"(...) A águia ouviu o relato do falcão sobre a necessidade de introduzir as artes e as ciências na herdade e não compreendeu de imediato. Pôs-se a grasnar e a raspar com as unhas, e os seus olhos, como seixos polidos, tornavam-se lustrosos ao sol.
Nunca tinha lido nenhum jornal; não se interessava nem por Baba-Iagá, nem por bruxas, e sobre o rouxinol somente tinha ouvido uma coisa: era um pássaro pequeno e não valia a pena sujar o bico por sua causa.
- Se calhar nem sabes que o Bonaparte morreu - disse o falcão.
- Quem é esse Bonaparte?
- Aí está. Não te faria mal saberes isso. Os convidados vão chegar, conversar e dizer: <<Isso ocorreu nos tempos de Bonaparte>>, e tu vais simplesmente pestanejar. Não é bom.
O mocho foi convocado para a assembleia e acabou por confirmar a necessidade de introdução das ciências e das artes entre a criadagem, pois com elas até as águias têm uma vida mais divertida - e atribuem inclusive um certo estatuto. A aprendizagem é luz e a ignorância são trevas. Cada um é capaz de encher o papo e dormir, mas quando chega a altura de resolver o <<Voava um bando de gansos ...>>, quem será capaz de responder? Antigamente, acontecia que os senhores de terras sábios trocavam dois analfabetos por um instruído: significa que nisso havia proveito. Olhem para o lugre: é todo ele ciência, sendo até capaz de trazer o baldinho com a água, mas quanto dinheiro não cobra por isso!
- A mim, apelidaram-me de sábio porque consigo ver na escuridão - disse o mocho. - E tu és capaz de olhar para o sol horas a fio sem pestanejar, mas sobre ti dizem: <<A águia é ágil mas papalva.>>
- Bem, não tenho nada a opor às ciências! grasnou a águia.
Dito e feito. No dia seguinte, na casa da águia começou a Idade de Ouro entre a criadagem. Os estorninhos aprendiam de cor o hino As ciências alimentam os jovens, os codornizões e os mergulhões afinavam as trombetas, os papagaios aprendiam novos truques. Os corvos foram obrigados a um imposto novo chamado <<educativo>>; para os jovens falcões e açores organizou-se o corpo de cadetes; para as corujas, os mochos e os bufos inaugurou-se a academia de ciiance e, a propósito, foram comprados Ásbuka-Kopéika para os corvos. Finalmente, o estorninho mais velho foi nomeado poeta, sob o nome de Vassili Kirilych Trediakovski, e ordenaram-lhe que se preparasse para competir com o rouxinol no dia seguinte.
Então, chegou o dia ansiado. Os recrutas foram colocados diante da águia e ordenaram-lhes que se vangloriassem.
O dom-fafe teve o maior sucesso. Em vez de uma saudação, recitou um folhetim satírico de conteúdo tão superficial que até a águia julgou ter compreendido. O dom-fafe declarou que se devia viver bem e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que só lhe interessava que as suas vendas a retalho corressem de feição, e quanto ao resto pouco lhe importava, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Acrescentou ainda que os criados vivem melhor do que o proprietário, porque o proprietário tem de pensar em tudo, enquanto os criados não têm nenhuma preocupação com o seu amo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que, antigamente, quando tinha vergonha, o dinheiro não lhe chegava para comprar calças, e agora que não lhe sobra um pingo de vergonha, anda com dois pares de calças ao mesmo tempo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Por fim, o dom-fafe tornou-se enfadonho. (...)"
A águia-mecenas
Mikhaíl Saltykóv-Shchedrín (1884)
Antologia de contos satíricos e humorísticos russos
Colecção de Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China (2025)