as rochas cada vez se mostram mais "descascadas", quase ultrajando a moral e os bons costumes; a zona de banho tem uma ilhota, criada pela "engenharia" marítima, sem pés nem cabeça, que desvirtua completamente aquilo que o bom senso determinaria como correcto.

O meu amigo CPC, engenheiro de formação e "fozeiro" de coração, deve estar a caminho de uma depressão banheira, ao ver o tempo a passar e tudo na mesma ... como a lesma!





quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BOAS FESTAS

A todos os que, apesar da vertigem da actualidade, ainda perdem tempo a passar por aqui, desejo um excelente Natal e um Ano Novo com saúde, alegria e, principalmente com a paz que tão arredia tem andado por esse mundo fora.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Palavras bonitas

AMEAÇAS

Ao longo da madrugada
escuta
vozes que a chamam

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

E ela salta da cama
fecha portas e janelas
corre as cortinas da casa

pés descalços na friagem
de percorrer o soalho
atrás das vozes que a atraem

a ameaçam, enchamam
enquanto o anjo não vem:

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

E ela já rodopia, rodando
sobre si mesma
à espera que elas se afastem

se desvaneçam e rasguem
se entorpeçam, apaguem
desguarneçam e deslacem

Mas logo elas se desdobram
tornando no chamamento:

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

Palavras vindas de quem
do outro lado do espaço
as marca com a friagem

da ira que se contém

Anunciações
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2016)

sábado, 20 de dezembro de 2025

Aeroporto

Gente e mais gente. Está sempre mais gente, seja Verão ou Natal, Páscoa ou um dia qualquer.

- Com licença, com licença ...

- I'm sorry ...

Empurram-se as malas, os sacos, os carrinhos a transbordar, as mãos a prevenirem eventuais quedas, difíceis de controlar e terríveis de remediar.

Encaminho-me para o placard das chegadas. Os olhos espreitam, auxiliados pelos óculos, que a distância é grande e há gente, muita gente.

- Já aterrou, ouve-se ao lado. Saem da frente e encaminham-se para o sítio ideal, de onde descortinar quem sai.

Aguardo mais um pouco. A mensagem que me descansa surge. Aterraram. Sigo o exemplo dos outros e cravo o olhar onde irão aparecer. Apesar de não ser propriamente um baixote, tenho dificuldade em ter a visão total da porta. Gente e mais gente. Muitos jovens, com mais um palmo ou perto disso. Vale que a maior parte tem a cabeça inclinada para essa máquina informativa que, de quando em vez, também é utilizada para fazer e receber chamadas telefónicas. 

Consigo a colocação ideal e aguardo, sem pressas. Tenho o livro na mão, fechado. Ainda li duas ou três páginas, encostado a uma coluna. Senti que estorvava a deslocação dos outros. Recolhi-o.

Quase não há cadeiras, as pessoas são cada vez mais, gente e mais gente. Os meus devem estar mesmo, mesmo a chegar. Quero vê-los primeiro. E consigo! Corro com a velocidade de hoje, em busca dos abraços, fortes, como sempre. E comentados ... cheios de saudades e de meiguices.

O aeroporto de Lisboa tem poucas, ou nenhumas, condições para quem espera, é um facto que conhecemos bem. O contratempo desaparece quando surgem as caras alegres dos que, ansiosamente, estávamos à espera.

Os netos estão cada vez maiores! Ou serei eu a minguar?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Pombal

Tempos houve em que a saída acontecia aos sábados, primeiro dia do merecido fim de semana para quem trabalhava. Agora, que o ócio é o grande ocupante dos tempos, "sai o sábado à sexta-feira" e o Expresso chega, sempre a tempo, ainda que com muita coisa já lida e digerida no formato digital. É a actualidade ... actual e sempre em actualização. O exemplar que, semanalmente, entra em casa, é o único recebido no posto de venda onde me "abasteço". A teimosia ainda vai imperando. 

O cartoon de António só é desvendado na edição semanal. É sempre uma delícia ... actual!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) E pensar que, indiretamente, o Rio deve isso a um homem sem o menor humor e que nunca andou por estas bandas: Napoleão. Em 1808, pretendendo golpear a Inglaterra, ele apontou seus canhões para Lisboa, velha aliada estratégica dos ingleses. Incapaz de reagir ou mesmo resistir, a corte portuguesa tomou os navios e fugiu às pressas para o Rio, trazendo tudo que podia carregar, inclusive a coroa e o trono. Foi escoltada no mar pela Armada inglesa, sacramentando uma decisão com que a Inglaterra sonhava há muito: a abertura dos portos brasileiros, para que ela pudesse negociar diretamente com a colônia. Pois os portos se abriram e os tapetes vermelhos se estenderam à Inglaterra na aduana carioca. Nem Portugal, que, afinal, ainda era o dono do pedaço, passou a ter tantas vantagens alfandegárias em seus negócios com o Brasil.

