terça-feira, 25 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando, depois de uma (ou várias) estórias, muito bem contadas, sobre vários ditadores e ditaduras de África, nos deparamos, quase no final do belíssimo livro, com esta riqueza de palavras, concluímos, sem dificuldade, que ler vale a pena e que a Língua Portuguesa não precisa do famigerado acordo para ser tão rica nas suas diferenças. O autor nasceu em 1964 no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde.

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"(...)  A Presidenta leu, fisgou os golpistas com a caneta suspensa na mão e repetiu, vocês não entenderam a minha ordem?, os senhores vão tomar banho, caso contrário, mando o jardineiro regá-los aqui mesmo, à força, pois Vossas Excelências apestam o estrume da farda surrada, eu tenho alergia a suor.

- A senhora está presa e matada já futuramente, gritou o Sargento.

Os homens da infantaria desengataram a baioneta, dois deles agarraram a Presidenta pelo ombro, dobraram-na para colocar as algemas e, no exacto momento, uma cortina rosa de veludo lavado se abriu, dezasseis mulheres acenaram como cisnes atrás da voile e vozearam:

- Somos vossas mães, prendam-nos também,

seus porcos-espinhos, suas porcarias, seus poucas-vergonhas, falhados, mal-educados, agiotas, aldrabões, aleivosos, torpes, analfabetos, arrelampados, desumanos, arruaceiros, aselhas, asnos, candongueiros, atrasos de vida, bajuladores, paspalhos, pedantes, bandalhos, bandidos, batoteiros, beatas do Exército, bodes malcheirosos, broncos, caloteiros, camafeus, canalhas, carniceiros, casmurros, cavalgaduras, chauvinistas, chibos, choramingas, cínicos, cobardes, convencidos, corruptos, cretinos, delinquentes, demagogos, dementes, demónios, depravados,

(a primeira mãe parou, a outra atou):

desleais, desmancha-prazeres, desmazelados, déspotas, destrambelhados, párias, destroços, devassos, ditadores, drogados, egoístas, embirrentos, embusteiros, empecilhos, emplastros, energúmenos, escarumbas, escroques, esqueletos vaidosos, estropícios das vossas mães, estupores, estrupadores, facciosos, facínoras, falhados, fanáticos, fanfarrões, fantoches, farrapos, reaccionários, ressabiados, retardados, farropilhas, farsantes de generais, fedelhos mal-amados, figurões de patentes, fingidos de gente, fracos de espírito, franganotes, fúteis, gananciosos, insaciáveis,

(outra mãe secundou):

gatunos, grosseiros, grunhos, hereges, hipócritas, idiotas, ignorantes da vida, imaturos, imbecis, impertinentes, importunadores de mulheres, bêbados de má cepa, bocas de xarroco, indecentes, ineptos civis, infames, infelizes domiciliares, infiéis de igrejas mercenárias, intriguistas, asquerosos, assassinos, invejosos de cargos e competências, insensíveis ao amor, burros, cabeças-de-alho-chocho, cabeças-de-vento, calaceiros, insignificantes, insolentes, intolerantes, labregos, lacaios, ladrões, lambisgóias, larápios, lerdos, leva-e-trazes, línguas-de-trapos, lunáticos, mafiosos, malandros, malfeitores, maltrapilhos, trafulhas, traiçoeiros, traidores, malvados, manhosos, maníacos, manipuladores de eleições, maniqueístas, manteigueiros de brancos, marados dos cornos, 

- Calem-se, ordenou o Sargento.

E as mães, com as ofensas bem decoradas e tecidas por didascálias, rimas e ordem alfabética, auxiliadas com lengalengas para ofender todos os políticos medíocres que o mundo moderno tem produzido, da esquerda à direita - e são muitos, na sua grande minoria mentirosos e pulhas - continuaram:

piolhosos, avarentos e arrogantes, marginais, impostores, marmanjos sem tomates, maus, maus e maus, medrosos, mijões, rafeiros, monstros, mórbidos, nhurros, obtusos, caguinchas, otários, pernas-de-alicate, popularuchos, punheteiros de casernas, racistas, sádicos, saloios, sarnentos, sebosos,

 - Vão tomar banho, interrompeu a Presidenta. (...)"

Afrocalipse
Mário Lúcio Sousa
D. Quixote (2026)

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