As idas ao café estão cada vez mais reduzidas e, na maior parte dos dias, resumem-se à bica a seguir ao almoço, bebida ao balcão, sem açúcar, como sempre. Para além dos cumprimentos normais, aos empregados e aos clientes conhecidos (cada vez menos), trocam-se meia dúzia de palavras de circunstância, paga-se a despesa na máquina quando ela acende a luz do "sporting" e ... ala que se faz tarde.
Longe vão os tempos da cavaqueira, dos mexericos, dos comentários, das novidades. O café tem agora as mesas ocupadas pelos clientes de restaurante, onde se emala a comida rápida, "hamburgada", vegetariana, reduzida a dois ou três nomes desconhecidos e inscritos no quadro da entrada. Para quem ainda se revê nas ementas com cozido à portuguesa, bitoque de vaca, sopa de caldo verde, fruta da época, dourada grelhada, pescada cozida com todos, leite creme e pudim de ovos, o melhor é beber o café e dar espaço a quem trabalha e dá rendimento ao dono, para que este possa ir servindo alguns saudosos.
A televisão estava ligada num canal de notícias, com som muito baixo. Na imagem, o debate de ontem entre dois candidatos às eleições para Presidente da República.
- Viste? Que vergonha! Nunca me passou pela cabeça que chegaríamos aqui. Acabaram as tabernas mas os labregos voltaram ...
- Falar nalguns deles é dar-lhes a importância que eles não têm nem nunca virão a ter ... mesmo que, por bambúrrio, viessem a ser eleitos.
- Vira para lá essa boca. Diabo seja surdo! A culpa é nossa, não contámos aos novos ...
Talvez seja culpa nossa, dos que comeram bacalhau com batatas e batatas com bacalhau. Tentámos esquecer e fechamo-nos em copas. Está aí o resultado!
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