Num instante, os ingleses tomaram o Rio: marinheiros, industriais, comerciantes, mineradores, fazendeiros, diplomatas, pintores, artesãos, naturalistas, escritores, missionários, aventureiros. O que animava os sonhos desses homens a virem enfrentar o sol do meio-dia? Não era apenas enriquecer ou salvar almas. Alguns ainda deviam acreditar nas narrativas sobre indígenas nuas, outros talvez quisessem encontrar a si próprios no fundo da selva e outros quem sabe queriam simplesmente livrar-se da mulher. De qualquer modo, o porto do Rio tornou-se o mais agitado do hemisfério,  com os navios ingleses despejando gente e mercadorias que eles estivessem vendendo ou comprando. No próprio ano de 1808, entraram noventa navios. Em 1810, já eram 422. Às vezes cometiam-se gafes: um inglês trouxe para vender tecidos de lã, sapatos para neve e aquecedores de casas - e conseguiu vender tudo. A maioria se deu tão bem que nunca mais voltou para a Europa. Os ingleses eram tantos que, em poucos anos, construíram um cemitério só para eles, na Gamboa, para não passarem pelo desconforto de se verem enterrados ao lado dos católicos, dos negros e dos nativos. (...)"

Carnaval no fogo - Rio de Janeiro
Ruy Castro

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Rotinas

As idas ao café estão cada vez mais reduzidas e, na maior parte dos dias, resumem-se à bica a seguir ao almoço, bebida ao balcão, sem açúcar, como sempre. Para além dos cumprimentos normais, aos empregados e aos clientes conhecidos (cada vez menos), trocam-se meia dúzia de palavras de circunstância, paga-se a despesa na máquina quando ela acende a luz do "sporting" e ... ala que se faz tarde.

Longe vão os tempos da cavaqueira, dos mexericos, dos comentários, das novidades. O café tem agora as mesas ocupadas pelos clientes de restaurante, onde se emala a comida rápida, "hamburgada", vegetariana, reduzida a dois ou três nomes desconhecidos e inscritos no quadro da entrada. Para quem ainda se revê nas ementas com cozido à portuguesa, bitoque de vaca, sopa de caldo verde, fruta da época, dourada grelhada, pescada cozida com todos, leite creme e pudim de ovos, o melhor é beber o café e dar espaço a quem trabalha e dá rendimento ao dono, para que este possa ir servindo alguns saudosos.

A televisão estava ligada num canal de notícias, com som muito baixo. Na imagem, o debate de ontem entre dois candidatos às eleições para Presidente da República.

- Viste? Que vergonha! Nunca me passou pela cabeça que chegaríamos aqui. Acabaram as tabernas mas os labregos voltaram ...

- Falar nalguns deles é dar-lhes a importância que eles não têm nem nunca virão a ter ... mesmo que, por bambúrrio, viessem a ser eleitos.

- Vira para lá essa boca. Diabo seja surdo! A culpa é nossa, não contámos aos novos ...

Talvez seja culpa nossa, dos que comeram bacalhau com batatas e batatas com bacalhau. Tentámos esquecer e fechamo-nos em copas. Está aí o resultado!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Manhãs e caminhadas

A caminhada domingueira, no sítio do costume,  que é, no mínimo, o mais belo da Estremadura, deu-se debaixo de um céu completamente azul e um sol radioso, a fazer lembrar alguns dias do Verão que está quase, quase a chegar.

O "fotógrafo", amador e sem jeito, deixa aqui duas imagens que, se tivessem saído das mãos de um "profissional" que bem conheço, seriam (ainda) mais belas.




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Palavras bonitas

O risco que se risca e traça,
Em riste traz o risco da ameaça
Em tudo o que por nós passa,
Mesmo que rasteira e rasca a negaça,
Rasante rasa a praça
E rafeira regouga de ranço na nossa taça.
Marcante a marca que deixa
Mesmo no manco que manca e se queixa,
Marcado na marosca que nele se enfeixa,
Pelo mercador no mercado da ameixa,
Marado na marada desta endecha.

Girante o gesto que se gera movente,
Gira girando na gente,
Girafa de gorgomilo pendente
E garganta de gargalo de enchente
Gestor e garante eloquente,
Garboso e grande gerente,
Garantia deste poema displicente.

Meditação Irreverente
Lino Sebastião

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Os Valentes

Clara Pinto Correia escreveu muito, e bem! Foi bióloga interventiva e lutadora, figura pública idolatrada até que a sociedade lhe "fez a folha" e deu-lhe o prémio do esquecimento, limpando tudo o que de bom tinha realizado. Um erro, se aconteceu, bastou para que os virtuosos a condenassem definitivamente, sem apelo nem defesa.

Morreu hoje, com 65 anos. Já recebeu os elogios fúnebres de meio mundo. O costume ...

Por aqui fica um excerto de um conto, de um dos muitos livros que por cá permanecem. Todos os que escreveu tiveram lugar na "estante" mas há vários que acompanharam a filha e já devem ter feito as delícias dos netos. "Adeus, Princesa!"

******************

"Era uma aldeia muito pequenina, ao fundo de um caminho de terra muito estreitinho, por onde entrava vida, depois de atravessarmos os eucaliptos acabados de plantar. Não havia nenhuma placa a sinalizar-lhe a existência. Nem sequer havia uma bolinha no mapa. Era ali, pronto. No meio de uma planície com sobreiros dispersos e com restolho malhado de giestas e de estevas estava um rebanho espalhado pela encosta que ficava à nossa direita, e a dois ou três metros desses rebanho estava um pastor em pé, com o cajado fincado no chão, e as mãos fincadas no cajado, com um cão preto sentado ao lado, como nas imagens dos pastores que nós agora vemos nos livros que nos falam de coisas que já não existem.

A aldeia só tinha uma rua. Ao cimo da rua, acabava a estrada de terra, e abria-se um terreiro mais ou menos circular, para onde dava o alpendre do Café Saudade. Nesse dia, o Café Saudade tinha a toda a volta mesas improvisadas por grades de cerveja com portas velhas estendidas por cima, ladeadas por bancos construídos com tijolos e tábuas. E também se tinham posto ali algumas cadeiras de plástico, umas brancas e outras verdes. E estavam várias pessoas atarefadas à volta das grelhas de carvão montadas à frente das casas mais próximas. E toda a gente fazia tudo com muita calma, mas sentia-se no vento do fim da tarde uma excitação difusa, imprecisa, uma antecipação de coisas raras, que ia e vinha, como os voos rasos das andorinhas. Era a excitação de esse dia ser sábado, e de esse sábado ser o sábado da festa anual que aquela aldeia organiza sempre que o Verão começa a desandar para o fim. 

Este ano era ano de pouca sorte, porque este sábado especial estava a ameaçar chuva. Lá mais para a noite, o Duo Fadista ia subir para as traseiras da camioneta estacionada ao lado do terreiro, que já estava toda equipada para o grande momento com dois microfones e um amplificador. E, nessa altura, ia animar-se o baile ao ar livre diante do Café Saudade, debaixo de duas fiadas de lâmpadas suspensas de telheiro a telheiro. E, enquanto durasse o baile, iam beber-se muitas cervejas, e outros tantos bagaços. E haveria frango no churrasco. E também haveria coiratos e torresmos. E, a certa altura, leiloava-se um leitão. E, logo a seguir, era a dança da rosa. (...)"

Contos
Clara Pinto Correia
Relógio d'Água (2005)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Limpeza

Vivemos tempos difíceis! 

Não há nada pior para iniciar qualquer pretenso texto do que escolher um "lugar comum". E, no entanto, tem pleno cabimento utilizá-lo, quando se olha o que vai pelo mundo. Das guerras que permanecem, da Ucrânia a Gaza, da Somália à Venezuela e muitos outros sítios que são esquecidos ou devorados, rapidamente, pela espuma dos dias.

Conversações, reuniões, cimeiras, encontros, telefonemas, mensagens, "bocas", avisos, ameaças, conversas da treta, discursos profundos, opiniões certeiras, "caganeirices" chiquérrimas, falinhas mansas, gritos inflamados, tudo cheio de certezas e ditos para "inglês" ver e "portuga" crer.

Por vezes chega a parecer que regressámos à "outra senhora", com notícias, comentários e análises parciais, que nos despejam tudo e o seu contrário, fazendo-nos sentir mentecaptos e completamente desprovidos de um mínimo de senso ou de inteligência.

Valha-nos o Youtube e a música que nos disponibiliza, à borla, sem comentários e deliciosa. Lufada de ar fresco que distrai, revigora e limpa a cabeça.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração


A pergunta impõe-se: e se, de repente, a areia que o mar levou, for restaurada e voltar ao seu lugar habitual?

A resposta é: estaremos a chegar ao Verão e a preparar-nos para os banhos costumeiros.